quarta-feira, 26 de junho de 2013

O silêncio dos intelectuais, Fabio Coutinho


foto: Estadão
                                                                                       

As grandiosas manifestações das duas últimas semanas, em centenas de cidades brasileiras, nos oferecem a oportunidade ímpar de ouvir a voz ao povo devida, de participar civicamente, de engrossar as fileiras de uma causa moderna, consequente e bela.

No caso dos intelectuais (aí incluídos os escritores), é a hora não só de refletir, como, de resto, devemos fazer em caráter permanente, mas também de transitar do pensamento à ação, de justificar sem reservas nossa designação genérica de atores do processo histórico, à medida que escrevemos, publicamos e almejamos ser lidos.

Se a opção preferencial for pela permanência na torre de marfim, pela eloquência de um silêncio obsequioso e narcísico, o trem da história passará, e correremos o risco de perder uma viagem que nos levaria a ser contemporâneos do futuro, ou seja, da sociedade consciente, justa e igualitária que é a estação final realizadora, na plenitude, do inestimável dom da vida.

Como escreveu Eça de Queirós, gigante entre os maiores, em seu formidável livro de reflexões NOTAS CONTEMPORÂNEAS, "a igualdade é decerto a maior evidência da civilização." Para obtê-la em toda a extensão, impõe-se a humildade dos gestos participativos e solidários, base de todas as grandes conquistas da humanidade.


 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Dia das mães mortas, poema RCF


 

 

Amanhece no país do esquecimento,
há muita brancura
no país algodoado das lembranças.
Teus olhos, turvados de lágrimas,
estariam inquietos e miúdos,
como se fossem dois corações verdes,
à espera do telefonema que não virá
por dois mortais motivos:
não se telefona para os mortos,
não se lembra dos mortos.
O dia é para mães vivas.
Não podes ser cremada da lembrança
dos homens, nem hoje nem sempre.
O inferno dos dias
e o comércio das emoções
te deixaram atônita
sem entender a razão de
no primeiro ano de tua morte
não receberes o telefonema
no teu dia das mães mortas.



 (Memória dos porcos, 2012, 7Letras)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

40 anos sem Neruda, Fábio Coutinho




Pablo Neruda morreu em 23 de setembro de 1973, doze dias após o golpe imoral e sanguinário que esmagou a democracia no Chile e humilhou o povo chileno. Democrata desde sempre, não haveria de suportar a tutela fardada que se imporia aos destinos de seu país pelos dezessete anos que se seguiram à brutal quartelada fascista de 11 de setembro.
Já doente, a perpetração golpista acelerou-lhe a partida, por conta de intenso processo de somatização que adveio naqueles dias de lembrança tão triste. Abraçou, então, rapidamente, a "indesejada das gentes", na expressão de outro imenso bardo de nosso continente, Manuel Bandeira (que recebeu Neruda, em 30 de julho de 1945, numa sessão memorável da Academia Brasileira de Letras).
Nascido em 1904 e batizado Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, adotou o pseudônimo literário de Pablo Neruda em 1920, aos 16 anos de idade, numa homenagem declarada ao poeta e contista tcheco Jan Neruda (1834-1891), por quem o chileno nutria enorme admiração. Sua vida de escritor e pacifista foi dividida, a par e passo, com uma carreira diplomática que o levou a representar o Chile nos mais diversos países, culminando com o importante cargo de Embaixador na França, seu último posto.
Intelectualmente consagrado logo a partir de seus primeiros livros de poesia (VINTE POEMAS DE AMOR E UMA CANÇÃO DESESPERADA, por exemplo, é de 1924), Neruda mereceu, no auge da maturidade, aos 67 anos, o Prêmio Nobel de Literatura, que a Academia Sueca lhe outorgou em 1971. Curiosamente, não foi o primeiro poeta de sua terra a receber o incomparável galardão: antes dele, Gabriela Mistral, em 1945, fora agraciada, por igual com inteira justiça.
Pablo Neruda foi um grande sedutor, um consumado fazedor de amizades imorredouras. No Brasil, foram seus amigos, além do já citado Manuel Bandeira, o casal Jorge Amado e Zélia Gattai, Vinícius de Moraes, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Ferreira Gullar, Thiago de Mello e tantos outros escritores de elevada estirpe, todos prontos e dispostos ao convívio encantador do vate chileno, que nos visitou em várias ocasiões.
A partir de 1990, com a reinstauração do regime democrático no Chile, as casas de Neruda, em Santiago e em Valparaíso, saqueadas e vandalizadas em seguida ao golpe militar de 1973, foram recuperadas e abertas ao público, na condição de monumentos nacionais. Atualmente, hordas de turistas e visitantes de todo o mundo acorrem a essas residências, em gesto coletivo de engajada simpatia e de reverência cultural ao poeta da paz e à governança da poesia.
No marco dos quarenta anos da morte de Neruda, acabo de reler, com muita saudade, seu esplêndido livro de memórias, CONFESSO QUE VIVI, e, também, algumas de suas principais obras poéticas. De uma delas, O CORAÇÃO AMARELO, extraí o poema que ilustra e encerra este elogio de leitor apaixonado, na tradução de Olga Savary, uma das mais altas vozes femininas da lírica brasileira contemporânea:
FILOSOFIA
Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
- alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos-
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
- a geografia e a ambrosia-
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisiona ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.