quinta-feira, 15 de março de 2018

ENVOI (1919), Ezra Poud



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Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz
Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.
Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.
(Ezra Pound, tradução de Augusto de Campos)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O suicídio de Sylvia Plath



O suicídio da poeta norte-americana Sylvia Plath, aos 30 anos, em 11 de fevereiro de 1963, deu início a uma questãoResultado de imagem para ottodix que acabou por gerar, ao longo dos anos, uma verdadeira indústria de publicações biográficas: quem era, na verdade, Sylvia Plath?
Primeira a destoar do mito, biografia de Sylvia Plath segue relevante
Cinquenta anos depois, foram tantas disputas e livros sobre a vida e a morte da poeta que é tempo de mudar a questão ao ler algo sobre ela: Plath era de quem?
É o que sugere um dos lançamentos mais interessantes relacionados com a data: "Claiming Sylvia Plath" (reivindicando Sylvia Plath, Cambridge Scholars, 370 págs., US$ 74,99), da norueguesa Marianne Egeland.
Professora da Universidade de Oslo, Egeland analisou as publicações sobre Plath escritas entre 1960 e 2010 para traçar a recepção da poeta por diferentes grupos de leitores: feministas, críticos, biógrafos, psicólogos e amigos.
Isso porque poucos autores tiveram vida e legado tão debatidos como Plath.
As causas de seu suicídio, o papel do marido, o poeta inglês Ted Hughes (1930-1998), em sua morte, e as origens dos poemas vociferantes publicadas em seu livro póstumo, "Ariel", geraram um turbilhão de análises.
Mais que isso: tais disputas pintaram diferentes figuras da poeta.
"Fiquei surpresa não só com a quantidade de 'Sylvias' contrastantes, mas com o tanto que comentaristas acreditam que suas versões são as únicas corretas", disse Egeland à Folha.
Um ponto interessante colocado pela autora é que Plath acabou sendo usada como um argumento pelos diferente segmentos que escreveram sobre ela, moldando sua figura de acordo com os interesses de cada visão. E é possível, afinal, saber quem foi a verdadeira Sylvia Plath?
"Essa decisão fica ao encargo de cada leitor. Mas talvez seja prudente lembrar que hoje ela está escondida sob múltiplas camadas de opiniões e interpretações", afirma Egeland.
"Claiming Plath" não é necessariamente uma leitura fácil, principalmente para iniciantes no universo da poeta, mas pode ser um bom guia para quem começa, já que situa --e explica-- as diferentes visões alardeadas como a "verdadeira" face de Plath.
Para Egeland, há mais um efeito desejado: "Espero que haja um aumento das questões éticas envolvidas na maneira como ela foi reivindicada por seus leitores".
MUITAS VIDAS
Com os 50 anos da morte de Plath, era inevitável que surgissem novas biografias, ainda que o assunto pareça completamente esgotado.
A mais completa é "American Isis" (St. Martin's Press, 336 págs., US$ 29,99), de Carl Rollyson, professor de jornalismo do Baruch College, da City University de Nova York.
Na introdução, Rollyson compara Plath a outra loura trágica: Marilyn Monroe, também biografada por ele.
A comparação inicial pode soar disparatada, mas Rollyson é um biógrafo experiente, que busca mostrar diferentes lados de Plath, como sua sexualidade e o interesse por cultura popular.
Assim como Monroe, consagrada como símbolo sexual, ela buscava leituras como James Joyce.
"Quis mostrar que Plath não era apenas uma ótima poeta, mas era ótima em vários aspectos", diz Rollyson.
Ele é o primeiro biógrafo a utilizar uma série de cartas entre Ted e sua irmã Olwyn Hughes, liberadas anos após a morte do poeta, em 1998.
O autor, ao jogar novas luzes em uma história revista tantas vezes, não deixa de avaliar as maneiras como ela foi contada antes. O último capítulo é sobre as biografias de Plath e suas disparidades.
"Sem saber como essas biografias foram escritas, o leitor fica sem referência."
O afã de publicações (que começou com o relançamento de "Bell Jar", que também completa 50 anos, pela Faber) não se repetiu no Brasil.
Os "Diários de Sylvia Plath", editados por Karen V. Kukil, ganharam nova edição (trad. de Celso Nogueira, Globo Livros, 836 págs. R$ 79).
"Ariel", em sua versão "restaurada" (da maneira como a poeta o deixou antes de morrer), traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Glenz de Macedo, será republicado pela Verus neste ano, sem conexão com os 50 anos da morte de Plath.
Assim, o leitor brasileiro fica com a opção de ler o que a própria Plath tinha a dizer, tanto para si mesmo, no caso dos diários, como para o mundo, no caso de "Ariel". (Folha de São Paulo)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Travessuras da menina má e O paraíso na outra esquina, de Vargas Llosa


Ronaldo Costa Fernandes



A versatilidade é uma característica de dom Mario Vargas Llosa: já passeou pela comicidade de Tia Júlia e o escrevinhador, envolveu-se no romance policial de Quem matou Palomino Molero?, mergulhou no fluxo de consciência de um adolescente no seu romance inicial A cidade e os cachorros e entendeu o mundo mágico e trágico dos ambientes hostis como a selva peruana em A casa verde e O falador. Em O paraíso na outra esquina, há dois mundos selvagens que seus personagens frequentam. O primeiro é o mundo supostamente paradisíaco em que se enfurna o pintor Gauguin para fugir da sociedade dita civilizada, europeia, a fim de desvendar novas formas viscerais de arte. O segundo é o mundo “selvagem” da sociedade francesa, principalmente entre patrões e operários, onde a sonhadora e libertária Flora Tristán, avó de Gauguin, luta bravamente para expor suas idéias e sofre os contratempos dos donos do capital e dos conservadores.
O vigoroso em Mário Vargas Llosa é que não perde o rigor de sua narrativa nem tem medo de enveredar por experiências formais. Em O paraíso na outra esquina, começa alternando dois tempos, um que corresponde a Flora Tristán e a primeira metade do século XIX, quando florescem as idéias do socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier, Étienne Cabet e outros, e um tempo que corresponde a Gauguin e a segunda metade do século XIX. Até quase a metade do livro, as duas narrativas seguem paralelas quando se mesclam os dois tempos, muito bem delineados, mas expostos na narrativa de forma combinada. Mais tarde, já sabemos tratar-se de avó politicamente revolucionária e neto artisticamente revolucionário. Llosa se dá ao luxo de misturar outros dois tempos, o de Marselha, onze anos mais tarde, com o tempo em que Flora passara com sua família peruana em Arequipa em busca de parte de uma herança que lhe poderia dar sossego e segurança contra o vingativo ex-marido. Mais à frente, retoma os capítulos à parte (um de Flora, outro de Gauguin). Raras narrativas de autores de grande vendagem ainda têm coragem de aventurar-se num relato mais ousado. Louve-se Vargas Llosa neste livro pela audácia que ainda o mantém tão jovem literariamente e, sem medo de arriscar, aumenta ainda mais seu público leitor mais exigente. Num momento que a literatura brasileira vive de minguados relatos elevados à condição de grande prosa, devemos nos render aos encantos de Llosa e, para os que escrevem, vê-lo como fonte permanente de renovação.
O paraíso na outra esquina é um romance sobre dois libertários e sonhadores num século onde homens escreviam sobre sociedades utópicas. Hoje, que perdemos o poder de sonhar sociedades igualitárias como no século XIX ou pegar em armas por elas como no século XX, os personagens verdadeiros de Llosa, Gauguin e sua avó Flora, apontam para uma história de liberdade. Nenhum dos dois encontra o paraíso na outra esquina (mote de uma brincadeira infantil), mas dele estiveram perto e por isso pagaram seu preço. Para tanto, dedicaram suas vidas e o melhor de seus pensamentos e de suas ações (Flora Tristán) e a mais pura e divina estética (Gauguin). Llosa parece nos lembrar que o sonho e a liberdade ainda permanecem, neste início de século de ceticismo, e que, sim, podem estar na outra esquina.
Como na maioria dos romances ditos históricos, O paraíso na outra esquina leva o leitor a acreditar que, além de desfrutar esteticamente uma obra de arte, estará “aprendendo” sobre dois personagens históricos. É certo que Flora e seu neto Gauguin fascinam a imaginação dos leitores e que também o leitor – embora não seja essa a função da literatura – acaba “aprendendo” algo sobre os dois personagens. Interessante observar que, à diferença dos romances de Vargas Llosa dos anos 60 e 70, agora o homossexualismo toma outra tonalidade na narrativa, ocupa boa parte da sexualidade sofrida de Flora Tristán e mostra um lado feminino deste pintor que dizia “ter nariz quebrado de inca”, numa cena idílica no paraíso tropical e nada pacífico de Papeete.
O personagem de Flora Tristán é mais rígido e as cenas se repetem com mudanças apenas de ambientes e personagens, já que sua história é a narração incansável de seus tropeços nos encontros clandestinos com operários e camponeses para divulgar suas idéias socialistas contidas no livro que publicou, em 1843, intitulado A União Operária. Diferente do personagem Gauguin, mais angustiado e mais denso. Não há dúvida que O paraíso na outra esquina é um dos grandes livros de Vargas Llosa na sua fornida e consistente bibliografia.
Aqui, avó e neto são frutos de traumas, passam por transformações radicais (Gauguin nunca havia feito nenhum desenho antes de se encontrar com um colega na agência que trabalhava como Corretor da Bolsa: “Até os trinta anos creio não ter desenhado nem um bonequinho. Os artistas me pareciam uns boêmios, uns maricas. Eu os desprezava. Quando deixei a Marinha, no final da guerra, não sabia o que fazer da vida. Mas a única coisa que não me passava pela cabeça era ser pintor”, disse Gauguin, refletindo sobre seu passado, no fim da vida, numa ilha mais afastada ainda da capital do Taiti.), consomem seus corpos e suas saúdes em nome da humanidade e da arte.
Já no romance Travessuras da menina má parece haver dois livros: um brega e outro que resgata o velho Vargas Llosa. O primeiro corresponde ao amor bissexto e bizarro do solteirão – estranho homem que não tem outra relação na vida e só se dedica a esperar a chegada intermitente da mulher que ama – Ricardo Somocurcio, tradutor da Unesco, peruano de nascimento. Não é à toa que a personagem da “menina má”, como Ricardo chama sua amante, reiteradamente o critica e o classifica de brega quando faz suas inúmeras e aborrecidas declarações sentimentalóides de amor. “Eu adorava essas orelhas e queria cortá-las, embalsamá-las e levá-las comigo pelo mundo afora, no bolso do meu casaco mais próximo do coração. – Vamos, disse ela, continue com suas breguices, seu cafona.”
Este livro dentro do livro (não falo de metaliteratura, mas de verdade de uma escritura tão diversa uma da outra que parecem ser dois livros), o caso de amor entre Ricardo, que é o narrador, e a peruanita que foi guerrilheira, amante de milionário, envolveu-se com a máfia japonesa, é de um lugar-comum irritante, recheado de cenas de sexo também convencionais. Em certos momentos, chega-se a pensar que não é gratuito o fato de estar entre os livros mais vendidos no Brasil e já ter chegado à terceira edição em tempo muito curto desde o seu lançamento em língua espanhola. Quando Llosa se esquece deste tema central do livro e escreve sobre a crônica dos anos 60, 70 e 80, embora de maneira rápida e abrangente, o narrador torna-se denso e conciso. O “cronista” somente dá pinceladas, o que faz muito bem, porque o livro é um romance e não um ensaio. Mas aquele que espera abrangência maior e profundidade de análise (que também poderia estar no romance) irá se decepcionar. Na verdade, o próprio comportamento dos personagens e a descrição do pequeno ambiente talvez informem mais do que o jornalístico panorama das épocas (afinal são três décadas turbulentas e complexas) feito em tom solene e, ao mesmo tempo, leve.
Este outro “livro” conta a vida ordinária do tradutor e suas dificuldades de relacionamento, as notícias que chegam do Peru, a relação com o anódino Salomón, mas brilhante tradutor, que questiona a profissão (“profissão de fantasmas”). É um “livro” que toma outro tom, mais generoso, forte e sedutor. O caso de amor e as travessuras da menina má, que, na verdade, são o fulcro do romance, diminuem o vigor narrativo e torna-o frouxo, quando não desinteressante e previsível. O que me sugere uma imagem malévola, como se Llosa se dissesse “preciso escrever um livro acessível e de fácil leitura, logo a trama e a linguagem devem ser diluídas no caldo ralo da subliteratura”, enquanto o mesmo Llosa, numa autocrítica, se alertasse, “mas não posso deixar de manter pulso narrativo e fazer de meu livro um livro de um escritor medíocre, afinal tenho um nome a zelar”. Existem então, em Travessuras da menina má, o mestre do romance que nos deu Conversa na Catedral e o escritor que quer alcançar o grande público por razões pessoais que só ele deve conhecer. De maneira surpreendente, a partir da metade do livro, a breguice desaparece e a relação entre a menina má e o menino bom (como ela o chamava) passa a ter um tom de drama e, em vez da pouco crível mulher de um criador riquíssimo de cavalo e de amante de um mafioso japonês, ela passa a ser uma criatura frágil e doente, depois de pretensamente presa e estuprada na Nigéria. Aí o livro embica e desenvolve-se seguro e envolvente. Até mesmo o sexo deixa de ser convencional. Só que já é um pouco tarde, fica o início formando a parte manca do livro.
A diferença de qualidade entre O paraíso na outra esquina e Travessuras da menina má é grande. Neste último, Llosa não se permite nenhuma aventura mais extravagante com a linguagem e mantém uma estrutura linear e sem surpresas. A angústia profunda e turvada de personagens à margem da sociedade como Flora Tristán e Gauguin aqui se apresenta de forma branda, deslocada, às vezes até mesmo inverossímil.
Há ligação entre os livros: o exílio físico e existencial. Ricardo e a menina má, Gauguin e sua avó. Com os três primeiros, o exílio é inclusive geográfico: França e Taiti. No caso de Flora, o exílio é ser rechaçada até mesmo dentro do movimento socialista, já que não são todos que a aceitam. De qualquer forma, o eixo central dos quatros personagens nos dois romances é o Peru. Agora, de forma inversa, mais presente em Ricardo, na menina má, em Flora e, menos, em Gauguin.
Outra ligação é o fato de os dois livros tratarem de amor. Travessuras da menina má trabalha com o amor tradicional, heterossexual, encontros e desencontros de um homem e uma mulher. O paraíso na outra esquina opta por um amor desmedido (Flora Tristán) pela justiça social, pela igualdade entre os homens, pelo amor incomensurável pela humanidade e também um amor pela arte (Gauguin) que ultrapassa a busca estética, tornando-se mais uma frenética procura de uma expressão artística que exprima o ser verdadeiro, inconsciente e selvagem que nos habita.

imagem retirada da internet: gauguin