sábado, 19 de novembro de 2011

Queda, poema RCF




Por que me perturba tanto
o alvoroço da imaginação
que, pombo sem asas, farfalha
dentro da gaiola improvável?
Pés imponderáveis navegam a ponte
entre a obsessão mole e a realidade dura.
O que existe entre uma e outra
é o único e obsessivo dente
que mastiga a carne pouca da razão,
suspensa por um ó de eletricidade e queda.

Todo ser é viagem incriada.
Sei que nenhum escape
é mais brutal que a realidade
e que não se pode arquivar a vida.

No livro-tombo,
inexatidão e inconsistência,
registro do pó,
sou apenas uma companhia limitada
que não se firma.

(de Eterno passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)
 
imagem retirada da internet: francis bacon

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O berrante, poema RCF





Na estrada ouve-se o berrante
mugindo seu corno de vaca
na maré da grama
trazendo dentro de si
a manada
como a concha traz o mar
no seu bucho de coral.

Berra o berrante
longo e triste
enquanto o boi,
berrante vivo,
caminha para sua sorte
como o homem que, cedo,
levanta-se para o dia.

Berra o berrante
na alma inquieta
dos vaqueiros
que lembram o choro denso
da manada dos homens
perdidos no descampado.

Berra o berrante,
o correio das notas graves,
um féretro de boi
que se enterra ao ar livre,
a própria carcaça servindo
de caixão.

Vai o homem, passa o boi,
vem o cavalo, late o cão,
vai escurecer nos ouvidos retorcidos
– o homem, como os bois,
se rendem à corneta de chifre,
é o lamento da vida
que flui na cornucópia de osso.

De osso é a alma do vaqueiro
– findo o ato do berrante
continua ele a ouvir
o brado silente
do mugido
como a cana na moenda.

Para quem muge o berrante
na ausência de boi e de manada?
O berrante na estrada
é farol de sons,
espectros de notas.
Ao fim do dia,
silenciado o berrante,
continua o som contínuo
a reverberar nos ouvidos
porque o berrante
antes que chamar o gado
anuncia na alma do homem
a noite densa que desaba
feito uma vaca na vala.

O berrante é o berro do homem
que ficou lá dentro preso
e pela goela e pelo chifre torto
é expulso como vômito,
quer fazer do avesso o homem.



(do livro Terrratreme, Brasília, Fundação Cultural do Distrito Federal, edição limitada, 1998)

imagem retirada da internet: luareberrante

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Pardo, poema RCF




Essa gente parda, miúda,
mais parda ainda na alma,
mistura-se com o gasto
da cidade: paredes, fumaça,
fuligem, zinco, asfalto,
e a tristeza que também é parda.

Eu, que sou pardo,
também sou de escrita
apenas sugestão
como sonho ou fracasso
que são coisas
que poderiam ter sido.

A derrota sempre é parda
porque se pensa que passa
por ela impune: coisas pardas
permanecem mais
que emoções vermelhas.

Pardo é meu dia,
pardas são minhas dores alheias
já que, além das minhas,
sofro pela descrença parda
do homem pardo da esquina.

imagem retirada da internet: lucien freud

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Maré dos indigentes, poema RCF






O que indefine a maresia
serão os peixes das vísceras,
a flora marinha dos vermes
ou os corais cortantes da fome?

Não se sabe se é homem de rio
ou se homem de mar aberto
se é de água doce da loucura
se é de água salgada da corrosão.
A pele não se lava
e por isso não se sabe se é de couro ou de escama.

Trazem na boca o anzol
que os suspendem à vida.
O coração finge ser molinete:
ora afrouxa, ora repuxa.
A difícil e insistente pescaria de gente
mesmo na ressaca em que vivem.

Arrulham em hordas – noturnas hordas –
nas filas das sopas universais.

As duras asas que desaprenderam
o aviário ato de sobreviver.


(do livro Eterno passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)


imagem retirada da internet: maré de mendigos

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Voragem, de Tanizaki


“Vim hoje à sua casa com a intenção de lhe contar todo o incidente, sensei, mas...noto que interrompi seu trabalho. Tem certeza de que não se importa? Narrada em detalhes, a história é longa e tomará um bocado do seu tempo... Eu podia até registrar os acontecimentos no papel em forma de romance e submetê-lo em seguida à sua apreciação, soubesse eu ao menos redigir melhor.”



Assim começa o romance Voragem, de Junichiro Tanizaki (1886-1965). Publicado em 1931, ambientado nos anos 20, no Japão, Tanizaki, um dos mestres maiores da literatura japonesa, se aventura em Voragem (Cia. das Letras) como autor de envergadura moderna, a ombrear-se com as temáticas do Ocidente, e ainda mantém o vínculo com a tradição que lhe deu, segundo muitos críticos, seu livro mais importante: A vida secreta do senhor de Musashi. A história de Voragem é contada por um dos personagens que se dirige a um sensei (pessoa com formação superior e que tem aura de orientador), do qual o leitor nada sabe, pois não aparece em cena e serve apenas para que a narração dos fatos aconteça. Um quarteto amoroso se instala, com aventuras homossexuais, tramas e desvios narrativos, surpresas e outros truques que o autor nos brinda. Tanizaki não utiliza técnicas narrativas sofisticadas como seus pares no Ocidente nos anos 30. As surpresas e os turnpoints ocorrem dentro da própria narrativa, linear e tradicional, sendo a trama mesmo que nos surpreende, emociona e nos desconcerta.

Voragem é um romance intimista, embora as ações exteriores das personagens sejam muito presentes. A análise da psicologia dos personagens é desconcertante, pois o que é afirmado logo a frente é desmentido e o leitor fica com a sensação de que, como sua última gelstalt do personagem, ela logo será desfeita ao apresentar um comportamento que o narrador desconhecia.

O narrador do livro, Sonoko, uma dama da classe média japonesa ascendente, casada com um advogado, apaixona-se por outra moça, solteira, de rara beleza. Tem-se a impressão de que a grande vítima de toda a trama é a própria Sonoko que, somente nas páginas finais, apresenta a versão com que findará o livro. Ao negar ao leitor a confissão completa e logo no início, o que desfaria a tensão com que o romance é mantido, a narradora costura toda a história com descrições das ações dos personagens e a análise desconcertante que ela julga ser a definitiva em relação ao quarteto amoroso.

Essa habilidade narrativa não é própria da literatura oriental. Voragem é um romance bem moderno e arrojado para sua época e deve mais às técnicas narrativas do ocidente do que ao paisagismo, tema amoroso, os samurais e outros personagens que ilustram o passado do país insular.

Por fim, uma última observação: o que predomina em Voragem é o espaço interior. Embora haja poucos momentos em que os personagens se aventuram por espaços exteriores como na a fuga de Sonoko pela praia, vestida com maiô à ocidental, a maioria predominante refere-se às ações dentro de casa, na escola de pintura, no hotel de encontros, no escritório de advocacia do marido. Já em A chave, Tanizaki se exercitara nos ambientes interiores e no tema obsessivo do adultério – visto de maneira suave, magoado, doloroso e silencioso. No caso de A chave, eu até tenderia a dizer que o grande espaço romanesco se restringe aos cadernos que servem de diário ao marido e à esposa que estimula o parceiro com a sua traição.

imagem retirada da internet

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A chuva, poema RCF



Caso morra, estarei barbeado e limpo,
como quem se higieniza para o amor
– não que a morte seja rito,
embora deva ser engravatada
e sonolenta como o morto se veste a rigor.
A rigor, a morte é higiênica.

Tua morte não aguda,
perpendicular,
garoa que perseguisse
o clima aziago do coração:
morte permanente e múltipla
a morte tem suas manias,
e o morto a idiossincrasia
de viver na memória dos outros
como uma chuva
que chovesse sem molhar.


imagem retirada da internet: a chuva

domingo, 13 de novembro de 2011

Afogado, poema RCF



O mar, em sua ressaca,
vive em eterno vômito.
Cheio de algas e fantasia
devolve o que não lhe pertence.

E guarda em si o peixe
e o estômago embrulhado
e não devolve o navio naufragado
porque as embarcações
são árvores de ferro
que a tragédia plantou.
Em seus intestinos
de água em ebulição
só o náufrago ele rejeita
porque o náufrago
é uma outra caricatura mórbida
de um peixe
sem barbatana
de um peixe
sem guelra
o afogado é um corpo estranho
o afogado é, mesmo morto,
a presença da terra
na digestão salgada.

Tudo cabe no estômago
de água do oceano,
mas feroz e decidido
se recusa a digerir
o que é da terra
e não pertence ao desvario
piscoso das marés.

Assim também devolvo
o afogado que não pertence
à aquosa e uterina imaginação
de ânfora plena de liquens
e aflições de salitre
nada que não faça parte
do inconsciente marítimo
dos meus prazeres submersos.

 
 
(poema de A máquina das mãos, Rio de Janeiro: 7Letras, 2009)
 
 
imagem retirada da internet: trollada