sábado, 17 de setembro de 2016

A vida em demasia, poema RCF






 
Não sei onde está meu extremo.
Temo a demasia
que tudo preenche
e não deixa espaço à vida.
O amor não é um apêndice,
mas muitas vezes se pode extirpá-lo.
Quando chego perto de mim,
tenho medo do contágio,
posso ser virulento,
posso ser inofensivo.
Às vezes me evito,
deixo a dor em casa
e alugo uma dor no cinema.
A dor de existir,
órgão que não posso extirpar,
não dorme nem durante o sono.
E, mesmo dormindo,
me sonha que me vigia
e vigia para que eu sonhe
que, mesmo dormindo,
tenho a dor de viver desperta.                                   



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)
 

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