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A vocação do leitor
Haveria outro nível de apreensão e
decodificação da informação. É aquela feita pelo crítico que busca descobrir mecanismos
de significação que ficou despercebido na informação objetiva, na transmissão
de conhecimento do personagem. A observação do crítico pode levar a se
assemelhar à apreensão íntima e difusa, emocional e individual do leitor. Há,
contudo, diferença de códigos. O leitor tem seu código particular e emocional.
O crítico busca um código inconsciente produzido pelo imaginário particular do
autor que ao mesmo tempo pertence, sem que o autor disso se dê conta, ao
imaginário coletivo. O código coletivo
também é difuso, ambíguo e dissimulado. Para isso o crítico vai buscar conexões,
atos falhos narrativos, símbolos escondidos, estruturas mentais subjacentes à
historinha da ficção apresentada.
O leitor neste caso seria um crítico
involuntário e não busca mais que a estesia, mas ao longo da narrativa se
envolve numa série de emoções que o remetem a outro patamar, deixam-no seduzido,
e a uma só vez intrigado com a perturbação que o texto lhe causou. Não irá
buscar, como o crítico, comportamentos escamoteados voluntariamente ou não pelo
autor. Sentirá que o poder da ficção foi além da história contada e que,
durante a leitura, não apenas se transportou para outros ambientes, países ou situações,
mas que esteve envolvido num processo silencioso e perturbador de remexer
emoções ocultas.
Seria o caso de perguntar se a razão
é emotiva e se a emoção produzida pela leitura poderá ser racional. Não há
resposta, embora seja sugerido aqui que nenhuma razão narrativa está desprovida
de carga simbólica e poucas vezes a emoção pode descartar a objetividade da
informação.
Num jogo de espelhos, o personagem
atua numa via de mão dupla: a projeção e introjeção. Aquele que primeira
projeta as características físicas e mentais do personagem é o autor. E aquele
que recebe as informações sobre estas é o leitor. O leitor logo elabora, reduz,
induz e reescreve aquilo de que foi destinatário. Não se finda aí o processo de
assimilação. O próprio autor também foi corrompido pelo processo
projeção/introjeção.
No caso do autor, a realidade, ou a
dita realidade, é aquela que ele introjetou inicialmente. O autor passou de
ativo, ou melhor, antes de ser um ator ativo, o autor é um elemento passivo da
realidade. Sabemos, contudo, que ninguém recebe passivamente o que vem de fora
e que o processo de reelaboração do que é visto e sentido é complexo.
Posto que o autor também elabora seu
personagem, recebendo informação de fora e o introjeta, o papel ativo de
relatar o personagem não é apenas um ato ativo e uma atitude sem conflitos de
comunicação. O leitor não tem a possibilidade de responder às informações do
autor e devolvê-las a ele. Mas também é um ente ativo e dinâmico, cujo
processo, vimos apontando, não é nada sereno e direto.
Voltemos então ao autor: este entra
em embate com o seu personagem. Também tem angústias, dúvidas, ódio e amor. Não
é incomum alguns autores relatarem terem chorado ao matar determinado
personagem ou descrever uma cena. O autor, indagado, relatara superficialmente
a construção do seu personagem. Ocorre que o autor também desconhece o processo
difícil e belicoso de criação de criaturas de papel. Fazê-las moverem-se,
interagirem, crescerem e definhar. Também não é nada incomum o autor relatar
que determinados personagens que eram secundários passarem a ter certo
protagonismo contra a ideia inicial.
Emerge do inconsciente e da mecânica
ficcional um vulcanismo devastador. Muitos autores desconhecem profundamente
sua personagem, embora passem uma imagem cabal sobre ela. Atuam no processo de
criação mecanismos que nem mesmo Freud conseguiu descobrir. Freud estudou
alguns livros. Analisou puerilmente personagens, e, de forma distorcida e
redutora, o parricídio em Dostoiéviski e tentou entender o inconsciente de
Goethe. As reflexões sobre Gradiva de
Jensen são de uma precariedade tanto crítica, quanto do ponto de vista
psicanalítico, em que reafirma seus princípios teóricos sem nada acrescentar. Em
O Estranho, o artigo sobre o
fantástico, Freud traz contribuições para uma leitura de um fenômeno literário.
Este livro não pretende discutir a
contribuição da crítica psicanalítica para a teoria da literatura. As observações
que aqui faço a respeito do personagem diz mais à relevância, sim, das ideias
de Freud e outros pesquisadores sobre o inconsciente e outras manifestações da
psique diante de mecanismos de transferência e cerceamento da liberação de
angústias de traumas. O volume de Freud O chiste e sua relação com o
inconsciente nos fala mais que psicanalisar personagens e/ou classificá-los
sob a ótica de comportamentos mentais.
Não está no propósito da crítica
literária fazer a análise do autor pelo personagem. É uma aventura perigosa, em
vão, e que nada contribui para o desenvolvimento do estudo da literatura. O
personagem não é uma pessoa viva. E para passar por um processo de leitura
deste gênero teria que se deitar no divã três vezes por semana durante vários
anos.
Contudo, o autor aqui e ali sinaliza
com seus conflitos e pode ser, sim, interpretado, não o autor, mas o
comportamento do personagem, com elementos da análise psicanalítica.
Contradição? Não. Digo que termos e mecanismos descobertos pela psicanálise
podem e devem ser usados na crítica literária, mas que não é possível se
“analisar” o autor através de sua proposta ficcional, que está carregada, na
criação, de processos dolorosos e inconscientes, mas que não cabem à crítica literária
chegar até o autor por intermédio do seu personagem.
O próprio Freud foi, dentro de sua
modéstia, salutar em reconhecer a dificuldade de trabalhar com a obra
literária. No final do livro Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, ele
alerta que talvez o autor não concordasse com sua análise. E cita duas
hipóteses. A primeira seria que
Talvez tenhamos produzido apenas uma caricatura de uma
interpretação, atribuindo a uma inocente obra de arte propósitos desconhecidos
pelo autor, e demonstrando assim, mais uma vez, como é fácil vermos em toda a
parte aquilo que se procura e que está ocupando nossa mente – possibilidade da
qual a história da literatura nos fornece os exemplos mais estranhos.
Na segunda, Freud, que refuta a
primeira hipótese em nome de um desconhecimento do processo psicanalítico do
próprio autor, aponta que tanto o autor quanto ele trabalharam “com o mesmo
método”.
Acreditamos que o autor não necessitava conhecer essas
regras e propósitos, podendo então tê-las refutado de boa-fé, mas acreditamos
também que nada descobrimos em sua obra que ali não exista. Provavelmente
bebemos na mesma fonte e trabalhamos com o mesmo objetivo, embora cada um com
seu próprio método. A concordância entre nossos resultados parece garantir que
ambos trabalhamos corretamente. Nosso processo consiste na observação
consciente de processos mentais anormais em outras pessoas, com o objetivo de
poder deduzir e mostrar suas leis. Sem dúvida o autor procede de forma diversa.
Dirige sua atenção para o inconsciente de sua própria mente, auscultando suas
possíveis manifestações, e expressando-as através da arte, em vez de
suprimi-las por uma crítica consciente. Desse modo, experimenta a partir de si
mesmo o que aprendemos de outros: as leis a que as atividades do inconsciente
devem obedecer. Mas ele não precisa expor essas leis nem dar-se claramente
conta delas; como resultado da tolerância de sua inteligência, elas se
incorporam à sua criação.[1] [grifo nosso]
[1]
FREUD. Sigmund. Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. Tradução Maria
Aparecida Moraes Rego. Rio: Imago, 2003. p. 97.
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