sexta-feira, 25 de março de 2016

O algodão dos dias de fumo

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O algodão floresce no capucho
dos meus dedos, bola de pelo
que se emaranha de branco.
Desse tufo farei outra nuvem,
carregada de nimbos.
 
O algodão avança minha memória
e quer fazer do quarto
os quartos acolchoados dos loucos,
onde não se pode jogar a cabeça
contra as paredes do tempo,
cobertas de fumo branco.
 
Comprarei um descaroçador
para tirar o prepúcio da razão.
E minha mão não existirá mais,
tomada toda pela luva branca
os dedos como espinhos
que acusam a brancura do algodão amargo
e a colheita de fetos.
 
 
(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

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