sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Se eu morresse amanhã, poema RCF


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Se eu morresse amanhã,
minha irmã riria,
e diria que tomei bastante remédio.
Minha mãe não saberia
quem morreu, se o menino louro
ou o adulto atrapalhado.
Meu filho lamentaria
ter-lhe estouvado um encontro.
Se eu morresse amanhã,
só o morto compareceria
por dever de cerimônia.
Se eu morresse amanhã,
não teria que ler mais Álvares de Azevedo
para dar aulas noturnas
e ganhar uns caraminguás.
Se eu morresse amanhã,
ninguém se importaria
a não ser os coveiros
que, sob o sol do cemitério,
teriam que cumprir sua função
de plantar sementes que nunca germinam.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)





 

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