segunda-feira, 23 de maio de 2016

A seringueira, poema RCF



A seringueira sangra,
cortada nos pulsos,
o sangue branco do látex.
Pelotões desavergonhados
sem ordem nem progresso
– a imagem dos homens-rãs
submergidos na umidade verde.

Suor de ouro
na epiderme
da terra doente.
Floresta grega:
a medusa dos galhos,
o jogo dos espelhos verdes,
o enigma das árvores mudas:
o homem, um animal planta
ou
uma planta animal?
o coro fatal dos fazendeiros.

Os bichos piam
pio pio pio pio pio pio pio
– a floresta geme – ,
o vento mesmo, nos matos,
se esgueira como quem
passa por porta estreita,
à noite, em volta da fogueira,
a chama exclama.

Os olhos insones da coruja,
o balé da suçuarana,
a caricatura do macaco
no traço dos galhos.

Os caminhos bíblicos da floresta,
trilhas tortuosas
que vão dar no lugar certo.
Não há dia nem noite na floresta
mas um longo tempo florestal:
eterno, um tempo antes da criação.
Santo Agostinho perguntou:
– O que fazia Deus antes da criação?

A incerteza do chão
que se move com as cobras
– medo não é o veneno,
mas o chão, serapilheira,
                         e falta aos pés.


imagem retirada da internet: serigueira

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