domingo, 2 de abril de 2017

Um homem é muito pouco 10



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Clemente foi com a mulher e Aninha visitar a sogra pela primeira vez. A mulher do dr. Macedo, mãe de Yolanda e avó de Aninha, não reconhecia nem a filha nem a neta. A mansão do dr. Macedo era descomunal. Clemente foi ao banheiro e quando voltou não encontrou mais Yolanda. Ela havia ido para outro cômodo com a mãe. D. Severa (Clemente nunca soube o nome da mãe de Yolanda, ela só chamava a mãe de dona Severa) era servida por enfermeira.

A primeira visão da casa e da enfermeira fez Clemente se lembrar do internato em Bremen. Ele estaria de volta ao sanatório de Bremen, onde um médico alemão lhe fazia perguntas em espanhol. Talvez fosse melhor que o médico mesmo falasse em alemão. Ele tinha conhecimentos da língua universal dos marinheiros e que se fala em portos e que nela consta algumas frases e palavras em alemão. O espanhol do médico era péssimo e Clemente não conseguia entender o homem. E como o homem não se fazia entender, dava como apatia o silêncio perturbado de Clemente. O brasileiro só queria que o deixassem livre e o devolvessem ao navio de onde o tiraram. Amarraram Clemente numa maca, levaram para a câmara de raios X. Tiraram algumas chapas da cabeça e Clemente se perguntava que medicina maluca era aquela que tirava chapas de raios X da cabeça dele. O que queriam encontrar ali? Um tumor? O tumor de Clemente era mais denso e pouco visível numa chapa de raios X. O tumor de Clemente era a própria vida que andava intumescida.

O barco estava intumescido, as ruas estavam intumescidas, as pessoas andavam intumescidas pelo supermercado, pelas ruas, pelos cinemas, pelos edifícios de governo. Clemente acreditava que não estava nele a intumescência das coisas e, sim, nas coisas em si. Elas mesmas é que eram intumescentes. E o sanatório fazia parte daquela intumescência em que Clemente estava vivendo.

Agora andando pelos corredores da mansão do velho e falecido dr. Macedo, dono da fábrica de sabão que ele tanto comprara e usara, voltava-lhe a intumescência das coisas que viveu em Bremen. Ele mal podia andar e quando andava tinha que se segurar nas paredes como se segurava nas paredes quando sua embarcação pegava pela frente tempestade terrível e furiosa. Clemente tinha medo do fogo e da água. Clemente não sabia de qual elemento da natureza tinha mais medo. Qualquer um dos dois podia fazer arder ou afogar uma biblioteca. Podia queimar um homem, transformá-lo num pedaço horroroso de carvão ou podia inchá-lo de tanta água nos pulmões.

Clemente vira afogados monstruosos, cujas partes do corpo se largavam, se decompunham, se soltavam dos ossos como carne cozida passada do ponto. A velha senhora d. Severa, mãe de Yolanda, também era uma mulher intumescente. Ele não tinha nada o que conversar com uma mulher intumescente, com uma afogada, uma mulher que largava as partes da memória por onde andava.




(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

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