quinta-feira, 23 de março de 2017

Ficções, Jorge Luis Borges



                Em todo livro há uma longa peregrinação, que pode ser física, mental, metafísica, social, mundana ou psicológica. Os romances de formação geralmente levam os personagens (lembro Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe) para uma via-crúcis de lugares e experiências a fim de formar a personalidade adulta do protagonista que fornece nome ao livro. Em O ateneu, de Raul Pompéia, a experiência se dá intramuros e, embora o espaço romancesco esteja sitiado, a amplitude de ações e experiências empurra o personagem para uma transformação, de euforia à desilusão, da vida como infante ao desencanto da juventude madura. 

                Em Borges, essa peregrinação corresponde à busca do conhecimento. Uma das fascinações do escritor argentino, em Ficções, mostra o autor rendido às tramas do policial. Rudemente apresentado, o romance policial – de Simenon e Agatha Christie – busca revelar as motivações e modus operandi de um crime investigado. Diferentemente do romance noir americano, mais violento, o romance de Simenon, entre outros, é de cunho mental e fruto mais da elaboração que lembra a resolução de um quebra-cabeça. Borges utiliza muitas vezes o crime, físico. Há homicídios e mortes, espionagem e traição, espiões, heróis e pusilânimes, mas rigorosamente Borges coloca toda a trama e o personagem para perseguir um enigma e uma combinação de fatores intelectuais e livrescos, em que menos importa um cadáver que uma longa descrição do método erudito de desvendar um mistério por intermédio da hermenêutica de um livro (entre outros, “El jardín de senderos que se bifurcan”).

                O labirinto de Borges também é um labirinto linguístico. Não há jogo de palavras, mas um jogo em que faltam letras em livros a serem decifrados. O leitor está diante de uma construção hiperbólica em que o texto é construído e desconstruído diante dos seus olhos, levando-o a acompanhar o raciocínio do narrador em sua viagem cognoscitiva. “El libro circular es Dios”, escreve Borges em “La loteria en Babilonia”. Nessa busca pelo conhecimento, o leitor acaba envolvido num emaranhado de citações eruditas e de recorrências a textos duvidosos, outros de autoria reconhecida, mas ambos desembocam no mais volumoso torvelinho que nos confunde e nos carrega até um nível de uma compreensão da fragilidade humana ou “as complexidades del mal y del infortunio”, no dizer do narrador de “Tres versiones de Judas”.

                Livros, labirintos, jogo de espelhos, erudição, certo orientalismo (o orientalismo de Borges não é exotismo e/ou não está a serviço de uma mística espiritual como os livros de Herman Hesse, por exemplo; em Borges de Ficções, o que existe é mais um instrumento que o autor se vale para buscar o conhecimento que certamente será bem diferente da premissa inicial), reescritura da Bíblia e de certos livros, judaísmo, mundos paralelos, personagens saxões e nórdicos. Estes últimos nos remetem a certo distanciamento de Borges em relação ao narrado. O presente é a condenação: em “El fin”, o narrador acusa: “... a viver en el presente como los animales”. Da mesma maneira em que data a ação transcorrida em grande parte de seus contos em épocas remotas, distantes do presente, seja o século XIX, seja a Babilonia, seja o início do século em que viveu, Borges busca uma suspensão temporal, quase insinuando uma atemporalidade (ainda que situe em situações concretas como, por exemplo, 1939, para um conto escrito em 1943, a morte por fuzilamento em que o condenado reescreve de memória uma tradução que duraria um ano, cujo título é “El milagro secreto”).

                Outra forma de enxergar a busca do conhecimento em Ficções é observar como Borges maneja a erudição, o mistério, a proposição do enigma livresco e cultural, a criação – também literária – de novos mundos escondidos em enciclopédias, que são em última análise, a coleta de todo o possível conhecimento. No conto “La secta del Fénix”, o narrador apresenta a seita que cultua o Segredo (“el secreto”). Ao final, depois de apontar que os seguidores mais novos desconfiam de que não haja nenhum segredo a ser revelado, Borges afirma que “alguien no ha vacilado en afirmar que ya es instintivo”. Borges então iguala o processo humano, desnudo do uso discriminatório da razão, o conhecimento feito apenas pela via erudita e mental, com a hipótese de que se pode chegar ao Enigma e ao Segredo por intermédio da sensibilidade e do instinto humanos.  (RCF)

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