quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Um homem é muito pouco 23


     
        Onde está minha cruz? Às vezes deito no chão. Ponho pé sobre pé. Abro os braços. Tento pensar como Cristo. Não sou Cristo. Nem sou cristo. É apenas um exercício. Tem gente que faz flexão; outros, abdominais. Minha flexão é mental. Minha abdominal é cerebral. Faço duzentas flexões mentais. Por outro lado, meu recorde é cento e vinte abdominais cerebrais. Uma delas é pensar como Cristo. O que Cristo pensou na hora em que estava na cruz? Doem-me as costelas, tenho um pulmão perfurado, vaza água dentro de mim. Há uma fileira de Cristos. Só eu ficarei na História. Se tivessem me matado com uma adaga, qual seria o símbolo da minha religião? Uma adaga turca? De envenenamento? De envenenamento o símbolo teria que ser abstrato. Eu criaria a primeira religião cujo símbolo é abstrato. Abstratos são o pão e o vinho. Se morresse envenenado poderia eleger a pimenta como símbolo da minha religião. Riam, riam. Ninguém consegue hoje pensar em Cristo e não pensar na cruz. A Bíblia teria sido reescrita: o vinho é o meu sangue, o pão é minha carne, e a pimenta será minha cruz. Não, não pode haver cruz. Então há de reescrever a última frase. Mas Cristo, na última ceia, não fala da cruz. Então não seria necessário reescrever a Bíblia.

            Quanto tempo passo como Cristo? Não sei. Às vezes estou na rua e também sou Cristo. Ninguém sabe que sou Cristo na fila do supermercado, na fila do banco, na feira livre. Ser Cristo na feira livre equivale a cinquenta flexões, o sujeito que consegue se concentrar numa feira livre faz muito mais esforço que se concentrar na antessala vazia de consultório de dentista. Meu exercício para ser Cristo é tremendo. Estou na fila do caixa do supermercado e me imagino ali com coroa de espinhos na cabeça, camisão branco, barba longa e escura. Ninguém vê minha coroa de espinho, meu camisolão branco e minha barba comprida. Um amigo meu não vê diferença entre mim e um hare krishna que canta mantras. Mas não é igual o meu Cristo a ser um budista de classe média de cidade grande no meio dos trópicos, no calor de quarenta graus do Rio de Janeiro no verão, onde até as ideias são bronzeadas de tanto esquentar o cérebro, mesmo na sombra. Um calor como esse não deve fazer bem aos nervos nem aos pensamentos.

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