sábado, 24 de março de 2012

Calunga, conto de Ronaldo Costa Fernandes


(Mudei o final do conto "Calunga". Publicado no livro Manual de tortura, sai aqui postado com outro desenlace)







Todo esporte é bom para o corpo, mas o boxe não é recomendado para quem quer ter boa memória. Faço força pra ser claro: se faltar algum detalhe é que a memória me trai. A memória tem um punho vigoroso, mas às vezes soca o vazio. O que é pra ser lembrado se esquiva. Nada pior que alcançar o queixo do nada. Tudo começou com as minhas duas paixões: o boxe e a música erudita.
Seria contraditório? Sei não. Há muito punho numa nota, muita harmonia num jab. Uma luta de doze assaltos, de peso-pesado, é uma ópera. Uma luta de amadores, três assaltos com protetor na cabeça, uma ária.
Muitos devem estranhar dois prazeres tão disparatados. Mas gosto não é ouriço ou porco espinho: os gostos são animais domésticos. E doméstico deveria continuar meu gosto por ópera. Mantê-lo escondido.
– Deixa de lado essa coisa.
– Que coisa?
– Música clássica.
– Música erudita.
– Como?
– Esquece.
– Não dá certo com boxe.
– Já ouviu um concerto para oboé de Mozart?
– Acaba te tirando a garra.
Se tivesse que fazer alguma comparação, eu escolheria um saco. Toda vez que treino e bato no saco, penso que estou batendo em mim mesmo. É, em mim. Soco soco soco. Tem lutador que imagina o inimigo. É bom para relaxar e, ao mesmo tempo, incitar o sujeito para a luta. Mas eu não. Penso em mim como aquele saco. Porrada porrada porrada. Sem braços pernas cabeça. Um saco de vísceras, apenas. Um saco de vísceras. É uma desgraça você se considerar um saco de vísceras.
Mas não ganhava a vida com luta de boxe. As lutas não davam para sobreviver. Fazendo as contas, acabava pagando as lutas. Não pagava as lutas diretamente, não. Pagava a academia, pagava meu treinador. A gente não ganhava nada ainda porque eu era amador. Um amigo meu dizia que pagava pra levar porrada. Está certo que nem sempre ganhava, mas também não era assim. Não pagava pra levar porrada.
– E então, Calunga, o pastel sai ou não sai?
Esta era outra ironia. Você veja, trabalhava numa pastelaria para ganhar a vida. Também na pastelaria não podia falar que gostava de música erudita. E bem, talvez eu até pudesse falar, mas meu patrão não gostava de música. Nem de clássica, como eles dizem, nem de popular. E coisa e tal. Digo que talvez pudesse falar porque tive um patrão italiano numa lavanderia que o homem gostava de ópera. Mas italiano gosta de ópera. Italiano conhece ópera. Seja ele ignorante, inculto, siciliano de merda, o filho da puta de um mafioso, mas o italiano, mesmo operário, gosta de ópera. Não aqui, na pastelaria, desse china nem dos companheiros de trabalho, gente rude. Bando de nordestino. Também sou nordestino. O nordestino não emigra. O nordestino é eterno retirante. A seca, mesmo que o bicho seja do litoral, está entranhada na alma. Não tem gente apátrida? O nordestino, como eu, é sem-estado. Nem lá nem cá. Um ser que migra pro limbo. Porra, pro limbo.
– Vou vencer, meu camarada, um dia vou vencer – me confessei com um colega de trabalho.
Passava a maior parte do tempo ali, depois chegava na academia para treinar e estava morto de cansaço. Isso é lá vida? Ainda por cima, dormia mal. Os pesadelos.
Meus pesadelos eram estranhos. Todos pesadelos são estranhos. Sonhava com minha mão inchada. Não usava luva para lutar. Lutava de mão nua. Sabe por que lutava de mão nua? Porque elas estavam inchadas e vermelhas. Depois o cheiro de gordura do caldeirão onde fritava os pastéis. Logo minha cama cheirava a gordura, meu corpo cheirava a gordura. Não tinha namorada. Como um sujeito que cheira a gordura pode ter namorada?
– Sabe meu medo?
– Você é cheio de medo, Calunga.
– Meu medo é de que meus nervos fiquem amolecidos.
– E como isso pode acontecer?
– A música não altera em nada, ou melhor, até me põe mais excitado. As óperas me põem louco, fico uma fera. Queria lutar com ópera ao fundo. Já imaginou?
– E por que os nervos vão amolecer?
– A gordura.
– Que tem a gordura?
– A gordura pode entranhar nos nervos.
– Você está falando, como se diz, em forma de metáfora.
– Que metáfora porra nenhuma.
– Então?
– Sonho que o azeite, o óleo, a fritura, tudo isso chegue, fisicamente, lá dentro de mim e amoleça os músculos.
Acabei me profissionalizando e deixando a pastelaria. Moro num quarto sem janela. Às vezes penso que estou num caixão. Um caixão grande. Passarei a eternidade no caixão grande, enterrado vivo. Quem mora num caixão não pode saber se é dia ou se é de noite. O diacho do caixão. Nem dia nem noite.
Me aproximei do meu técnico que tinha o apelido de Cara de tijolo.
– Até ontem você não acreditava em mim.
– Agora acredito.
– Mas sou eu agora que não acredito em você.
– Quer ganhar dinheiro?
– Quem não quer?
– Chegou a hora. Você está preparado.
– Não era o que você pensava até a semana passada.
– Houve um fato novo.
– O único fato novo que eu conheço é que perdi o emprego nessa brincadeira.
– Temos uma empresária.
– Empresária?
– Sim, no feminino, é mulher. A dona quer te patrocinar.
– Não está cheirando bem.
– É um caso complicado, mas eu não quero entender os motivos lá da dona, eu quero é a grana dela. A grana dela deixou você sair do emprego, se dedicar mais aos treinos e já tem luta marcada.
Eu ganhava luta atrás de luta. Lutava com adversários magros, sem bíceps, que caíam feito moscas. Me levantavam o braço. O vencedor é. Palmas minguadas. Auditório de desocupados. A maioria de jogadores, apostadores de tudo: rinha de galo, corrida de cavalo, Fórmula 1, cão atrás do coelho, quantos carros vermelhos passam debaixo de um viaduto do Aterro do Flamengo, quem vai dar o último boa-noite no Jornal Nacional, apostadores de tudo. Quis conhecer minha empresária. Mas Cara de Tijolo adiou. Até que não pôde mais.
– Desculpe a mão suada – eu disse.
– Fazia tempo que gostaria de conhecer você. Mas andava muito ocupada, sem tempo, até que seu treinador falou que você queria me conhecer. Aqui estou, em carne e osso. E, se me permite uma brincadeira, em mais carne que osso.

Eu ri. Gostei dela. Estávamos na academia. Eu ficava meio encabulado de receber D. Violeta ali na academia. O cheiro de suor e poeira, o lugar meio escuro, cheio de homens suados. De vez em quando voava um palavrão. Voava como um soco no ar. (Quem não conhece boxe não imagina o que é dar um soco no ar. O adversário se evaporar. Uma nota dissonante. Algo desafinado, é, algo desafinado.) A academia tinha um cheiro de azinhavre e enxofre que não conseguiam se desprender da gente. Como a gordura quando trabalhava na pastelaria. Só que a gordura enfraquecia. E o cheiro de enxofre me dava força. Era como se eu fosse, mesmo deitado, vinte e quatro horas lutador de boxe, é, o cheiro de azinhavre e enxofre.
Foi ela mesma quem quis me ver treinando.
– Nós temos muita coisa em comum – ela disse.
– Como assim? A senhora luta boxe?
Ela riu.
– Não, não luto boxe.
– Então aprecia o esporte.
– Também não.
– Então?
– Sei que você gosta de ópera. Fui cantora lírica durante anos. Fiz carreira, viajei. Agora, velha, perdi a voz.
– E por que me escolheu para empresariar? Não foi porque temos o mesmo gosto, ou foi?
– Um dia você saberá.
– E por que tanto segredo?
– Não é bem segredo. Enfim, você quer ou não quer o meu dinheiro?
– Claro.
D. Violeta usava dentadura. O som saía chiado. Ela espalhava perdigoto.
Tinha o colo alvíssimo e cheio de jóias. D. Violeta era rica pra chuchu. Mesmo estranhando o interesse dela, aceitei o dinheiro que eu não era bobo. Quem ia deixar de aceitar grana para realizar o grande sonho da vida? Mas algo nela despertava meu lado cínico. Havia nela um colar de suspeição. Se me divertia e lhe era grato, havia o furto de uma verdade escondida. Que queria D. Violeta de mim, hein, que queria ela de mim?
O tempo foi passando e eu, o galinho, ia ganhando luta atrás de luta. Até o dia em que ganhei do Negro Bimba. Ora, o Negro Bimba era conhecido como o Colosso Negro. A nossa profissão está cheia de lugar-comum. Eu não inventei o boxe, logo não inventei os nomes dos lutadores. Mas, bem, dizia eu que o Negro Bimba era o Colosso Negro. Eu não podia, mirrado que sou, derrubar o Negro Bimba. Não, não podia.
Peguei o Cara de Tijolo no canto, apertei o bicho. Que merda tá acontecendo? De que você tá falando?
– Do Negro Bimba.
– Que tem o Negro Bimba?
– Eu não podia vencer o Negro Bimba.
– Mas venceu.
– Tem alguma coisa estranha aí.
– Tem. Você é o azarão. Já ouviu falar de azarão? Você é o azarão.
Apertei mais, mais, mais mais mais e aí Cara de Tijolo abriu o jogo. Eu sabia que apertando Cara de Tijolo, ele acabava confessando. Tem sujeito que não sabe conviver com pergunta. A pergunta arde, é aguda, tem nota alta difícil de alcançar. Cara de Tijolo podia levar um soco, mas não suportava uma pergunta. Uma pergunta dessas, sabe como é que é? Uma pergunta.
– A velha é maluca.
– Que é maluca eu já tinha percebido há muito tempo.
– É ela quem paga para teus adversários perderem.
– Puta merda!
– E não acaba aí.
– Não?
– Você é herdeiro de uma grande fortuna.
– Olha a brincadeira. Fala sério, camarada. Não se brinca com essas coisas.
– Não, não, é verdade. Tua mãe trabalhou na casa dela quando mocinha.
– Como tu sabe tudo isso?
– Ela me contou.
– E por que contou?
– Eu também desconfiei dela, mulher fina, empresariar um pé-rapado como você.
– Não ofende.
– Mas é a verdade. Qual o interesse dela?
– E qual o interesse dela?
– A mulher se apresentou nas maiores casas de espetáculos do mundo. Eu não entendo disso. Só repito. Cantou na Argentina, no Chile, na Espanha, na Venezuela.
– Ela, a branquela?
– E aí descobriu que era tudo uma farsa.
– Farsa?
– É, farsa, que não era boa cantora, que era uma fraude.
– E então por que cantava nesses lugares?
– O marido, um italiano riquíssimo, amante também da ópera. O marido pagava para ela ser contratada.
– O marido.
– Seu pai, meu camarada.
– Não estou entendendo patavina.
– É muita coisa. Deixa eu organizar minha cabeça.
– O marido pagava para ela cantar?
– O marido pagava para ela cantar. Ela tinha voz, mas não era uma voz para todo aquele estardalhaço.
– E aí?
– E aí ela descobriu e ficou uma fera.
– Com razão.
– Mas só descobriu quando o marido morreu.
– E onde entra meu pai?
– A dona Violeta não podia ter filho. Tua mãe trabalhava na casa de D. Violeta. Tua mãe engravidou do italiano. Aí sumiu com o garoto. O garoto era tu. Tua mãe tinha medo de que o italiano e D. Violeta ficassem com o garoto, entendeu?
– Então eu sou herdeiro da fortuna do italiano.
– É.
– E a história acaba aí?
– Não. O velho deixou no testamento que D. Violeta pra receber a maior parte da herança tinha que descobrir onde estava o filho perdido.
– Eu.
– Sim, você.
– Bom, agora eu pego o dinheiro.
– Não, não pega o dinheiro.
– Como assim não pego o dinheiro? Não sou filho do italiano?
– D. Violeta morreu.
– Morreu?
– Morreu faz uma semana.
– E por que você não me contou?
– Eu não podia contar porque você precisava ganhar a luta. Ganhar pelo menos uma luta.
– Mas se ela pagava para eu ganhar. Não entendo.
– Ela pagava para você ganhar enquanto estava viva. No testamento que ela deixou...
– Ela também deixou testamento?
– Ela também deixou testamento.
– E o que diz o testamento?
– Que tu só ganharia a herança se vencesse uma luta.
– Uma luta?
– Uma luta. Vencesse por conta própria uma luta. Sem suborno, sem grana por fora, sem pagar o adversário. Uma luta só. Você só vai receber a herança se vencer uma só luta sem pagar para ganhar.
Esta foi a vingança de D. Violeta. Vingança contra a empregadinha do italiano. Vingança contra o marido, que pagava para ela cantar. E, por fim, vingança contra mim, porque repetia o mesmo método do marido. O bastardinho teria de vencer uma só vez, por conta própria. Era a vingança. A matrona, em ritmo de ópera-bufa, me pregava uma peça.
O testamento é uma luta de boxe em dois tempos. Um lutador que não se vence, porque está morto e sua vontade, que se transforma numa espécie de soco, atinge o outro lutador. Uma luta sem rounds, sem lonas, sem luvas. Mas uma luta atroz, feita de vontade e de genes, de pequenos jabs de letras ou um uppercut na vaidade daquele que, vivo, ainda se agita num ringue vazio.


imagem retirada da internet

sexta-feira, 23 de março de 2012

A maldição da estreia, Antonio Carlos Secchin



Costumamos imaginar dois tipos de avaliação de um autor experiente quanto a seu livro de estreia: endosso ou rejeição. Mas, entre os dois extremos, a gama de reações parece infindável, como veremos a seguir, acompanhando as estratégias de afamados escritores brasileiros do século XX frente a suas primeiras obras, no campo da poesia.

Na ponta do endosso, um nome que avulta é o de Manuel Bandeira. Lançou "A Cinza das Horas" em 1917 (contava, então, com 31 anos) e até o fim da vida não cessou de reeditar o volume, ainda que ele próprio já houvesse substituído a dicção parnaso-simbolista da obra inicial pela linguagem modernista, soberana a partir de "Libertinagem" (1930).

Na ponta do "não" radical, Cecília Meireles. Publicou aos 18 anos (em 1919) o opúsculo "Espectros", de fatura neoparnasiana. Não contente em jamais reeditá-lo, chegou ao ponto de sequer permitir que o livro fosse arrolado em sua bibliografia. Em decorrência, "Espectros" tornou-se um dos mais fantasmagóricos mistérios das letras brasileiras: durante mais de 80 anos se chegou, até mesmo, a conjecturar que não restara sequer um exemplar para contar a (pré-)história ceciliana. Finalmente localizado no início do século XXI, foi incorporado à "Poesia Completa" da escritora, na edição comemorativa de seu centenário de nascimento.

Guimarães Rosa tampouco pensou em endossar suas primícias poéticas - que representaram, aliás, no conjunto do autor, uma solitária incursão ao gênero. Bem antes de consagrar-se como notável ficcionista, a partir de "Sagarana" (1946), Rosa obtivera com "Magma", em 1936, o primeiro lugar em concurso de poesia promovido pela Academia Brasileira de Letras. Somente em 1997, 30 anos após a morte do escritor, foi publicado o volume, que em quase nada lhe prenuncia o talento.

Vinicius de Moraes renegou na íntegra "O Caminho para a Distância" (1933), fazendo constar, num adendo a bibliografias posteriores, que a edição fora "recolhida pelo autor". Publicada quando Vinicius contava 20 anos, tributária do influxo da poesia de Augusto Frederico Schmidt e do pensamento católico, a obra estampa uma visão atormentada e culposa do desejo, bem diversa daquela que o poeta em breve iria abraçar.

Já no extenso arco das estreias rejeitadas, "ma non troppo", figura "Há uma Gota de Sangue em Cada Poema" (1917), de Mário de Andrade, sob pseudônimo de Mário Sobral. O poeta afirmava que escritor algum deveria publicar antes dos 25, mas, no fim (ou no início) das contas, acabou desprezando a regra que ele mesmo criara, pois aos 24 anos editou a plaquete. É verdade que excluiu o volume de suas "Poesias" (1941), mas o preservou por inteiro em "Obra Imatura" - no caso, o adjetivo "imatura" parece sinalizar quase um pedido prévio de complacência ao distinto público.

Cassiano Ricardo opera em sentido diverso: aparentou preservar o pioneiro "Dentro da Noite" (1915), publicado aos 20 anos, nas "Poesias Completas" de 1957, mas o descaracterizou de tal modo que, dos 43 textos originais, apenas 5 reapareceram - ainda assim, com várias (não explicitadas) alterações. Como se não bastasse, enxertou, em 1957, dois poemas inexistentes na versão de 1915, dando a entender que houvessem desde sempre integrado o primeiro livro.

Nesse particular, Cassiano foi o mais camaleônico de nossos modernistas, sem pejo de reinventar continuamente o próprio passado, e considerando-se desobrigado de dar notícia das transformações (muitas vezes radicais) que efetuava em obras pregressas, tornando-as a posteriori mais "modernas" do que efetivamente haviam sido. Assim, um poema discursivo, originalmente em 50 versos, intitulado, em 1947, "A Inútil Serenata", ressurge em 1957, renomeado, sem aviso prévio, de "Serenata Sintética", e reduzido à concisão exemplar de seis escassos versos: "Lua/ morta/ rua/ torta/ tua/ porta".

Na esteira de Cassiano, outro poeta de São Paulo, Mário Chamie, também timbrava pela radical e subterrânea reescrita do passado. Chamie, aliás, foi bastante próximo de Cassiano Ricardo, a cuja obra dedicou minucioso estudo. A manutenção do título é o único ponto comum entre o "Espaço Inaugural" de 1955 (quando Mário tinha 22 anos) e o de 1977 (incluído em "Objeto Selvagem"). A versão de 1977 suprime na íntegra todos os poemas originais, substituindo-os por peças mais afins da estética do movimento de vanguarda Práxis, lançado e capitaneado por Chamie no início da década de 1960.


Com Murilo Mendes ocorreu fenômeno curioso: não renegou o primeiro e sim o segundo livro, "História do Brasil" (1932), por julgá-lo limitado demais ao compromisso para com o filão de poesia satírica e humorística do modernismo de 22. Na "Advertência" a suas "Poesias" (1959), assim justificou a eliminação dessa obra e o grande número de alterações impostas à versão original de outros livros: "Para esta edição revi inteiramente todos os textos, tendo também suprimido vários poemas que me pareceram supérfluos ou repetidos. Procurei obter um texto mais apurado, de acordo com a minha atual concepção da arte literária. Não sou meu sobrevivente, e sim meu contemporâneo". Agiu, portanto, conforme outros agiram, no sentido de uma modernização estilística, tendo, porém, o zelo de tornar pública a intervenção renovadora.

João Cabral de Melo Neto oscilou bastante nos procedimentos de inserção dos poemas de "Pedra do Sono" no conjunto de sua obra. O autor, que contava 22 anos quando o livro veio a lume (1942), sempre o considerou o mais frágil de sua produção, pela ostensiva presença de um veio surrealista, em pouco tempo eliminado (e execrado) pelo poeta. Ainda assim, os "Poemas Reunidos", de 1954, abrigam 24 dos 29 textos primitivos, destituídos dos respectivos títulos, e identificados em sequência de algarismos romanos. As "Poesias Completas", de 1968, reduziram a 20 poemas o espólio do livro, devolvendo-lhes os nomes e alocando-os no fim do volume. A "Obra Completa", de 1994, derradeira manifestação do autor sobre a questão, reconstituiu a integralidade de "Pedra do Sono".

Mais recentemente, Ferreira Gullar, que antes excluíra "Um pouco acima do Chão" (de 1949) da coletânea "Toda Poesia" (1980), chancelou o retorno da obra, desde que circunscrita ao "Apêndice", à sua "Poesia Completa, Teatro e Prosa" (2008). Os versos adolescentes, publicados na São Luís natal, vazavam-se em tom celebratório eivado de inflexões neorromânticas, numa atitude bastante diversa do complexo e filigranado trabalho de linguagem que Gullar desenvolveria, cinco anos depois, na forte poesia de "A Luta Corporal".

Se muitos poetas abandonaram o primeiro livro, houve um que jamais conseguiu dele sair: Raul Bopp. Com efeito, mesmo que tenha publicado alguns (poucos) títulos poéticos posteriores, Bopp persistiu inelutavelmente atrelado a "Cobra Norato", de 1928, de que passou a fornecer sucessivas edições com retoques, nem sempre felizes. Na contramão da maioria dos escritores, instalou-se para sempre no corpo de sua (c)obra inaugural.

Como a regra, porém, é o repúdio ou a restrição, em menor ou maior intensidade, ao "livro de estreia", poderíamos, com algum cinismo, sugerir aos jovens poetas que iniciem a carreira pelo segundo livro. Mas, se nos lembrarmos do exemplo de Murilo Mendes, o mais seguro, mesmo, é começá-la pelo terceiro.



(fonte: Valor Econômico de hoje; imagem retirada da internet: feira do livro)

Antonio Carlos Secchin é poeta, ensaísta e membro da Academia Brasileira de Letras

quinta-feira, 22 de março de 2012

A guerra, poema de RCF


Cheguei a ter uma rosa dos ventos
que apenas floriu
nas cartas que jamais recebi.
Não posso negar que tenho a consistência
de um trem:
meu início pode ser meu fim
(basta que mude de lugar
a fornalha que arde meus loucos motivos).

Cheguei a crer-me medieval e encouraçado:
era apenas a Idade Média da adolescência.
Meu norte é fácil porque depende apenas
de um fonema: a morte.
Tenho nostalgias das pontes
e gosto da idéia de estar
suspenso entre duas margens.

Acordo sempre com a sensação
de não haver dormido.
E o sono, ao contrário da letargia,
tem sido apenas uma pitada errada
do sal da lucidez
que, exagerado,
maltrata antes que dá gosto.

Nenhuma arma
fere mais, mortal e decisiva,
como o fogo-fátuo das sensações.
Passo então o dia no mundo da lua:
Sou Jorge e o Dragão.



(do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)



imagem retirada da internet: medieval

quarta-feira, 21 de março de 2012

Café para dois, poema RCF





O café nos une.
Mas as palavras não se diluem
como quem adoça com pó de gesso.
É preciso degustar
o açúcar refinado das relações perigosas.

Sob a luz fria e fluorescente das negações,
a cegueira das mãos
que não sabem por onde andam.
O que nos separa não é uma mesa.
São a tabula rasa do medo,
a toalha dos bons comportamentos
e as quatro pernas do desejo.





(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)



imagem retirada da internet

terça-feira, 20 de março de 2012

Clara dos Anjos, Lima Barreto



por Adelto Gonçalves




Não se pode dizer que a reedição de Clara dos Anjos, de Lima Barreto (1881-1922), que narra as desventuras de uma adolescente pobre e mulata, filha de um carteiro, seduzida por um malandro branco, apesar das cautelas familiares, seja uma boa oportunidade para se reavaliar o conceito emitido por antigos críticos segundo o qual este romance que não estaria à altura da melhor produção de seu autor. Não está mesmo. Se não constitui um romance de todo falhado, a verdade é que, se comparado com os de Machado de Assis (1839-1908), cujas origens sociais são idênticas às de Lima Barreto, este livro deixa a desejar em alguns aspectos, inclusive, em certa pobreza vocabular, ainda que seja fundamental conhecê-lo para se entender a grandeza de toda a obra do autor.


Publicado postumamente em folhetim entre 1923 e 1924 e em livro em 1948, Clara dos Anjos, provavelmente, ainda passaria várias vezes pela lima horaciana de Lima Barreto, não tivesse o autor uma vida tão breve e interrompida aos 41 anos de idade por um colapso cardíaco depois de impiedosamente minada pelo alcoolismo. Fosse como fosse, o certo é que a trajetória de uma mulata jovem moradora nos subúrbios do Rio de Janeiro do começo do século XX foi uma ideia que perseguiu Lima Barreto desde cedo, exatamente desde 1904, quando começou a tentar colocar em pé o esqueleto desse romance. Levou quase vinte anos nessa luta e, quando morreu, ainda estaria às voltas com o romance.

De fato, a obra traz algumas descrições que, mesmo hoje, quando o Rio de Janeiro está totalmente desfigurado em relação ao que era há um século, graças às picaretas de uma falsa modernidade que não respeita nada e só leva em conta os lucros das construtoras e incorporadoras que seguem sempre montadas à ignorância cavalar dos governantes, seriam perfeitamente dispensáveis, pois tiram um pouco o ritmo da trama. Uma trama cujo desfecho está anunciado desde as primeiras páginas: a de que a jovem mulata haveria de sucumbir à lábia do malandro carioca suburbano, de nome Cassi Jones, entregando-se a ele para, logo em seguida, ser rejeitada. E condenada a criar um filho sem pai.

Já o sedutor Cassi é pintado com tintas pouco carregadas. Contra ele, vê-se apenas que é um incorrigível galanteador de donzelas pobres, mas, ao contrário de outras personagens, não é dado ao vício da bebida. De pele sardenta e cabelos claros, pouco afeito ao trabalho, Cassi serviria hoje mais para compor um personagem comum na cena política brasileira: o malandrão de poucos estudos que, graças à lábia, sabe como convencer amigos, conhecidos e até multidões para, assim, galgar espaço na vida sem muito esforço. São tipos comuns hoje no sindicalismo e nos partidos políticos.

II

Apesar de tudo o que se escreveu aqui, é claro que Clara dos Anjos constitui um texto-chave para se entender a obra do criador de Triste fim de Policarpo Quarema, autor de cabeceira e inspirador de outro escritor que procurou retratar a vida dos proletários e marginais que habitam as periferias das grandes cidades brasileiras, João Antonio (1937-1996). Além disso, esta nova edição pela Companhia das Letras traz notas explicativas a cargo de Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Galdino, que se tornam fundamentais para a compreensão de alguns trechos e para a localização de determinados logradouros que no Rio de Janeiro desfigurado de hoje já não existem.

Sem contar que os editores tiveram o bom senso de reproduzir a introdução escrita por Lúcia Miguel Pereira (1901-1959), publicada originalmente na edição de Clara dos Anjos de 1948 pela editora Mérito, e o prefácio de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), que saiu na edição de 1956 preparada pela editora Brasiliense. E ainda encomendar uma apresentação à crítica literária Beatriz Resende, professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista na obra de Lima Barreto, que não só elucida muitas passagens do romance e aspectos da escrita do autor como traça um panorama do que foi a rejeição sofrida pelo romancista/jornalista a uma época em que o Brasil vivia um regime de apartheid disfarçado.

Apartheid, aliás, que pôde ser superado por alguns poucos afrodescendentes que não só tiveram engenho para adquirir fortuna e prestígio social como por aqueles que souberam ascender socialmente por meio da aquisição de cultura e conhecimento. Entre esses, podemos citar não só Machado de Assis, que procurou seguir caminho inverso de Lima Barreto, saindo do morro do Livramento para viver em bairros de classe média e abastada, depois de conquistada uma boa posição na burocracia estatal, como ainda pelo menos dois presidentes da República, Campos Sales (1841-1913) e Nilo Peçanha (1867-1924), ambos com visíveis traços fenótipos de descendência africana. Todos, obviamente, graças à riqueza familiar e ao prestígio social, tornaram-se “homens invisíveis”, para se citar aqui Invisible Man (1952), romance do norte-americano Ralph Ellison (1914-1994).

É de lembrar que, no Brasil, o dinheiro sempre teve o poder de “embranquecer” pessoas que, quando bem postas na vida, sempre tratavam de “esquecer” as origens. Ainda na década de 1980 – não faz tanto tempo assim... –, alguns senadores e deputados fugiam de qualquer reportagem que pretendesse fazer alguma referência a suas origens raciais. Bem situados no poder, o que menos queriam lembrar era que carregavam sangue africano ou indígena nas veias.

III

Não foi o caso de Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido no Rio de Janeiro, filho do tipógrafo João Henriques e da professora Amália Augusta, ambos mulatos. Seu padrinho era o visconde de Ouro Preto, senador do Império. A mãe, escrava liberta, morreu precocemente, quando ele tinha seis anos. As marcas desse período da história brasileira, que inclui a abolição da escravatura em 1888, sempre ocuparam o centro da obra literária de Lima Barreto, que procurou denunciar o preconceito racial e a difícil inserção de negros e mulatos na sociedade brasileira.

Lima Barreto sempre preferiu o subúrbio, o “refúgio dos infelizes”, território que passara a abrigar “os que perderam o emprego, as fortunas, os que faliram nos negócios”. Mas, ao contrário do pobre que só entraria triunfalmente no romance brasileiro na década de 1930 cheio de solidariedade com o próximo – inspirado pelas idéias socialistas e comunistas –, os pobres de Lima Barreto são “feios, sujos e malvados”, para lembrar aqui um filme de Ettore Scola.

Nada solidário, quem é um pouco mais branco já olha o mais escuro com desdém. A família cujo patriarca – geralmente, funcionário público – ganha um pouco mais já encontra motivos para menosprezar aquela que vive em maiores dificuldades. A família de Cassi, por exemplo, fazia questão de se mostrar superior às demais no subúrbio porque teria tido um ascendente importante. Isso era comum no Brasil: não havia família de descendentes de portugueses que, ao enriquecer, não tratasse de recorrer à arte da heráldica. Mais tarde, quando um dos rebentos ia a Portugal em busca de terras e brasões, geralmente, descobria que pais, avós ou bisavós nunca passaram de aldeões que se haviam atirado ao mar para escapar da pobreza.

Diz Sérgio Buarque de Holanda que Lima Barreto nunca conseguiu reunir forças para vencer, “ou sutilezas para esconder, à maneira de Machado, o estigma que o humilhava”. Pelo contrário. Em seus contos, romances e artigos de jornal ou revista, há vários exemplos de críticas ao comportamento larvar de alguns mestiços diante de brancos.

Diante disso, não foi à toa que Lima Barreto também encontrou obstáculos quando tentou ascender na república literária, ainda que a casa principal que abrigava a intelectualidade da época tivesse sido fundada exatamente por Machado de Assis. Intelectual versado em Humanidades, que por pouco não se formara engenheiro – a loucura que acometeria o seu pai o obrigaria a ganhar o sustento para a família –, Lima Barreto procurou por mais de uma vez alcançar o reconhecimento de seu talento por aquela sociedade ainda escravocrata no pensamento, ao candidatar-se sem êxito a uma vaga na Academia Brasileira de Letras.

Ainda no prefácio de 1956, Sérgio Buarque de Holanda recorda uma observação de Astrojildo Pereira (1890-1965) segundo a qual Lima Barreto pertenceria à categoria dos “romancistas que mais se confessam”, isto é, daqueles que menos se escondem e menos se dissimulam. É o que se constata também nos registros de seu Diário íntimo, iniciado em 1900, que reúne impressões sobre a vida urbana do Rio de Janeiro.

IV

Lima Barreto começou sua colaboração mais regular na imprensa em 1905, quando escreveu reportagens publicadas no Correio da Manhã, sobre a demolição do Morro do Castelo, no centro do Rio, consideradas um dos marcos inaugurais do jornalismo literário brasileiro. Dele são ainda os romances Recordações do escrivão Isaías Caminha e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá.

O primeiro saiu em folhetim na revista Floreal, em 1907, e em livro em 1909 e o segundo seria publicado apenas em 1919. No primeiro romance, o jornal Correio da Manhã e seu diretor de redação são retratados de maneira impiedosa, ao que parece como uma espécie de vingança por seu autor ter sido maltratado. Provavelmente, Lima Barreto teria recebido como pagamento um salário tão miserável que não daria sequer para pagar uma dose diária de parati. Teve, então, seu nome proscrito na grande imprensa carioca.

O escritor publicou ainda crônicas, contos e peças satíricas em veículos como o Diabo, Revista da Época, Fon-Fon, Careta, Brás Cubas, O Malho e Correio da Noite. Colaborou também com o ABC, periódico de orientação marxista e revolucionária. Em 1911, escreveu e publicou Triste fim de Policarpo Quaresma em folhetim do Jornal do Commercio. Levando-se em conta a precariedade dos jornais e revistas da época, é de imaginar que escrevesse apenas pelo prazer da polêmica ou pelo fascínio da letra impressa. Afinal, se nos dias de hoje a grande imprensa costuma não pagar nada aos seus articulistas-colaboradores, só um tolo poderia imaginar que há cem anos teria sido diferente.

Publicou ainda Numa e ninfa (1915) e Histórias e sonhos (1920). Postumamente saíram Os bruzundangas e as crônicas de Bagatelas e mafuás.

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CLARA DOS ANJOS, de Lima Barreto, com apresentação de Beatriz Resende, introdução de Lúcia Miguel Pereira, prefácio de Sérgio Buarque de Holanda e notas de Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Galdino. São Paulo: Penguin & Companhia das Letras, 2012, 304 págs., R$ 26,00. Site: www.companhiadasletras.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

segunda-feira, 19 de março de 2012

Fábio Lucas sobre Um homem é muito pouco

"O leitor de Um homem é muito pouco (São Paulo, Ed. Nankin)já sabe que o escritor é competente e se prepara para a trama que se complica logo a seguir. Eis o ficcionista imaginoso, que não abandona o espaço empírico, o chão concreto no qual a imaginação criadora campeia. A ação dramática se emoldura sem descuidar da autenticidade diegética."
Fábio Lucas

domingo, 18 de março de 2012

O homem do violão azul, Wallace Stevens






I

Homem curvado sobre violão,
Como se fosse foice. Dia verde.
Disseram: "É azul teu violão,
Não tocas as coisas tais como são".
E o homem disse: As coisas tais como são
Se modificam sobre o violão".

E eles disseram: "Toca uma canção
Que esteja além de nós, mas seja nós,
No violão azul, toca a canção
Das coisas justamente como são".

II

Não sei fechar um mundo bem redondo,
Ainda que o remende como sei.
Canto heróis de grandes olhos, barbas
De bronze, mas homem jamais cantei.
Ainda que o remende como sei
E chegue quase ao homem que não cantei.
Mas se cantar só quase ao homem
Não chega às coisas tais como são,
Então que seja só o cantar azul
De um homem que toca violão.



(tradução Paulo Henriques Britto)