Fernando
Pessoa deve ter tido um prazer especial e, ao mesmo tempo, sentir-se agoniado,
com os pedidos feitos por intermédio de carta por Mário de Sá-Carneiro. O
amigo, em Paris, solicitava de Pessoa as diligências mais comezinhas como saber
o saldo a receber dos livros de Mário, servir de menino de recado e outros
pedidos tão ordinários como os relatados anteriormente. “Logo que receber esta
carta vá procurar a minha Ama à Praça dos Restauradores nº 78 (3º andar). [...]
Perdoe-me a “sale affairre” de que o encarrego mas não posso lançar mão doutro
meio. Você empenhará o cordão pelo maior preço que lhe derem: vá a uma casa da
sua Trindade fazendo esquina para a rua do Teatro do Ginásio e mesmo em frente
do Ginásio. Aí pagam muito bem e os juros são pequenos.” Para Pessoa, devia ser
de grande constrangimento atender ao apelo – desesperado – do amigo poeta em
Paris. Mas Mário não apenas o consumia com pedidos comezinhos. Sugava do poeta
em Lisboa a atenção. Pedia, rogava-lhe, que escrevesse cartas longas, imediatas,
comentando a produção de Mário e pedindo conselho. Conselhos da estética
sensacionista, paúlica e interssecionista de Fernando Pessoa.
O
apelo desesperado de Mário de Sá-Carneiro (que, curiosamente, em Paris e em
Lisboa, mantinha um bom círculo de amizades) continha um misto de admiração
intelectual e uma solicitação humana constante, embora Mário de Sá-Carneiro
muito escrevesse sobre a própria angústia, mas não a esmiuçava perante Pessoa.
É curioso que o poema interrompido de Mário de Sá-Carneiro, em que se mostra
algo de sua faceta homossexual, apesar de acreditarmos no expediente de
despersonalização de Eliot, não dá margem a que outro ser, tão complexo e
sexualmente dúbio, se manifestasse e uma correspondência de outro gênero
pudesse ser empreendida. “Eu queria ser mulher pra me poder estender / Ao lado
dos meus amigos, nas banquettes dos Cafés./ Eu queria ser mulher para poder
estender / Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos Cafés.”, escreveu
Mário em 16 de fevereiro de 1916, dois meses antes do seu suicídio. É tão
íntima a correspondência entre os dois que Pessoa conhece o relacionamento
entre Sá-Carneiro e sua madrasta. O poeta em Paris chega a ter pesadelo com a
hipótese de ir morar na mesma casa com Mimi, a madrasta, e o pai, na cidade de
Lourenço Marques. Escreve Sá-Carneiro: “O meu pai, ora diz, por exemplo, que L.
Marques não é terra para mim – ora, pelo contrário, sugere que gostaria muito
de me ter lá, depois da guerra. Você compreende bem o despenhadeiro que seria
para mim esta solução – não é propriamente L. Marques o pavor: mas a
convivência que eu aí iria ter – e à qual me receio muito condenado.”
Não
se conhecem as cartas de Pessoa para Sá-Carneiro, pois o poeta suicida não
guardou as cartas do amigo, ao contrário do poeta dos heterônimos que não
apenas guardou, mas com zelo de arquivista, ainda marcou em cada carta recebida
a data em que enviou a resposta. E note-se que as cartas de Pessoa, pelo que
responde Mário, são muito mais “pedagógicas” e “instrutivas” do que o mero
lamentar-se de Sá-Carneiro. Algumas poucas cartas sobraram, cópias, e numa
delas, talvez a mais bem elaborada, Pessoa faz considerações também de ordem
pessoal e mergulha num torvelinho que não o levaria à morte, mas a uma condição
existencial desesperada, sem heterônimos, una e desgarrada, ao mesmo tempo.
Pessoa escreve sobre sua preocupação com as doutrinas teosóficas, os mistérios
dos Rosa-Cruz e sua contradição: “Ora”, escreve em 6 de dezembro de 1915, “se
v. meditar que a Teosofia é um sistema ultracristão e pensar no que há de
fundamentalmente incompatível com o meu paganismo essencial, v. terá o primeiro
elemento grave que se acrescentou à minha crise.”[1]
O
poeta da reflexividade
Um
dos versos mais impactantes para mim quando os li foram os de Sá-Carneiro:
“Perdi-me dentro de mim porque eu era labirinto / e hoje quando me sinto é com
saudades de mim”. A literatura sempre se utilizou desse paradoxo de criar um
objeto que é também o sujeito. Sá de Miranda já dissera: “Comigo me desavim”.
Poderia procurar inúmeros outros exemplos, mas fico com os que mais que
comoveram, distanciados os dois por séculos e unidos pelo sentimento
contraditório de ser um outro. Na modernidade, o sentimento de que o poeta tem
um eu cindido se acentua. A psicanálise vai aprofundar a questão do
inconsciente e da briga interna do indivíduo que não é uno, mas vários. Cada
vez mais, no século XX, os poetas, diante de uma realidade triste, mecanizada,
vão se refugiar em si mesmos. Ocorre que o cadinho que escolheram para se
refugiar também é conflituoso e quem sabe mais hostil que a realidade. Logo, o
paradoxo vai fazer parte cada vez mais do repertório da poesia moderna. Mas não
fiquemos apenas no choque entre o indivíduo e a sociedade massas, seu
anonimato, a perda do prestígio social do poeta e da alienação do trabalho na
visão marxista. Acentua-se uma tendência psicológica que é inerente ao homem e
que as ciências podiam agora explicar e até mesmo servir de pretexto para a
produção poética e ficcional. O duplo vai também percorrer as páginas de ficção
desde Poe, passando por Oscar Wilde, e alcançando Borges.
O
primeiro movimento que se observa aí é o crescente aparecimento de um
conhecimento mais estreito dos poetas de que eles próprios, além da ambiência
social, podem infligir-se. O poeta não é apenas aquele que relata as dores do
amor não correspondido, mas agora mostra sua inadaptação à sociedade
(Baudelaire), com o acréscimo de que esse mal-estar social também pode advir
não da mulher que o rejeita, nem também da sociedade que o marginaliza. O poeta
passa a ter uma consciência maior de que ele é o grande algoz de si mesmo. É
ele que não mantém o amor correspondido com si próprio. Logo, nesse primeiro
movimento, o poeta tem um papel passivo, o sofredor das dores, mas também é,
principalmente, aquele que causa as dores. A tônica então se dá no sujeito
ativo e na primeira pessoa do singular, o eu que faz sofrer o me.
Eu perdi-me dentro de mim.
Num movimento inverso,
o que era passivo torna-se ativo. O que recebia a ação de sofrimento (me), como se iguala ao sujeito que
provoca a ação de sofrer e vitima a si próprio, é agora elemento ativo e, numa
ação de reciprocidade, provoca no sujeito (eu)
uma dor igual. Tornados semelhantes na provocação e na recepção da dor, sujeito
e objeto unem-se num círculo mórbido de sofrimento. O curioso é que o objeto
tenha o poder de não apenas sofrer a ação como também a capacidade de
provocá-la. Nesse sentido, ambos se diluem numa só intersecção que torna o
movimento num ato de contínua reflexividade da qual o poeta não pode fugir e
muito menos pode buscar auxílio em outro elemento já que o que é motor de sua
negatividade está encravado em si próprio. Fugir do objeto que provoca no sujeito
a dor é também elidir o sujeito sofredor que não pode deixar de sofrer
justamente porque é sujeito e, inicialmente, foi aquele provocou a ação.
Encarcerado no círculo asfixiante de eus
e mes, o poeta é um prisioneiro de
sua subjetividade, algoz de sua angústia, carcereiro de dor, vítima de sua
egocircularidade.
No terceiro movimento,
preso no circuito que lembra um buraco negro, nada escapa ao sofrimento
autoinfligido. Contudo, acrescenta-se aqui um mal-estar com a coletividade, um
mal-estar consigo e, principalmente, uma anulação de sua subjetividade. Ora, o
poeta agora não é mais aquele ser que se interiorizou, que internalizou as
dores do mundo, que se fez algoz e vítima, vítima e algoz, mas o poeta é aquele
cuja subjetividade não apresenta a maneira subjetiva de ver o mundo, mas a
incapacidade de ver o mundo. O mundo que existe é apenas o mundo interior. E um
mundo interior não mais uno, o que existe agora é um mundo interior labiríntico
(porque eu era labirinto) e nostálgico não mais do mundo exterior, mas
nostálgico de um estado psíquico anterior que menos sofreu e menos foi-lhe
infligido o autossofrimento.
Avizinhado à
reflexividade – ou filhos da mesma matriz geradora – está o paradoxo.
Conhecemos também, antes do século XX, o paradoxo barroco. O paradoxo do mundo
barroco é uma tentativa frustrada de o logos sobrepujar a linguagem assertiva
de duas matérias: a celeste e a terrena. É uma terceira episteme – a da
tentativa de encapsular e fazer prevalecer a linguagem que tem fim em si
próprio. Ao realçar a dúvida, ao reafirmar a o contraditio, ao especificar a dialética, o paradoxo não se contenta
com a síntese nem com o concílio dos adversos. O paradoxo se fez linguagem, em
Vieira, por exemplo, e no final, o que resta não é a palavra divina e a salvação,
mas a negação intestina, a prevalência do verbo, a reificação de Deus e a
afirmação de um valor supremo: a linguagem é o Criador. O paradoxo reafirma não
a linguagem comum, intercurso social, fabricação de contato verbal entre
partes, mas é o verbo enquanto proliferação de criatividade – o exercício de si
contra si. Aquilo que só se pode negar pela afirmação do poder de negar.
Ao contrário, o
paradoxo e a reflexividade na modernidade, expressões do eu cindido e
expressões da visão contraditória e múltipla da realidade e de si mesmo,
apontam para a impotência da linguagem. Se por um lado registram o desconforto
e a cisão, de outro nada pode modificar. Não há – desde o Barroco –
possibilidade de aglutinação, síntese ou reconciliação. A linguagem aqui é
refém. Pode apenas servir de confissão e não salvação. A linguagem não cria a
realidade, é refém dela e só pode criar a si própria. A reflexividade moderna
não é a conciliação de antagonismos, mas dois antagonismos que não se
conciliam. Ao dividir-se Mário de Sá-Carneiro em “perdi-me dentro de mim”, não
se confronta, mas passa a exibir a dualidade opressora e angustiante. Uma
dualidade sofredora, ambos sujeito e ambos objeto. O sujeito se torna objeto
que por sua vez é sujeito que vai tornar objeto o primeiro sujeito.
Ora, se o objeto final
vai recair no primeiro sujeito, logo o sujeito inicial é o objeto último do
sujeito que era o primeiro objeto. Dessa maneira, tornado objeto último ao eu
do poeta, a ele não resta mais que indagar-se da saída do labirinto do qual
nunca entrou pois sempre esteve nele, desde que teve consciência da palavra
poética – o labirinto que não deixa que se conheça o que ocorre fora do
labirinto.
(trecho do livro A cidade na literatura e outros ensaios. São Luís: Ed. AML, 2016)
(trecho do livro A cidade na literatura e outros ensaios. São Luís: Ed. AML, 2016)
[1]
Teresa Sobral Cunha que organizou a edição da Correspondência com Fernando
Pessoa, de Mário de Sá-Carneiro, anota que “esta carta, fragmentária, não
se encontra no espólio do seu autor, sendo certo que já em 13 de Set.
Sá-Carneiro reagia ao específico labor teosófico do amigo, não tendo, contudo
acusado sua recepção. Reproduz-se de J. Gaspar Simões – Vida e Obra de
Fernando Pessoa (Liv. Bertrand, 1950)”
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