segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O bicho homem, poema RCF



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As flores silvestres,
os animais agrestes,
toda a natureza campestre é selvagem.
Não seria o homem
uma contrafação,
já que o homem do campo
não tem mais pelos que o urbano,
mais dentes que o citadino,
mais fúria que o das grandes cidades?
Ao contrário de Rousseau,
o homem campestre é uma abstração.
Os homens são urbanos
como as baratas
e, como as baratas,
sobreviverão à bomba atômica
com suas asas de metal,
suas antenas de fio cósmico,
seu corpo invertebrado de desejos ainda a serem inventados.

                      Ou então, a pergunta é outra:
                      o que fizemos do homem,
                      de sua magnífica selvageria,
                      de seu couro sem livros,
                      da sua manada sem talheres,
                      da sua solidão sem modos,
                      do seu corpo múltiplo
                                        – macaco, homem, mineral e espasmo –
                      que vagueou, na campina,
                      antes da aurora das cidades?



 
(do livro Terratreme, 1998, Fundação Cultural de Brasília)


imagem retirada da internet: pocket of sunshine

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