sábado, 20 de agosto de 2016

Vida militar, poema RCF




radu belcin
 

 

O que o homem carrega em sua pasta
é mais que papéis: leva com ela a cabeça.
Cada órgão tem sua idade,
pode-se supor que um fígado seja adolescente,
enquanto o coração amadureceu.
As ideias também têm rugas
que são difíceis de maquiar.
Faz mal aos pulmões
quando se inspira compaixão.
O homem sai de casa acompanhado por tropa:
vão com ele seu medo, que tem alta patente,
um pouco à frente segue o futuro,
que vai mudando de farda,
do seu lado vai o fardo,
que é o grosso da tropa.
Arregimenta sua dor
camuflada de civilidade
e aquartelada pela caserna do trabalho.
Reformou-se da alegria
só espera a hora de dar baixa
no pelotão dos homens.
Só tem um superior:
o deserto que o faz mais raso
e a vida de quartel
onde não sai da guarita,
sentinela que é do inimigo
que o ronda
na noite deserta
ou na manhã que não nasce.                                                    

(de O difícil exercício das cinzas, 2014)

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