Ronaldo
Costa Fernandes
Olho
em volta da Praça Catalunya, onde em 1937, no prédio da companhia Telefónica,
entrincheiravam-se e trocavam tiros com a polícia stalinista local os
trotskistas e anarquistas. Excetuando-se alguns prédios novos como o Corte
Inglês, a praça é a mesma. É difícil acreditar que, em plena guerra civil,
os de esquerda não lutavam em Barcelona contra os franquistas, mas entre si. Havia
um homem, por volta de seus trinta e poucos anos, que não havia muitos dias estivera
na frente de batalha, em Huesca, entrincheirado numa vala, em meio ao frio de
princípio de ano, sujo, faminto, com armas velhas, uma granada na cintura que
podia explodir a qualquer momento mesmo sem ser acionada. Seu nome era Eric
Blair. Ou melhor, George Orwell.
Os
stalinistas perseguiam seus inimigos políticos – era a guerra dentro da guerra.
Ao final de sua temporada em Barcelona, Eric Blair procurava fugir das mãos dos
comunistas pró-moscou que haviam prendido vários de seus companheiros de
aventura guerrilheira. Por fim, o casal Blair consegue atravessar a fronteira
de trem até o sul da França. Só em Perpignan se sentirá livre, pois ainda Banyuls
até o garçom era um refugiado franquista.
Mesmo
nos anos 70, Orwell ainda era visto com desconfiança na militância comunista
dos jovens que lutavam contra o agonizante regime franquista. Viam-no como um
sonhador, bem-intencionado, romântico e que não havia entendido as correlações
de força e muito menos o espírito espanhol. Por outro lado, Orwell também rechaçava
aqui e ali o comportamento dos milicianos de esquerda, mesmo aqueles pelos
quais lutava, os trotskistas do POUM. A visão do britânico era a percepção convencional
dos anglo-saxões a respeito dos povos de origem latina: preguiçosos, dispersos,
indisciplinados. Mesmo habitando o coração da luta antifranquista, a percepção
de George era a mesma de um cidadão do império britânico, sentado em sua sala
de estar, tomando placidamente sua chávena de chá.
Editores
espanhóis tentaram em vão publicar a tradução de Homenagem à Catalunha.
Somente em 1970 chegou a versão espanhola, subtraída de importantes adjetivos e
alguns parágrafos. A censura de Franco deve ter entendido que a crítica de
Orwell ao caos ideológico e a briga intestina da esquerda poderia superar as
duras linhas contra o franquismo associado obviamente ao fascismo. O texto é um
dos documentos mais lidos e comentados da Guerra Civil (1936-1939). Apenas em
2003, a versão completa da obra será editada. O historiador Pierre Vilar sugere
que Orwell, de uma ou outra forma, contribuiu para a História da Catalunha. A
vendagem do livro na Inglaterra foi um fiasco: os 1 500 exemplares da primeira
edição ainda não se haviam esgotado quando da morte do autor.
A
importância deste livro (obviamente, o relato da experiência existencial de
Orwell vem em primeiro lugar) na bibliografia do autor é a demonstração de sua persona
política que vai influenciar sua obra posterior. Não deve haver dúvida de que o
britânico já estava maduro quanto a sua visão de mundo. A experiência de guerra
na Catalunha só veio ratificar sua posição diante do mundo conturbado em que
viveu: as idiossincrasias e conflitos do comunismo internacional. O que
escreverá depois da sua militância na Espanha se mostrará vivamente nas
parábolas 1984 e A fazenda dos animais. Seria talvez despiciendo
perguntar como Orwell escreveria os dois romances se não tivesse experimentado
o abalo emocional e intelectual depois da sua aventura na Guerra Civil. Muito
particularmente, creio que Orwell não teria sido tão cáustico e ferino se não
tivesse lutado como miliciano (termo que mudou de sentido no Brasil) nas montanhas
de Huesca e depois respirado o clima de completa insanidade política na
Barcelona de 1937.
É
preciso avisar aos reacionários e vociferantes fascistas de hoje, que
desavisadamente leem 1984 ou A fazenda dos bichos como libelo
contra o comunismo, que o inglês Eric Blair nunca abandonou os ideais
socialistas. Aldous Huxley foi professor de francês, aos 23 anos, na escola em
que o magrelo Eric Blair estudava: a elitizada Eton College. Só se encontraram
nos corredores. Anos mais tarde, trocaram cartas. Huxley defendia sua visão de
uma sociedade ditatorial anestesiada pelo prazer (Admirável mundo novo)
mais eficaz que a bota no pescoço de Orwell. Um era homem de laboratório, outro
de guerra. Cada um escreve o que vive. Um tiro de um franco-atirador dado na
trincheira fascista o atingiu no pescoço, o que o fez dar baixar e, depois,
abandonar a luta antifranquista. O tiro que poderia ter sido fatal não apenas o
retirou da frente de batalha, mas também lhe trouxe vários problemas de saúde e
enterrou de vez os sonhos de ganhar a vida como locutor de rádio. Isolado na
remota ilha escocesa de Jura, onde até hoje, para alcançá-la, deve-se enveredar
por um caminho de dez quilômetros de difícil acesso, gravemente doente de
tuberculose, Orwell escreveu durante dois anos 1984, o romance que o
consagraria. Homenagem à Catalunha merece ser lido como o livro que
ajudou a criar no escritor britânico as parábolas do terror autocrático e
servir como um grito de liberdade.
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