domingo, 2 de outubro de 2016

Rodoviária, poema RCF





Daqui não se parte,
aqui não se chega,
há um tempo imóvel
em toda multidão de pés
de borracha, de pés de ardósia,
de pés mecânicos de escada,
porque aqui o que existe é
redemoinho de gente,
agitação febril que se consome,
o suor diário de cana,
o pastel diuturno da manhã,
a cabeça operária,
o relógio de ponto no pulso.

Nesta Rodoviária não há viagem,
todos estão paralisados numa cidade
operária; aqui mesmo parece ser
o destino e a partida,
vermes no estômago,
no ventre do tempo,
consumindo-se de si mesmo,
a Rodoviária para existir
necessita dessa fornalha de gente
para produzir o calor febril da cidade.
Mas aqui há também ócio
e malandragem – há o eterno
flanêur suburbano, de pente no cabelo,
masca o chicletes do conto do vigário,
os bolsos vazios de trama e promessa.

Aqui há gestantes, despachantes,
amantes, crentes, cantores e desertores.
O que me invoca é a mesmice
dos rostos mulatos desgastando-se
na fotografia 3 x 4 do cotidiano,
na impressão pouco digital
da carteira não-assinada pela vida.

Na Rodoviária, o enxame nada produz,
tudo não passa de zumbido e gás carbônico,
letreiros com os destinos mais amargos,
os exilados de todos os campos e favelas,
de todo bairro popular,
aqui estão para embarcar
não para Taguatinga, Gama, Guará,
Recanto das Emas, Samambaia,
Ceilândia, Riacho Fundo,
mas todos estão embarcando para o futuro,
lá onde não existe hoje,
lá onde não existe passado,
lá onde não existe Rodoviária.



* Da chamada "rodoviária" de Brasília partem os ônibus para as cidades satélites.

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