domingo, 5 de julho de 2020

Persona, poema RCF


otto dix

para passar
de um lado ao outro
ou seja
para sair da margem
escura e espessa
perdidos
entre fumos
e espectros
pegar a barca
– recordai
a barca do inferno
de Gil Vicente –
e atravessar
o rio de águas turvas
de onde sobem
ondas serpenteantes
de vapor
para meus personagens
saírem
de uma margem
obscura
até chegar
à margem da razão
                     do papel
                     do trapiche claro e seguro
da folha em branco
terão que atravessar
o Hades imprevisível
e tortuoso
em que se naufraga
ou se emerge
conforme o humor
se perderão definitivamente
existência incriada
ou se elevarão
à condição de energia
que é uma existência
como o calor
que existe sem se ver



quarta-feira, 1 de julho de 2020

Fachada, poema de Donizete Galvão




Logo vai terminar o prazo
para o homem construir sua fachada.
Ele continua em andaimes.
                                       Provisório.
Exibe máscaras cambiantes.
Sua face inconclusa,
sustentada por ferragens,
parece esconder que,
em todos esses anos de obra,
ergueram-se inúteis plataformas
para edificar um escombro.

(do livro O homem inacabado, São Paulo: Portal Literatura, 2010)

terça-feira, 30 de junho de 2020

Faça você mesmo, poema RCF




Com cinco gramas de ciúme
não se faz um amor.
Muito menos se pode cultivar
uma amizade com uma colher
de sopa de angústia.

É preciso levar ao forno
do amor o que queima
o corpo: untar o vício
das pernas no coito.

Manter em fogo brando
a imaginação. Se alto
em demasia, doura a crosta
sem cozinhar por dentro.

Se o fogo é baixo em demasia,
pode desfibrar o que por natureza
deve ser uno e compacto
como uma pedra que se gasta,
mas leva séculos
de fogo brando do vento
para esfarinhar o que é rocha.

O tempero é ao gosto da carência.
Virar o amor de tempos em tempos
já que tende a cozinhar
o que já está cozinhado.
É fundamental levar à mesa
e não degustá-lo
porque assá-lo
é preferível à degustação
que logo finda.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)