sexta-feira, 23 de junho de 2017

Mágoa subalterna, poema RCF




Minha mágoa boia
sobre a superfície
como uma gota de gordura
que, irresoluta, não se mistura
e nem se dissolve.
Minha mágoa é roda de moinho
como o sangue que não se cansa
de sair e voltar para o mesmo lugar.
Minha mágoa, que picota
a pele engelhada do ressentimento,
é insular
mas faz parte de outros arrependimentos:
ardiloso arquipélago:
as ilhas são barcos de remorso.
Não há iodo ou unguento
que cicatrize o que a mágoa abriu.


(do livro Memória dos Porcos. Rio: 7Letras, 2012)


Nenhum comentário:

Postar um comentário