sábado, 18 de julho de 2026

A personagem do romance 6

 









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A imagem e as várias leituras

           

            Para Sartre, apoiando-se em Leibniz, a imagem “continua sendo um fato semelhante aos outros fatos, a cadeira em imagem não é outra coisa senão a cadeira em realidade”.

 

            ... eis aí as três soluções que nos propõem as três grandes correntes da filosofia clássica. Nessas três soluções, a imagem conserva uma estrutura idêntica. Ela continua sendo uma coisa. Somente suas relações com o pensamento se modificam, conforme o ponto de vista adotado sobre as relações do homem com o mundo, do universal com o singular, da existência como objeto com a existência como representação, da alma com o corpo. Seguindo o desenvolvimento contínuo da teoria da imagem através do século XIX, constataremos talvez que essas três soluções são as únicas possíveis desde que aceito o postulado de que a imagem é apenas uma coisa e de que todas elas são igualmente possíveis e igualmente defeituosas.[1]

 

O autor, que detém uma imagem da realidade, que apreende mais que coisas da realidade, que busca expressar ideias ou comportamentos mentais, vê-se num labirinto. O que o autor relata já é uma apreensão de segundo grau. Ao repassar para o leitor, este terá uma leitura da leitura da realidade feita pelo autor. O leitor apreendera a cadeira que é “coisa”, que já é imagem da cadeira, e que será repassada para o leitor que, por sua vez, terá a imagem da imagem da cadeira. Sendo, porém, que a cadeira da realidade, a imagem da cadeira do autor, e a imagem da cadeira projetada na mente do leitor se concertem como coisas que por sua vez são realidades próprias.

            O que nos interessa neste momento é ressaltar o caráter abstrato e idealizado de uma realidade que é a realidade do leitor. Cada leitor elabora sua percepção do texto literário. Esta percepção é única e válida. Não representa, vale lembrar, que não estamos falando de interpretações críticas ou análises. Referimo-nos simplesmente à leitura do texto feita pelo leitor.

            Há um grande livro geral que se chama, por exemplo, Dom Casmurro e as leituras de cada leitor. A grande caracterização dos personagens permanece como um código comum. Os ciúmes de Bentinho e a descrição insinuante dos olhos de ressaca de Capitu. Os olhos que atraem e podem ser mortais como as águas conturbadas, violentas e traiçoeiras do mar. Mas a metáfora de Machado vai penetrar a imaginação de cada leitor de modo distinto e evocativo. Ao acessar a informação de olhos de ressaca, o leitor tentará alcançar a releitura da realidade feita por Machado, colocado na pena do seu narrador Bentinho. Esta leitura especial e unívoca do leitor é também coisa, realidade imaginativa em si.

            Certo ator de teatro brasileiro exprimiu o domínio do personagem. Disse ele que havia determinados personagens que ele sabia mais da psicologia daquela figura do que o próprio dramaturgo. Tanto estudara o personagem, tanto fizera laboratório, tanto se esforçara para reproduzir seus gestos e sua voz, que fora tomado por um conhecimento que o autor desconhecia. Eu diria que muitas vezes alguns leitores dominam mais o personagem, sabem mais dele, supõe informações complementares que o próprio escritor. O fato é que determinados leitores agregam às descrições físicas e mentais do personagem sua própria experiência com aquele tipo de pessoa.

            Essa complementaridade não é gratuita, intempestiva ou extemporânea. O autor lança outros dados, voluntariamente ou não, que lhe permitem expandir sua ambição narrativa – o leitor também tem sua narratividade. A narratividade do leitor diz respeito ao fato de que o leitor vocacionado também tem a disciplina do devaneio. Para que a leitura se torne efetiva, é necessário que o leitor tenha a capacidade também de ficcionar a ficção que está lendo. A narratividade do leitor faz parte do pacto da leitura, mas também é uma característica da personalidade do leitor. Esta habilidade e vocação narrativa do leitor são o que permite ao leitor interagir com a literalidade da narração.

 



[1] Sartre, Jean-Paul. A imaginação. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 2008. p. 23.



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