terça-feira, 9 de maio de 2017

A ferro e fogo, poema RCF


A manhã tem várias roupas:
terno claro do sol
vestido de alcinha das férias
pijama suado do pesadelo
saltos – altos e baixos.
A manhã tem cama,
lençol de neblina,
a enorme movimentação
bacteriana dos homens
em direção ao caldo de cultura do trabalho.
A manhã tem vários cárceres:
a cela dos penitentes,
a cela dos escritórios,
a cela dos automóveis,
a cela dos ônibus.
A manhã tem várias casas:
a de alvenaria de hoje,
a de seda do futuro,
feita com o cimento
de algodão do amanhã.
A manhã tem seu citrino:
o falso topázio do sol na vidraça,
o quartzo dos relógios,
os gramas da esmeralda,
rubi de faróis.
A manhã tem vida e morte:
a morte que é um bem
que não se inventaria
nem muito menos
mortal algum quer descobrir a sua essência.
Minha manhã veste o terno
do pesadelo e minha essência
tem a cor citrina
da falsa idéia de que os mortos descansam.


(do livro A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: guy bourdin

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