terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O homem e sua estatura, poema RCF


Que fita medirá meu tamaninho
admirado nas salas de cinema?
O medo se flexiona apenas na primeira
e minha pessoa.

Que métrica medirá meus versos
ou que metro me dirá
a forma, volume e dimensão
do pensamento inexato, da existência imprecisa,
dos sentimentos dúbios e do gosto duvidoso pelas baladas antigas?

O homem tem várias estaturas por dia.
E, na morte, dois pesos e duas medidas.
Medirá o caixão
e os anos da vida.
O peso da vida que se livrou
e o peso da morte que o encarcerou.
Mas a verdadeira medida do homem está em seu bolso:
na medalha de São Jorge, na chave do escritório,
no telefone anotado no guardanapo, no cartão de negócios:
o bolso mede o homem
estatura de miudezas
a culpa, o remorso, a heroicidade anônima
escondida, escura e de pano.

Que diâmetro tenho eu das minhas dúvidas?


(do livro Estrangeiro, Ed. 7Letras, Rio, 1997)

imagem retirada da internet: igorkmarques

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