sexta-feira, 4 de abril de 2025

Um homem é muito pouco 17





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Ouvia-os falar de body art, de Duchamp, das instalações de Hélio Oiticica e de Lígia Pape e outros e Clemente nunca tinha ouvido falar naqueles nomes, embora se considerasse sujeito informado e que conhecia o mundo e era leitor de livro. Mas aquele universo de artes plásticas ele não dominava e as palavras queimavam, esquentavam-no, logo se tornavam cinzas e o significado delas eram apenas borralho. Clemente percebeu que era o mais velho do grupo, que ficava calado, com o copo de vinho tinto na mão – o velho olfato de Clemente percebia o buquê, mas era falácia associar olfato com paladar –, que ouvia a gargalhada do grupo e via que Yolanda trocava olhares com Toninho Marcos, ela abaixava os olhos com sorriso nos lábios e Clemente percebia que aquela linguagem ele conhecia. Estava embarcado num navio estrangeiro, que falavam língua estrangeira, tinham gestos estrangeiros, risos estrangeiros, olhares estrangeiros. Clemente tinha medo de desembarcar em Bremen. Não queria ficar em Bremen na casa de Juliana. Diabo de profissão que afasta a gente da família. Quando se volta se é quase um estranho. E a mulher não pode ir pra cama com um estranho, tomar café da manhã na cozinha com um estranho, usar o banheiro com um estranho dentro dele. Yolanda tinha bebido demais.

Vamos embora, disse Clemente.

Não, quero ficar mais um pouco, a gente nunca sai e quando sai você quer ir embora logo.

Yolanda tanto riu que deitou a cabeça no ombro de Toninho Marcos. Clemente não teve ciúme. O que sentiu foi enorme solidão. Estava ali solitário. Solidão tão ampla e desprotegida que o fazia desembarcar em cidade que não conhecia, nem tinha porto para desembarcar.

O espírito de Clemente foi ficando fraquinho. O espírito dele precisava de cama, adoentado, débil dos pulmões, as pernas inchadas de tanto dar voltas e voltas com a cabeça dele. O quarto – a gente não deve duvidar dos quartos – estava cheio de ruas, de beijos, de risos, de olhares furtivos. Os olhos mostram a alma. Como a alma não tem braço e não tem pernas, como a alma não tem músculos e não tem quadris, o modo de a alma mostrar descontentamento é pelos olhos que têm seus músculos, pernas, braços, intenções, medidas, carências e outras partes do corpo e do repertório das emoções.
(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)




quinta-feira, 3 de abril de 2025

O mar e o tempo, poema

 



 

 

 

 

Aqui as traineiras

só sabem dos desvios

do pequeno mar do porto

pois se recusam a sonhar o grande oceano.

 

Dos galhos

da árvore do tempo,

penduram-se

culpas inchadas e maduras,

imersas no apodrecimento lento.

 

Ouvem-se os gemidos das portas,

e logo tudo se cala.

A madeira do silêncio

se estende e se oferece.

 

 

 

 

segunda-feira, 31 de março de 2025

Companhia aérea, poema

 


 

 


 

 

Vamos, amor,

faz companhia aérea para mim.

Minha bagagem

pesa a enormidade da prudência.

Devia ter sido

mais descauteloso.

Encher a mala

com roupas que não vesti

e jogar fora o vestuário do tino.

Decolaríamos na pista

dos nossos desvelos.

E se houvesse escala

que fosse em sol maior.

Nossos voos

têm de ter o mesmo destino.