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sábado, 27 de março de 2021

Pai nosso que estais no céu de Brasília, RCF


portinari

  

O cheiro é uma espécie de diálogo.
Sempre dialoguei bem com as plantas.
Fácil é dialogar com o céu de Brasília,
porque ele é claro, transparente,
imensa bola de gude a nos cobrir.
Pai nosso que estais no céu de Brasília,
dai-nos hoje o estado de graça e beleza
dos olhos cheios d’água,
dos ipês acenando com mãos roxas,
do sol narciso que vem no Lago se mirar.
Dai-me o solstício das discórdias,
o zênite dos meus gozos,
a estação solar e a estação das águas:
mas, há também a estação das esperas,
época de seca de desvelos
e de enchentes de perdas.
Se o céu é o mar de Brasília,
estamos todos naufragados na luz intensa
que move o motor do nosso corpo
e a terra pronta para plantio da nossa mente.
E quando chega o planetário da noite
vêm as estrelas ciciar saudades.
Sob o céu transatlântico de Brasília
navega a nau dos operários
que a cada dia reinauguram a capital
ancorada neste porto sem água.
Difícil é dialogar com os pássaros,
riscos ariscos no céu de Brasília.


(Publicadono Correio Braziliense)