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quarta-feira, 19 de junho de 2019

Um tigre no espelho, conto de Carlos Tavares

Pela primeira vez em mais de 40 anos de cegueira, Borges se sente um miserável sem sorte logo ao despertar, numa bela manhã de abril, em seu escritório da Casa Nevada da Patagônia. Escuta o tilintar de chocalhos presos nas alimárias que pastam lá fora sob uma forte ventania, nos campos gelados dos Andes de sua infância. No quarto ao lado ainda dormem o criado Adolfo e a mulher Silvina.
. Borges se debate em intensa agonia, uma sensação de incômodo que jamais o atacara assim de forma tão agressiva, quase um banho de pânico, repentino, ao despertar, como se tivesse sonhado o mais terrível dos sonhos. E o pior é que não consegue se lembrar do sonho.
Senta-se na cama improvisada na poltrona larga e curva, encosto preparado especialmente para essas ocasiões de extrema produção e cansaço. Mas também não se lembra da história que ditou para Silvina e Adolfo; talvez eles tenham gravado sua nova fábula, cujo enredo permanece emaranhado ao torvelinho de incertezas e dúvidas que se abateu sobre ele mal abriu os olhos.
Ainda não é dia, os galos estão quietos no quintal, o silêncio o amordaça ainda mais, na escuridão impenetrável, tão conhecida dele depois que a cegueira o invadiu de vez, após dez anos de declínio, como um ocaso que tremula incerto entre o dia e a escuridão e que, aos poucos, perde consistência para a noite. Nem isso ele podia mais admirar, o ocaso dos pampas.
Mas com o tempo aceitara a sina da escuridão que, no princípio de tudo, costumava encarar apenas como um dia nublado e frio, um suave Noturno em crescendo. “Não é ainda a escuridão total; vejo sombras, vejo vultos, e isso me basta, por enquanto”, costumava dizer, feliz, a Adolfo e a Silvina.
Ergue-se da imensa poltrona, põe os pés no chão e fica arfando, apoiando as duas mãos no colchão, o coração aos saltos, a testa suada, o pijama encharcado. Que ninguém o visse assim, tão frágil, tão humano, logo ele, que durante todo esse tempo jamais dera sinais de ter perdido a batalha para a doença. E tudo por causa de um mero sonho, um rápido e nebuloso sonho, como tantos que o tempo o presenteou e dos quais tantos contos nasceram.
Escrevera até perto de meia-noite. Tentava resgatar na linguagem do conto curto o seu passado com Beatriz, lembrava-se agora. O campo era exíguo, porém, e ele o esticou acima das 20, 30 páginas, incansavelmente, mas não ficara satisfeito. Levantou-se perto das 23h e andou com a bengala de cabo prateado tateando o espaço até bater com a ponta do apoio na quina de um criado-mudo onde guardava porta-retratos.
Sorriu, com uma alegria infantil, quando sentiu que ali estavam ele e Beatriz, abraçados em uma praça, talvez a San Martin, perto da Rua Maipu, sim, pensou: talvez seja ela, a praça, com suas árvores cravadas em seu coração de saibro e pedregulhos, o rebuliço das acácias ao vento, o verão portenho e o seu sopro de nostalgia na moldura invisível de suas caminhadas. As estátuas ainda devem estar por lá, com seus inseparáveis pombos e poses graníticas de heróis do passado.
Certa vez pegara a Rua Florida e caminhara por seus dezesseis quarteirões entrando pela Rua México para ir à Biblioteca Nacional. No meio do caminho, um jovem vestindo uma camiseta com o rosto de Che estampado no peito, cabelos longos, barba rala, passou por ele e gritou, com ódio: “Morra, Borges, traidor!”; o escritor, assustado, parou e sorriu: “Gostaria muito, mas não posso; perdoe-me, por favor, está bem?”.
Já fazia uns dez minutos que Borges arfava à beira da poltrona-cama, ar perdido, desolado.
Onde está você? O outro, o outro que fui, onde anda, onde anda? Aquele outro sentado em um banco de uma praça que me abordou a perguntar meu nome e que sorriu com ironia quando eu o pronunciara? Vamos, vamos cadê você, cadê? Pirandello tem razão, somos mil e nenhum; somos talvez o sonho que se perde, como agora, nada mais. Logo eu, que nunca esqueci um sonho, meus e dos outros, sim, lembro-me bem da rosa e do paraíso, aquele que me rendeu uma das minhas melhores páginas e acabei esquecendo que fui eu quem o escrevera.
O espelho oval ao longe pregado na parede oposta à porta de entrada da biblioteca-escritório deve ser o mesmo da minha infância e já deve ter enferrujado de tantos reflexos inúteis de entes que por aqui passaram e que já não estão entre nós. Sim, quantos livros não foram folheados por eles, os mesmos que talvez ele, Borges, também tenha lido.
Nada refletia com tanta nitidez esse tempo quanto a sua memória prodigiosa. E se refletisse, de que adiantaria? Seria igual a essas fotos que não consigo ver, murmurou. Bem, acho que Ernesto tem razão quando diz que Deus não é assunto dos homens. Os hindus samsáricos também têm razão quando afirmam que não acreditam na existência do universo. Por isso me identifico tanto com eles, que desconfiam até mesmo do nada da existência, física e espiritual do homem.
Mas que sonho, que sonho, que sonho eu tive!
Quando tudo parece calmo, tranqüilo, próximo do ponto final, que adio como um garoto vadio que demora demais a entrar em casa com medo da mãe, vejo-me, primeiro, arrebatado pelo sono e depois pelo sonho esquecido.
Borges pensa que se pudesse ver a fotografia de Beatriz talvez obtivesse a resposta do sonho. Olharia em seus olhos e veria o mundo inteiro, toda a sua vida e a vida a dois de curta e eterna felicidade, mas tudo acabara quase mesmo antes de começar, com a morte prematura da mulher, aquela traidora infeliz, dissera à beira do túmulo.
Naquela tarde fria de dezembro enterrara-se com Beatriz a pedra luminosa e angular da sabedoria e da vida, enterrara-se o amor em sua plenitude e toda a sua história; sim, era isso, daí veio o enxame de sonhos agônicos que o soterrou de inércia e de horror por longos anos.
Ele, o recatado e tímido Borges, que nunca bebera algo além de um ou dois cálices de um bom vinho, passara a consumir sofregamente quase todas as garrafas da adega de seu pai. Os amigos o socorreram em uma tarde de setembro quando a ponta da bengala derrapou no assoalho e ele despencou da escadaria, o que lhe rendeu alguns ferimentos não tão graves.
Passara então seis meses enfurnado na Casa Nevada, por recomendação dos médicos, em companhia dos fiéis Adolfo e Silvina e do médico, amigo e poeta Macedônio Hernandez.
Foram tempos difíceis. Deixara de escrever e de ler, preferia a solidão à companhia e dera ordens para não o incomodarem, a não ser nas horas das refeições. Passaram-se então dez anos da morte de Beatriz. Ele, aos poucos, voltou a ler e a escrever, até chegar ao ponto em que está: cabeça baixa, um nó na garganta, a mente vaga e o espírito inquieto, ainda a arfar na beira da poltrona, à beira do pânico.
Aos poucos foi se recuperando e de repente um estalo dentro do labirinto de idéias o atingiu como um golpe duro e seco nas têmporas. Sim, estou lembrando, sim, sim, é isso, é isso, sussurrou quase gritando de alegria; as lágrimas rolavam em queda livre pelas faces e ele soluçava, com os ombros num movimento incontrolável em sintonia com o choro, o jorro de lembranças, as cavernas, as luzes, os livros, tudo isso voltava de repente e ele não se cabia de felicidade.
O mais estranho é que o sonho não trazia a imagem venerada de Beatriz, a inesquecível. Sim, era como se ele, de repente, como as serpentes que mudam de casca da noite para o dia, houvesse esquecido completamente da existência da mulher, esquecera até mesmo a sua forma física e isso era grave.
Agora estava cercado pela profusão de imagens do sonho.

Via-se em um deserto e andava a esmo tateando o chão arenoso e infinito com sua bengala, as roupas em frangalhos, como se estivesse vivendo um dia após uma guerra sangrenta. Por onde passava via cadáveres e plantas exóticas, flores imensas, rubras, amarelas, verdes, roxas, brancas, enxergava nitidamente as violetas e hortênsias do deserto e uma flor entre tantas se destacava: era parecida com o sol e de seus raios multicores, como um arco-íris esférico, nascia uma fonte concêntrica de luminosidade forte e cambiável para o opaco e o esfuziante.
O facho de luz parecia chamá-lo a seguir seus rastros elétricos de uma maneira que se sentia hipnotizado, esquecera as outras flores e os cadáveres, esquecera o deserto e as dores no corpo, a bengala estava largada no chão e, de repente, em vez da bengala viu que se tratava de uma enorme lança, o instrumento que carregava na mão direita, na outra um cálice de madeira e dentro dele borbulhava o vinho mais vermelho do que o sangue de Cristo.
Passou a seguir o facho redondo, suas luzes circulares em camadas como se fosse um arco-íris enrodilhado, imantado de tanta beleza, um sol colorido em pleno deserto como jamais vira. Sim, estava curado da cegueira, via tudo, todas as imagens do presente e do passado, via os livros que não leu, via os amigos da Rua Tucumã, os criados de seu avô, via Ferrari e Oswaldo, via seus inimigos e velhos sábios sentados em bancos de jardins que se bifurcam com imensos livros nos joelhos e pássaros pousados em seus ombros, via o sorriso de uma criança que nela se reconheceu, via tudo e com bastante clareza.
No sonho, pensou na Casa Nevada da Patagônia e na biblioteca de seu pai, Dom Antônio Luís Borges de Azevedo Saavedra. Pensou nos amigos do passado, nas mulheres que amou platonicamente e se sentia conduzido pela luz em direção a uma escadaria circular feita de blocos de pedra cujos degraus ancestrais pareciam ser em número infinito.
Tudo aquilo, sim, lembrava-se com exatidão, parecia ser uma torre invertida, um imenso labirinto esférico suspenso no ar do deserto construído pelas mãos da eternidade que o homem costuma afugentar com o pensamento negro da morte e da tragédia.
Quando desceu uma quantidade razoável de degraus, parou e olhou para cima e viu o sol distante e colorido a iluminar rostos de cadáveres que ele acabara de ver no chão do deserto, e eram rostos conhecidos, reconheceu o pai e a mãe; reconheceu Simon Bolívar e José de San Martín, também vislumbrou José Artigas, Bento Gonçalves, Solano Lopes, Zapata, Rivadávia e outros grandes traidores e heróis das guerras platinas.
Continuou a descer os degraus de pedra e a escuridão o envolvia a cada passo, com mais intensidade. Voltou-se outra vez na ansiedade de quem deseja um pouco de luz e já não viu o círculo iluminado da boca do poço, sua torre invertida que agora se transformara em uma masmorra.
Escutou de repente o grito de um pássaro em agonia; as asas gigantescas em rasantes na escuridão passaram próximo do rosto dele e o impulso automático foi o de dobrar os braços em defesa, a proteger as faces e os olhos, os olhos que agora não enxergam mais a saída do túnel, nem o céu nem as flores do paraíso. Veem apenas a escuridão fria de seu poço de torturas. Entra em Pânico quando sabe que não pode mais pensar e que ali estará só para sempre, enfurnado dentro de um calabouço, masmorra, labirinto sem espelhos e sem visões a contemplar.
Enfim, chegara ao ponto central de sua arena nas tênebras mais profundas do que a própria cegueira. Súbito, sentiu bem perto dele o bafo pesado e ardente de um animal que não conseguia identificar o gênero, a espécie feroz ou branda, a não ser que ele rosnasse, pois podia ser um cão, uma serpente, uma hiena, ou um tigre do deserto.
Procurou se habituar à escuridão circular em volta de si, acima e em todas as dimensões de sua vida e pensou na pedra mágica, no tabuleiro de xadrez sonhado um dia e em tal jogo de peões contra damas e reis barbudos, perigosamente armados, a ponto de arquitetar uma cilada fatal em menos de um minuto. E sabia que as peças daquele jogo maldito se articulavam em segredo para o lance final.
Estava chegando a sua hora sem segundos. Via o livro e o relógio de areia se desfazendo em milhares e milhares de miríades de grãos e grãos em minúsculos esquemas de pó e fantasia, a areia total, a senha da sina e do deserto que o habita desde o nascimento.
Borges está ainda na mesma posição. Pensa que o sonho fora de tal forma visual e magnífico, que ele não poderia estar cego.
Ergueu-se da cama, apoiou-se na bengala com segurança e arrastou uma cadeira para diante do espelho. Caminhou mais um pouco pelo centro do quarto e pensou em suas ruínas circulares, no tigre e no labirinto que na verdade significavam, os dois, uma imensa biblioteca sem livros, porque todos os livros haviam sido queimados havia mais de três séculos por um imperador angustiado que não via sentido nas palavras, a não ser nas guerras.
Sim, murmurou, mas os livros permanecerão, enquanto desconfio, há muito tempo, que a humanidade ruirá e sobre ela, sobre seus escombros de sangue e desperdício, nascerão apenas as flores da sabedoria e do degredo de uma esperança que me acolhe agora nesta manhã fria e cinzenta na Casa Nevada da Patagônia.
Borges não soube quanto ficou diante do espelho e isso também já não interessava. Sentia-se aliviado, de certa maneira, por ter-se lembrado de todos os detalhes do sonho, salvo aquele que o fizera gritar com medo do animal que rugia a seus pés no centro da torre invertida do deserto e que o fizera despertar de tanto horror.
Molhado de suor, atônito com o fato de achar uma rosa ao lado dele, depositada no colchão da poltrona, as pétalas esmagadas, procurava lembrar-se como ela fora parar neste lugar e por quem teria sido trazida.
Levantou-se de repente e voltou a deitar-se.
Repetiu o movimento algumas vezes numa sequência de sustos e pavores como nunca experimentara antes.
Agora, sentado na cadeira de balanço, de frente para o espelho, Borges já não se lembra de nada, sequer da razão pela qual a agonia de não enxergar o incomodara tanto, assim, de repente, após mais de 40 anos de escuridão.
Isso é apenas de um sonho dentro de um sonho. Um sonho em camadas de cores e feito de luzes esféricas e multicores como o arco-íris do deserto que o fizera provar visões jamais concebíveis em sua pobre realidade de cego e de péssimo jogador de xadrez, a arte da vida.
Talvez ali, naquele momento em que raciocinou pela última vez sobre a razão do sonho e o seu esquecimento, dera o seu último sorriso diante do espelho oval, vago e frio, de moldura colgada com desenhos de punhais e felinos, peças de xadrez. O cavalo, o bispo, a torre, os livros que gostaria de esquecer e assumir de vez o mundo real em sua feiúra tirânica e indomável.
Antes de soar o meio-dia no velho carrilhão da sala central da Casa Nevada, Adolfo e Silvina encontraram Borges com uma das mãos sobre o cabo de madrepérola da bengala, uma rosa na outra, o rosto erguido a indagar o espelho por suas imagens mais queridas, indecifráveis.
O mais estranho era o brilho opaco de seus olhos azuis abertos a refletir no espelho Borges de corpo inteiro, o verdadeiro Borges: o homem, o livro, o sonho que se basta na dúvida do ser e no desejo de reencontrar-se frágil e humilde no topo do saber e no centro da miséria humana que tanto combateu com a palavra, inutilmente.




imagens retiradas da internet

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

SARTORIS, FAULKNER

Sob o signo da memória
Quinto romance de William Faulkner editado pela CosacNaify, Sartoris dá início à técnica da desordem, que o escritor amadurece em O som e a fúria para reconstruir o homem sulino amargurado e preso ao trauma da violência e do preconceito racial







 
Carlos Tavares
         Tudo em Faulkner se recobre de poeira para poder existir. É sempre quando o tempo passa que tudo começa a tomar forma de realidade. Tudo em Faulkner dialoga, antes com o passado do que com o presente. O tempo em Faulkner é uma questão de coragem, uma questão de confronto e de ruptura, seja com a estrutura social do Sul dos Estados Unidos, simbolizada nos limites do condado imaginário de Yoknapatawpha e marcada pelo sangue da Guerra de Secessão; seja pelo gesto individual de um personagem que se desgarrou da família ou se revoltou contra o sistema escravocrata e segregacionista do território dominado, na ficção, pelo clã dos Sartoris, nas primeiras décadas do século 20.
            Especialistas em Faulkner são quase unânimes em afirmar que o romance Sartoris, lançado recentemente pela CosacNaify, pela primeira vez no Brasil, com tradução de Claudio Alves Marcondes, seria uma espécie de breviário dos textos mais maduros que viriam a seguir – a exemplo de O som e a fúria, Enquanto agonizo e Absalão! Absalão!. É possível, sim, que Sartoris seja uma súmula do ciclo dos grandes textos futuros de Faulkner, embora saibamos que nada neste autor é tão classificável e previsível. Embora ele mesmo tenha afirmado, em várias ocasiões, que escrevia sabendo tudo sobre as palavras que escolheria para esta ou aquela narrativa. O caso mais emblemático das lendas que rondam a figura do Bruxo do Mississipi é a que dá conta que ele escrevera Enquanto agonizo em apenas cinco semanas e que sabia desde o início como terminaria o romance.
            Em Sartoris, de fato, vários personagens, várias tramas e núcleos de ações narrativas como o coronel John Sartoris e o filho, de mesmo nome; Bayard Sartoris, o velho, irmão de John, morto na Guerra entre Norte e Sul, e pai do Bayard Novo; além de Jenny Du Pré, a tia velha guardiã das histórias da família reaparecem (sem falar nos negros que trabalham nas terras dos Sartoris) em futuras obras de Faulkner. Vários focos se deslocam de uma obra para outra e é de se notar, em particular, o gost6o de Faulkner pelos trens, como metáfora do tempo e da memória, da liberdade e do eterno retorno, como demonstra neste romance tão doloroso, de feição familiar e incestuosa.  
            Exemplos dos personagens que Faulkner transforma em fantasmas e lhes concede o privilégio da ubiqüidade, tem-se o coronel Sartoris, que ressurge em O som e a fúria, escrito no mesmo ano em que Sartoris e Enquanto agonizo foram produzidos, em 1929, (entre janeiro de 1928 e 10 de janeiro de 1930 Faulkner escreveria três de suas grandes obras em prosa). No romance em questão, o velho Sartoris - o patriarca da família, leitura do próprio avô de Faulkner, também chamado William, morto em combate na Guerra de Secessão e construtor da primeira linha de trem da Virgínia – ressuscita ícone do tempo e da morte. “Antes eu achava que a morte era um homem parecido com o vovô (...). (...) e o coronel Sartoris estava em um lugar mais alto olhando para uma coisa lá longe e ouvíamos o murmúrio de vozes vindo dos cedros (...)”, lembra Quentin, à página 170, um dos narradores em primeira pessoa da narrativa de ficção que Sartre traduziu como o maior exemplo da “técnica da desordem”.

            Por falar em Sartre, o ensaio Sobre O som e a fúria – a temporalidade em Faulkner está em Situações I – Crítica literária, também com o selo da Cosac. É célebre o trecho em que o filósofo francês afirma que “o infortúnio do homem é ser temporal”, ao interpretar a frase de um dos personagens (Quentin) segundo o qual “o homem é a soma de seus infortúnios e o tempo se torna seu infortúnio”. Para Sartre, entender o que Faulkner quer dizer com o tempo é preciso abandonar qualquer medida inventada pelo homem para controlar o tempo – como datas, relógios, períodos - e impregná-lo de cronologias e temporalidades. Antes, segundo ainda Sartre, é preciso ver o tempo como Quentin o vê (ou o Bayard Velho o enxerga, em Sartoris), após espatifar o mostrador do relógio de algibeira que o pai lhe presenteia. Ele esmaga o vidro e o mecanismo do relógio na quina de uma cômoda e ainda assim ele continua marcando o tempo. “O tempo está morto enquanto vai sendo tiquetaqueado por pequenas rodas; é só quando relógio pára que o tempo vem à vida”, afirma o personagem, talvez o mais trágico da trama, não apenas porque se mata, mas porque carrega em si a sina do homem faulkneriano, que só pode ser compreendida com a leitura de suas obras principais.
            Conforme Sartre (e a mesma interpretação vale para Sartoris numa cena que resume o escopo visceral da obra e que será discutida adiante) o que se descobre quando o relógio pára e o tempo se impõe como medida de vida é o presente e seus limites entre o passado e o futuro e “os caminhos não trilhados do destino de um homem” (está na página 104 de Sartoris). “O presente de Faulkner é catastrófico por essência; é o acontecimento que nos aborda como um ladrão, enorme, impensável – que nos aborda e desaparece. Não há nada para além desse presente, já que o futuro - “os caminhos não trilhados do destino...” - não existe. O presente surge não se sabe de onde, expulsando um outro presente; é uma soma perpetuamente recomeçada”, define o escritor de O muro.
O tempo despedaçado – Basta abrir as primeiras páginas de Sartoris para que se perceba como Faulkner odeia o tempo e como é verdade que fundou toda a sua literatura na certeza de que o homem “é a soma de seus infortúnios”. Na verdade, o homem de Faulkner parece se locomover pelo tempo e espaço, da página ou da vida, como se estivesse contemplando a história de si próprio através de um retrovisor. Como se este fosse incapaz de apreender o presente e pensar no futuro. Como se realmente o presente, como quer Sartre, fosse um ladrão que solapa a sua paz e o afasta de qualquer possibilidade de viver ou sobreviver a (à) realidade do tempo presente.
            Bayard velho é o personagem principal do livro, ao lado do filho de mesmo nome, os dois atormentados por traumas semelhantes, a perda dos irmãos o primeiro na Guerra de Secessão e o segundo na Primeira Guerra Mundial. Faulkner gosta dessas coisas, de dar mais importância ás circunstâncias de uma história, uma ação, um personagem, do que deixar tudo esclarecido para o leitor. Nada mais moderno. Ele convida o leitor a escrever ou reescrever suas histórias. O homem do passado de Faulkner é o mesmo do presente que se esconde por trás de uma cortina poeirenta ou se abriga dentro de um velho baú á espera que o libertem para ser o mesmo homem de ontem. Embora todos esses elementos ontológicos e anímicos não impeçam que o escritor seja um pensador de rupturas com o passado e que deseja empreender em sua obra também um salto para o futuro.
            Logo de início vemos que um carro moderno e veloz passa a substituir a velha e elegante carruagem e seus cavalos; um comerciante esperto começa a superar em negócios os remanescentes dos Sartoris, outrora senhores da terra, donos de bancos, fazendas e de negros. As mulheres leem Shakespeare e os jovens procuram os centros universitários mais sofisticados dos EUA onde se preparam para receber o futuro. Os negros, após a guerra, começam a se revoltar, depois da experiência na Europa, cobram sua emancipação como cidadãos com direito ao voto e à vida livre das amarras de um senhorio brutal e explorador do Sul em decadência. Mas isso tudo é apenas a moldura social de Yoknapatawpha e sua capital Jefferson. O homem de Faulkner continua a ser o mesmo, introspectivo e cambiante, que lutou ao lado do general Lee e que desafiou as potências europeias na primeira e segunda guerra. No entanto, jamais se libertará de seus fantasmas. Por isso o apreço pelo passado. E a repulsa do presente e do futuro, se o “o homem é a soma de seus infortúnios”.
            Sim, Sartoris começa logo com um período que de fato situa o leitor na trilha traçada por Sartre ao interpretar este e outros romances de Faulkner. “Como sempre, o velho Falls viera com John Sartoris, caminhara os cinco quilômetros desde o asilo do condado, trazendo consigo, como um odor, como o cheiro limpo e seco de seu macacão desbotado, o espectro do morto para dentro daquela sala em que estava sentado o filho do morto (...)”. E é à reboque desse passado, da história do primeiro Sartoris, morto na guerra, herói da guerra, que o presente se instala na narrativa de modo incômodo e usurpador da paz familiar. Sim, o contraponto com esse velho Sartoris fantasma de uma época morta, quem faz é o novo Sartoris, que ressurge em Jefferson, sobrevivente da primeira guerra, furtivamente, ao saltar de um trem, incógnito e demasiadamente vivo, humano e desconfortável. O embate dos dois Bayards se passa mais pelo plano das memórias do que do presente. A única mudança aparente no Bayard jovem é o carro que dirige feito um louco, como se quisesse se matar a todo instante para se livrar do trauma de ter perdido um irmão
na guerra e não se perdoar porque deixou que John entrasse naquele avião (página 139). O velho Bayard sofre da mesma doença, ter lutado na Guerra de Secessão e ter voltado pra casa, sem o irmão que idolatrava e que morrera em combate.
            O problema em Faulkner é que mal o presente aparece o passado lhe dá uma rasteira e tudo se passa ao nível das lembranças que ele, habilmente, transforma em ação e desmembra de modo quase imperceptível - em subdivisões de ações sob o comando de sua artilharia pesada de criações, registros e recriações. Por falar nisso, muitos teóricos e historiadores afirmam que a literatura de Faulkner reúne o mais rico e cobiçado acervo de histórias da das guerras do Norte contra Sul e da Europa. Na verdade, Faulkner não reproduz essa história, não registra fatos e lembranças dessas guerras e dessa época, não recupera esse passado de decadência, mas sim procura reconstruí-lo com a sua competência invejável, com o seu raro talento de criador na linha de um Joyce, Virgínia Woolf ou de um Proust. Por falar no autor de La recherche, Sartre afirma que enquanto “Proust busca recuperar o tempo perdido, em Faulkner o tempo está ali, diante dele, o passado nunca esteve perdido”.

           

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Morre o escritor Carlos Tavares

Carlos Alberto Tavares de Melo morreu aos 57 anos


Carlos colaborou com este blog com artigos sobre Tolstói, Faulkner, Moacyr Scliar e outros. Minha homenagem é o texto que se segue:



Morreu Carlos Tavares, aos 57 anos, e com ele todo um mundo de realidade fantástica, sombras, metáforas e medos. Conheci primeiro a voz de Carlos, pelo telefone. Demorou a se materializar, durante quase um ano foi apenas uma voz inteligente falando sobre literatura. Ao nos encontrarmos, senti que o conhecia de muitos anos, desde a adolescência literária de nós dois. Rememoramos livros, leituras, autores admirados por nós e sempre a inteligência exuberante, pueril, vibrátil, de sotaque paraibano, naquele corpo pequeno, me surpreendia.

            Deixou-nos um único livro de contos. Fábulas da Febre, uma reunião de narrativas escritas entre 1980 e 2005, livro publicado pela editora A Girafa, de São Paulo, sobre o qual escreveu o crítico e poeta Hildeberto Barbosa Filho: “se há uma linha mestra nessas ficções, ela se encontra na proximidade entre Eros e Tanatos”. Venceu, em curto espaço de tempo, o último.

            José Nêumanne Pinto chamou-o de “príncipe herdeiro do absurdo”. E outra vez cito Hildeberto, grande personalidade da crítica e da poesia brasileira: “Carlos Tavares, através de seu característico narrador - narrador de ponto de vista singular, precário, perplexo, onírico, devaneante - se põe como poeta. E como poeta sonda sobretudo a plenitude virginal da linguagem, a sua plasticidade, seus veios acústicos, num viés que se conforma perfeitamente com as matrizes valeryanos do discurso”.

            Tenho guardado em arquivo dois livros inéditos dele. São um romance, uma novela e contos esparsos. Num deles, a menina o chama insistentemente para entrar numa casa que era o passado e a morte a uma só vez. Morrer então seria o retorno a um mundo perdido. Sua literatura forte, de imagética fantástica, carregada de símbolos, mostra um escritor preocupado não apenas em contar uma história, mas um prosador consciente do uso das palavras como obra de arte e a maneira de contar antes do que contava.

            Amava Faulkner. Quando o visitei no hospital, tinha ao seu lado o romance Sartoris. A imagem dele agarrado a um livro de Faulkner permanecerá em minha memória. O gigante americano que usou as técnicas mais modernas e abusou do tempo, da memória e do espaço na ficção espelha o universo múltiplo, racional e tumultuado que era a mente literária de Carlos Tavares. Estava ele ali, algemado à doença que o mataria e ao livro que era extensão de seu braço. Aquela era uma anatomia perfeita para descrevê-lo: um homem cujas mãos não terminavam nos dedos, mas nos livros.

            Carlos tinha um temperamento difícil, mas alimentava um carinho especial pelos amigos. Sua pequena família literária o admirava. Quantos sonhos, quantas ideias, quantos livros a escrever. Virava noites insones, numa escrita automática, tomado por um frenesi, fumando sôfrego seu cigarro e bebendo seu uísque que iriam escrever seu final triste.

            Sob suas declaradas influências como Elias Canetti, Ernesto Sábato, James Joyce, Albert Camus, Kafka e Lúcio Cardoso, nos últimos meses escreveu freneticamente como a tentar vencer a morte. Se tivesse que pedir mais tempo de vida para cumprir alguma missão, seguramente esta seria um pouco mais de tempo para terminar uma novela ou um romance.

            “Tudo que não é literatura me aborrece”. A frase de Kafka cabia bem a ele. Trabalhou em vários jornais, entre eles, O Globo, Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo e, por fim, o Correio Braziliense onde a morte o encontrou.

            Só me resta agora lhe deixar um último recado: Tu, Carlos, que agora habitas outro mundo, imprimiste tua marca em forma de letras. São elas teu retrato que o tempo por certo tentará esmaecer, mas nunca deixará em branco ou perdido. Espero também que elas tenham o dom de amainar a saudade e a dor que o tempo inflige e cura, como um deus de duas faces. Adeus, velho amigo.