quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Por que um homem é muito pouco, Edilson Dias Moura




Edilson Dias Moura
Crítico Literário, Mestre pela USP, Editor da revista Opinães.


Publicado no fim de 2010, começo de 2011, pela Nankin, Um homem é muito pouco revela mais do que se espera sobre nosso tempo. Ao transformar em simbólico, representativo, o usual e imperceptível, e até mesmo o repugnante, em literatura, o romance nos leva, contra o pano de fundo de nossa memória, ao reconhecimento dos muitos de nossos pseudovalores ético-morais, produtos do consumo-capitalista e do marketing, de uma estrutura sociomental reificante; contudo, não num sentido de denúncia social, mas em termos de elaboração estética literária. A surpresa é tal que aquelas primeiras elucubrações iniciais, dos prêmios principalmente, se dissolvem completamente sob o prazer da decodificação literária.

(...) Clemente reconheceu o homem que o assaltara. O coração agitou-se. Olhou para o pescoço e o cordão de ouro dele estava no pescoço do homem. Clemente avançou no pescoço do homem, arrancou o cordão. O cordão na mão lhe devolveu as forças e suas pernas rejuvenesceram trinta anos. As pernas também pensam. E o que as pernas pensaram naquele momento é que não deveriam ficar ali paradas. As pernas servem para sustentar o sujeito como pilotis, mas também servem para transformar a parte de cima do corpo em um tronco leve. (...) A metade de baixo corresponde às pernas e quando as pernas viram máquina de correr então a parte de cima é apenas um busto que é levado por uma carreta ligeira. (FERNANDES, p. 13, 2010)

Diante da ousadia do texto, percebemos que o romancista não traz na bagagem apenas alguns romances, alguns prêmios, mas sim certa compreensão da arte e da prática literária bastante surpreendente perto de tudo que nos tem sido apresentado nos últimos anos, seja por grandes ou pequenas editoras. Por meio de uma escrita muito particular e de um modo de descrever e de compor próprios, vai-se revelando a atualidade desse romance pouco a pouco.

Combinando elementos inusitados do modelo automatizado do mundo com o modo de funcionamento do raciocínio de seus personagens, suas manias, anseios etc., o autor surpreende-nos com o desenvolvimento de uma narrativa constituída de elementos que não se deixam analisar classicamente: já não se trata apenas da reificação e sua ação nas atitudes mentais, embaralhando valores mercantis e qualidades humanas; mas sim de um esgotamento do sentido humano das coisas, do sentido de fragmentação, inclusive do sentido de homem, menos que um “mineral” na vida quando destituído de um papel social. Algo só verificável em contraste com os valores de nosso próprio tempo e suas demandas, sob o fetiche dos avanços tecnológicos e da vida informatizada.

Conta-se, em determinada altura, quando se reúne a família de Eurico para comemorar o aniversário da mãe, que um de seus irmãos morrera ainda menino. Desde então, a mãe permanentemente o esperava. Para aliviar a dor dessa ausência, os familiares passam a inventar uma biografia: “foi ao colégio, fez faculdade, agora o menino morto tinha casado e ainda não tinha filho” (FERNANDES, 2010, p. 258). Eurico é relojoeiro, e desde o início desta parte do romance nos habituamos a uma espécie de assimilação da consciência, do mundo e do próprio personagem, pelos mecanismos do relógio e suas dimensões maquinal e temporal. E é nesta reunião de família, em torno da mãe numa cadeira de rodas, que encontramos uma das mais belas passagens desse romance:

Um pouco da tristeza de Eurico é que não podia fazer a felicidade da mãe. A mãe perdera os rolamentos há muito tempo. Tinha gente na família que dizia que a mãe começou a atrasar as ideias quando morreu o menino morto. E traçavam o percurso de atrasos das ideias da mãe. Lembra a viagem à Bahia? Lembra quando a mãe esqueceu onde morava? Lembra quando a mãe... e davam corda no relógio da memória a lembrar fato e datas em que a mãe se perdera de si à procura do menino morto. (FERNANDES, 2010: p. 259)

Sucede a esta passagem magnífica o elo com a primeira parte do romance, quando Clemente procura recuperar o cordão de ouro que lhe furtaram e, ao arrancá-lo do pescoço do suposto ladrão, suas pernas rejuvenescem trinta anos. Adriano, filho de Eurico, apaixonado da prima a dançar twist, observando as pernas da prima, compara a juventude e velhice da seguinte forma: “As pernas mortas eram o começo de o homem virar mineral. As pernas minerais da avó, por exemplo, já diminuída da cabeça, a transformava num busto que se recusava a deixar a vida.” (FERNANDES, 2010: p. 261).



5 comentários:

  1. No que lhe diz respeito, caro Ronaldo, apenas excluiria a palavra "certa" e afirmaria a plena "compreensão da arte e da prática literária". Um abraço!

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  2. Essa troca, embora sutil, pode modificar completamente a posição do crítico: "pleno" compreende certa totalidade de saber um tanto romântica. A indefinição de "certo" tem mais a ver com o que Osman Lins, por exemplo, pensa sobre estudar o processo de criação de um autor: quanto mais fundo vamos em tais processos, mais ampliamos seus mistérios.

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  3. Sim. Do ponto de vista crítico e "do crítico", corretíssimo. Não houve pretensão de substituir no ótimo texto (por certo, má formulação minha). De modo algum. O "pleno" permanece apenas no cumprimento que, modesta e convictamente, faço ao amigo Ronaldo.

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  4. Me perdoe a intromissão, não havia percebido. Além disso o cumprimento é mais que merecido. De todo modo, a observação só vem a calhar com sua convicção a respeito do trabalho do Ronaldo.

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  5. Obrigado, Dylan. Não há o que perdoar. Veja como as palavras - felizmente - são poderosas. Um abraço. Outro para o Professor Ronaldo.

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