domingo, 6 de novembro de 2016

A plantação de silêncio, O difícil exercício das cinzas




Cresce a plantação de silêncio.
Os pés mudos enfileirados
e,  como café, o frutinho vermelho
do incômodo, do musgo e do azinhavre.
Os ventiladores de teto rodam
o ar morno das moscas.
A gagueira dos anacolutos
é o diálogo entre ausência e ferro.
As cadeiras de balanço
cadenciam volutas embriagadas.
A pudicícia do não-me-toques
e sua timidez em flor
cria um jardim de inferno.
A morbidez das águas paradas
enchem o copo de ceifadeiras.
O estilingue do sol
manda sua pedra de calor
que não derrete a borracha
que tudo veda, nega e capa.
O broto da juventude
– há muito fenecido –
é uma lembrança de escarpas,
uma falésia que geme
a roda não azeitada de vazadouro.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Riod: 7Letras, 2014)

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