quinta-feira, 16 de junho de 2016

O tempo na lapela, poema RCF






Certa vez um pedaço de tempo
feito floco de neve
– fiapo de algodão doce
que se desfaz à lambida do toque –
caiu no meu casaco e não se dissolveu.
Permaneci com o tempo na lapela.
Me dei conta de que o pedaço de tempo
– corrosivo e nada friável –
que carregava na lapela
em vez de desaparecer
insistia em crescer
até me tomar o corpo todo
como o reconhecimento do erro
que é uma febre que não cede
ou a lembrança incômoda,
cão que nos segue
e ameaça nos morder a memória.




(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



(imagem: anne liori)

Nenhum comentário:

Postar um comentário