segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Anoitecimento, poema RCF








Anoitece no meu coração coberto de ervas
e, na luta desigual, cresço com a miséria.
Trens trazem minérios de rumor e tristeza.
Além da janela, homens caçam a manhã,
enterram no lodo o tempo da esperança
e cavam fundo até aparecer o osso do mundo.
Nem mesmo as minhas imaginações servem
na tarde ferida e de tijolos exaltados
para inventar suposta vida
que não seja experiência sem retorno.
A vida como carro desgovernado
a mais de duzentos quilômetros por hora,
em noite chuvosa, numa estrada não sinalizada.
Se ao menos soubesse
o ponto de chegada dos lobos,
não me atormentaria com o tempo
que não tem começo nem fim.








(do livro A máquina das mãos, 7Letras, Rio, 2009)

imagem retirada da internet: Otto Dix


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