sábado, 10 de setembro de 2011

Entrevista, Correio Braziliense

Carlos Marcelo

Correio Braziliense, 2007,
lançamento de
Manual de Tortura


José Varella, Correio Braziliense



1. “Idéias não nascem assim, de repente”. É possível exercitar a imaginação como se houvesse uma barra de exercícios?

R – Não. A imaginação é traiçoeira e nos prega peças. Não adianta você escrever todos os dias que não conseguirá escrever boa ficção. Embora o romance necessite de disciplina, não significa que tudo o que está escrito é de boa qualidade. Agora uma coisa me parece certa: se palavra puxa palavra, uma cena ou uma idéia pode puxar o fio do novelo de uma história. Ou ainda: muitas vezes fazemos um esforço danado para finalizar um conto e um dia, de repente, dirigindo o carro, caminhando, tomando café, o final se oferece como a máquina do mundo no poema de Camões e de Drummond.



2. “O trabalho rotineiro era invenção não do Diabo, mas de um Deus patrão”. A rotina é torturante ou pode ser inspirada? E no que difere a rotina do escritor?

R – Inicialmente eu diria que a rotina é esterilizante. Ela descarna o ato criativo, mecaniza ações, congela o pensamento. Mas, creio que, para mim, a rotina para escrever é fundamental. Não posso escrever continuadamente numa desordem como nas viagens ou um cotidiano confuso. A poesia pode se dar ao luxo de uma produção desorganizada, mas a prosa necessita de disciplina. Estou me referindo ao ato em si de escrever.

3. Quais são suas obsessões como escritor? Elas podem ser medidas? Como essas obsessões estão espelhadas em “Manual de tortura”?

R – Todo escritor tem sua obsessão. Na verdade, já foi dito, o escritor escreve quase sempre o mesmo livro ou busca o livro ideal. E todos eles têm seus temas prediletos que no fundo representam as obsessões. Bem fez Proust que escreveu sete volumes, mas um só livro. O trabalho da crítica, entre outros, é descobrir essas recorrências como o espelho, o labirinto, o tempo, o tigre, etc em Borges. O que posso dizer de modo inconcluso é que gosto dos personagens à margem (não propriamente marginais) da sociedade, deslocados, em situações opressivas criadas muitas vezes por sua própria imaginação.

4. Por que um título tão forte, capaz até de causar interpretações perigosas se lido ao pé da letra? Está disposto a correr o risco?

R – “Manual de tortura” é um livro sobre as torturas cotidianas. Inclusive aquelas que não classificamos como tortura: o amor, o trabalho, a rotina, a busca da fama, personagens perseguidos pelo meio circundante, o medo da morte e o medo da vida, o homem, como no quadro de Magritte que, em vez de ver seu rosto, vê sua própria nuca, o moribundo que grava vozes de mortos para lhe fazer companhia.

5. “Se ninguém olha para o seu trabalho, tudo vai por água abaixo”. A defasagem entre o reconhecimento efetivamente obtido e o intimamente esperado pode afetar a criatividade?

R – Acredito que sim. Escrever e não ter reconhecimento, não ser lido por um grande público faz o autor correr dois riscos. O primeiro é não ter a resposta de sua contemporaneidade sobre seu trabalho. O segundo é enveredar por um caminho solipsista que pode levar o autor a construir uma obra que não é do seu tempo, em sentido positivo e também negativo. Talvez o único lucro seja este último desafio: escrever para um tempo mais à frente. O que, contudo, não é gratificante, pois escrever para a posteridade é bom só em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, com seu autor defunto ou seu defunto autor.

6. Chefes, burocracia, mesas, filas, promoções funcionais. Uma repartição, como tantas que há em Brasília, consegue impulsionar as suas idéias? Ou não há nada mais antiliterário do que uma cidade oficial?

R – Brasília é uma cidade profícua para a ficção. Aliás, tudo serve para a ficção. O escritor é um pouco recoletor de miudezas, de coisas desprezadas, um catador de destroços. O escritor, assim, se torna, para usar uma palavra da moda, um reciclador. Dyonélio Machado, em “Os ratos”, usou apenas uma enorme ação, a de um sujeito que passa o dia atrás de um empréstimo que todos lhe negam. Ora, essa trama é mínima, mas Dyonélio soube reciclar um fato ordinário que numa conversa passa despercebida como, por exemplo, “veja só Fulano, veio me pedir dinheiro emprestado”. Eu diria que desse “lixo”, comum, vulgar, um nada, Dyonélio criou um grande romance. Tudo serve para a ficção.

7. Do boxeador que ouve música erudita ao servidor público, como funciona o seu processo de metamorfose para cada narrador? É difícil encontrar o tom adequado?

R – Ultimamente, com o romance “O viúvo”, por exemplo, venho tendo a mesma dicção. E não quero perdê-la. Então sei que o que escrevo terá o mesmo tom. Como funciona meu processo de transcodificação da realidade para a ficção eu não sei bem. Sei que, fisicamente, volto neuroticamente ao texto para reescrevê-lo. Sempre insatisfeito. E sempre digo que as histórias já estão escritas dentro de mim, no inconsciente. O problema é mergulhar nesse mar profundo, escuro, sem tubo de oxigênio.

8. Suas histórias curtas partem de observações, vivências ou de ambos? Toma notas durante esse processo? Qual a fase mais difícil?

R – Não sei. Não tenho método. Às vezes, anoto durante bom tempo o que pode me servir e mais tarde não uso nada. O que sei é que não separo o escritor e o cidadão não escritor. Estou vinte quatro horas em processo de criação, ou seja, qualquer guimba de cigarro pode virar uma história. Muitas vezes acreditei que tinha a história e na hora de escrevê-la não tinha história nenhuma. A história vai se fazendo ao escrever e pode tomar o rumo que ela desejar. Lamento é nunca ter aproveitado nada dos meus sonhos.

9. Cinco romances, uma novela, um ensaio e quatro livros de poesia. Agora, contos. Em que formato você se sente mais à vontade, mais inteiriço? O que mais o entusiasmou nessa nova experiência?

R – Em todas essas expressões literárias me sinto confortável. Agora há certo desconforto ao desconhecer, no caso da prosa, se farei um romance ou um conto. Isso porque uma história pode não render e virar um conto. Em outra oportunidade, pensei que ia escrever um conto, como foi o caso do romance “O morto solidário”, e o conto não terminava e apareciam novos personagens, até que me rendi ao romance. No caso da poesia, relutei muito em publicar os poemas, embora os escrevia, porque as pessoas gostam de rotular, fulano é poeta, sicrano é prosador. Mas eu tinha que parir os poemas, publicá-los e deixar que fossem buscar alimento sem a proteção do pai. Esses contos são apenas uma parte de outros contos que ainda estão informes, inacabados ou que penso retomar a história sem aproveitar nenhuma palavra do anterior. Escrever conto é muito bom, porque se o conto é uma porcaria você gastou pouca energia e tempo com ele, enquanto que o romance pode levar de seis meses a dois anos...

10. A morte ronda, ou habita, praticamente todos os contos do livro. Já tinha sido assim no livro anterior, “O viúvo”. Por que essa onipresença? Como você tem lidado com o tema? Como o escritor pode driblar, ou ao menos ressignificar, a morte?

R – Talvez a morte seja minha grande obsessão. E aí eu teria que voltar à pergunta sobre obsessões. Eu comecei a escrever, creio, para, ingenuamente, vencer a morte. Não me tornar imortal. Mas imaginar que se alguém, depois da minha morte, um parente, um amigo, lesse o que escrevi eu permaneceria vivo. Hoje não temo a morte. Mas, na juventude, a morte era uma grande incógnita e um contínuo desespero. Eu não podia aceitar a belíssima frase de Shakespeare de que “a vida é uma história contada por um tolo, cheia de som e fúria, significando nada”. O nada dessa frase tinha o poder de fogo de um pelotão de fuzilamento. No que escrevo, contudo, a morte não é o principal tema nem o elemento fundamental, embora ela dispare diversos comportamentos dos personagens. Nem posso dizer que a morte seja um dejeto, um detrito, algo pequeno. A morte, no que escrevo, é um pano de fundo, uma permanente lembrança da vacuidade das ações e sua presença é constante mesmo onde ela aparentemente não surge.

11. Escrever é mais árduo do que viver? No seu caso, é possível ser feliz sem escrever?

R – A literatura não pode ser vista como terapia para neurose. Mas a verdade é que expulsamos demônios que nos atormentam. E que é preciso abrir a comporta, se não a represa pode ser demolida ou vazar. Escrever e viver se confundem para mim. Há situações que penso que sou personagem da história e há narrativas minhas que penso que estou relatando a vida do personagem quando, transfigurado, estou me confessando. Mas literatura não é confissão, no sentido de se historiar casos domésticos. Nem as experiências do narrador são as experiências do autor. Viver não é perigoso, viver é trágico. E a tragédia maior não está propriamente na violência externa, da qual eu também trato, mas da violência interior. Não, eu não poderia ser feliz sem escrever como eu não poderia ser feliz respirando como um asmático em eterna crise.

12. Em um mundo congestionado de informação, a literatura se tornou acessória, simplesmente obsoleta ou ainda mais vital?

R- A literatura é o refúgio do humano. Pode desaparecer o objeto livro, mas não desaparecerá a necessidade de fabulação, nem a necessidade de ouvir ou ler fabulação. Logo, a literatura é uma necessidade social, um nicho de humanidade contra a mecanização e a massificação.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Tens apenas meia hora para inventar o furor, poema RCF


tens apenas meia hora para inventar o furor

teu jardim é pródigo de ventos
                                     sustos uterinos
enveredas pelo abismo
                                     das desculpas úmidas

tu te recolhes à rotunda do medo
                                 atrás de cada porta se revela
gestos incompletos
na esperança do aperto
de mão que nunca virá
                              porque nunca foi tentado

enfurnada na cafua
                            onde tremes
e receias a mudez
nuvens e desastres de colete amarelo
                            te mostram
que o silêncio está em ti
e não pode ser fracionado
                           ou diminuído
como o coração
que não se amputa

parca e inexata
                         avanças pela manhã líquida
as manhãs são sempre femininas
                         os cachorros
vadeiam o mal estar do mundo

cresce a dívida
que não contraíste
                        com o agiota
que nem ao menos conheces

buscas então
                      o esconderijo
mais aviltante
para apaziguar
o desejo dos torpes
e afundar
no madrigal do fim
                               
                                                                

(do livro Andarilho, 2000)


imagem retirada da internet: solitaryangel

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Lua negra, poema RCF




Todos nos vigiam pelas janelas abertas do outono,
Desejo humano, a reticência do convívio, os ossos
Do temperamento vão constituindo seu ofício
De capinar - o tempo é quem capina (ceifa, seca, urina).

Desfia-se, a seda O dedo escorrega sobre a superfície
Da conversa na cozinha - sempre na cozinha - onde
Abrimos a alma fechada como um vidro de conserva
O dedo, dizia eu, corta-se nos dois gumes do diálogo.

Não posso mais resgatar as horas que só são reversíveis
Na ampulheta revezando-se sem nunca findar, cíclico,
De pernas pro ar, embora pouco e arenoso, jeito que nada
solidifica nem com ele nada se constrói.

Não entendes que as horas não existem
Dúvidas vermes redemoinhos tudo isso é invenção
Das minhas máquinas A ansiedade fabricando minhas pílulas
A minha indústria de mim comprimido
Caio no poço do tempo e afogado escalo paredes de limo
Que mais me afunda quanto mais sublimo.

A lua negra assombra a noite de claro ódio
A noite, ela reverbera em mim, agora que tenho nome
Meu nome é abstração que me inventaram
Lua, grita e briga comigo, lua negra
Podem me achar - polícia, oficial de justiça, etecetera e tal
Porque estou em todas as partes onde não existe sim.


( do livro Andarilho, 2000)

imagem retirada da internet: by deni braga

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Retratos londrinos, Charles Dickens

A delícia de ler Londres


O livro Retratos Londrinos ( Ed. Record, 306 páginas, R$ 35,00 ), de Charles Dickens, é fruto da experiência do jovem Dickens como jornalista. São 32 relatos, cujo tema é Londres. Mas a cidade ultrapassa sua condição de cenário. Ela pulsa, regurgita, polemiza, entristece, ri, revolta-se, chora, canta, esperneia, bufa, cansa-se, espraia-se e desdenha. As cidades vivem por intermédio de sua gente. A Londres de Dickens está dentro das pessoas tanto quanto as pessoas estão em Londres.

Nunca antes traduzido no Brasil, Retratos londrinos ( Sketches by Boz em inglês; o Boz do título é como Dickens assinava suas crônicas ) cria a contemporaneidade das obras feitas com a pena da qualidade. Não importa se essa Londres não existe mais. Importa a maneira singular de um autor vê-la, antes como “repórter” ficcional para depois se tornar um ficcionista repórter de seu tempo.

Neste livro de estréia de Dickens, o que chama atenção é a visão romanesca do autor. O romance é a arte da palavra que mais se aproxima da amplitude épica ( Lukács ). O escritor inglês aqui quis dar uma amplíssima visão da sociedade londrina. Uma visão majestosa, superior, de um semi-deus narrativo, cujos olhos tudo alcança e cuja percepção tudo comenta.

Uma leitura deliciosa, porque os relatos são fragmentos de um romance nunca escrito. São experimentações de um jovem narrador que se prepara para a empreitada de narrar o romance que viria com David Copperfield e Oliver Twist. É antes o narrador treinando a voz romanesca que a voz de um cronista medíocre. Por isso o livro encanta como um romance – o romance de Londres. Sem personagem principal e sem trama, mas recheado por personagens secundários, cenas cotidianas, observações da alma londrina.

Dickens discorre sobre viagens de carruagem, “ônibus” puxado a cavalo, a disputa oratória entre clérigos ou entre mocinhas que promovem obras beneficentes. O autor não quer pegar apenas os tipos londrinos, mas quer entender a alma da cidade: o lado ritualístico e caricatural do Parlamento, a classe média, os confrontos sociais, o amanhecer e o anoitecer da cidade, logradouros, pontes, lugares que se transformam, uma Londres que não existe mais. Aqui e ali, o jovem Dickens deixa escapar, ao lado de uma ironia feroz e um delicioso humor, a tristeza dos brechós. É reincidente, três ou quatro retratos tratam de casa de penhores ou de sebos. É o passado que insiste em permanecer no presente.

No universo dos sebos está o magistral texto “Reflexões em Monmouth Street”, onde as roupas, sapatos e outros artigos de vestuário são preenchidos por gente e tomam vida. É de um colorido tão moderno, animação vibrátil e forte concepção visual que nos leva a crer que, invertendo a equação, o cinema, embora arte dramática, deve sobejamente à literatura.

Sempre advoguei que a cidade merece ser tratada na ficção como um personagem, ou seja, é um elemento estético dentro da narrativa. Logo, segue as regras da verossimilhança que ocorre dentro das estruturas da obra e não em correspondência com a realidade exterior. Aqui gostaria de diferenciar o que parece ser uno: verossimilhança e verossimilitude. O que ocorre aqui em Retratos londrinos, de Dickens, é a “verossimilitude”, ou seja, um manejo não-ficcional da narrativa. São a crônica, o ensaio, a prosa jornalística. A verossimilhança tem o papel de criar o efeito do real. A “verossimilitude”, para mim, afasta-se um pouco da verossimilhança e passa a ser, numa linguagem não romanesca, mas científica, uma apreensão “verdadeira” do real. Mas esta apreensão do “real”, mesmo que não seja ficcionalizável, também implica uma transcodificação da realidade, já que passamos do código do empírico para o código da palavra.

Enfim, estamos diante de uma obra fascinante, que se pode ler modernamente como um romance fragmentado, um grande painel ou jogo de espelhos urbanos. No prefácio à primeira edição da obra, Dickens compara seu livro a um aeronauta que empreende seu primeiro vôo de balão. Fique seguro o leitor que, embora o veículo seja um misto de aventura e perigo, nada há a temer aqui, a não ser a altura vertiginosa da prosa do próprio Dickens.



imagem retirada da internet:

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Cine Éden, poema RCF

Neste local, funcionou por muitos anos o Cine Eden, sensação da garotada ludovicense nas décadas de 1940, 1950, 1960 e 1970. Situado na rua Grande, onde hoje há uma grande loja de departamentos. São Luis Maranhão, janeiro/2011.
No cine Éden, hollywood da Rua Grande,
a leste de coisa alguma,
o mundo tinha a dimensão de
seis metros estirados de pano.

As janelas abertas deixavam ver o céu
como se fosse a tela e os astros
representassem piscando os olhinhos
de gás das estrelas.

Cleópatra se sentava na cadeira de madeira
depois de servir o jantar aos patrões.
E Marco Antônio,
o filho da puta do Marco Antônio,
tinha as mãos calosas de pedreiro.

Ó tempo das imagens fugidias,
o mundo como um grande rolo,
a lata de lixo da História
estava cheia de papel amassado dos bombons Pippers.
Que viveremos nós depois do
the end da História?


(do livro Eterno passageiro, Ed. Varanda, 2004)

imagem retirada da internet: by Nando Cunha


domingo, 4 de setembro de 2011

Marilyn Monroe, poema RCF



Para quem ligaria Marilyn Monroe
naquela noite aciculada que se vestia nua,
apenas com algumas gotas do perfume
Chanel nº 5:
quem estaria do outro lado da linha?

Marilyn e seu dia de ponto final.
Ali estava ela, deslumbrantemente ácida,
o corpo leitoso cheio de palavras.
O legista, com o cadáver
sobre o granito da morgue,
pesou as vísceras.
Marilyn morreu
asfixiada pelo barbitúrico,
o corpo carregado de não.
Houvesse alguém
do outro lado da linha
e ela vomitaria as palavras.
Os homens e sua forma de dicionário.
Mudos e cerrados,
circunspectos e mecânicos
como a maneira de falar
dos guias turísticos.
Era Kennedy do
outro lado da linha?
Se ela tivesse conseguido falar,
estaria curada da secura
oxidante da alma
e, livre da matéria corruptível
dos homens, dormiria
o espasmo de um hiato.


(do livro Andarilho, 2000)