quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O Anjo Pornográfico por Fábio Coutinho





O título é, evidentemente, extraído da caudalosa biografia escrita por Ruy Castro, livro à altura do biografado e de sua obra magistral. Nelson Rodrigues nasceu no Recife, em agosto de 1912, mas foi para o Rio ainda menino, no meado da década de 1920, acompanhando o pai, o combativo jornalista pernambucano Mário Rodrigues, então necessitado de novos ares profissionais.

Logo depois de instalado na Capital Federal daqueles tempos, Mário fundou mais um periódico, Crítica, e foi nele que Nelson deu os passos iniciais de uma carreira que se estenderia por cinco virtuosas décadas. Visceralmente homem de jornal, cronista torrencial, teatrólogo de primeira grandeza, frasista imbatível ("O dinheiro compra até amor sincero" e centenas de outras pérolas), personagem do Rio e do Brasil, Nelson Rodrigues teve a vida marcada pela tragédia, que se manifestou cedo, ao fazê-lo presenciar, na redação do jornal do pai, o assassinato do próprio irmão, o também jornalista Roberto Rodrigues. A culminância trágica foi o nascimento de uma filha cega, sobre quem Nelson produziu as páginas tocantes de um dos livros mais belos (e tristes) da Literatura Brasileira, o memorialístico A MENINA SEM ESTRELA.

A confecção teatral de Nelson Rodrigues o situa no topo da dramaturgia mundial contemporânea, sendo ele amplamente reconhecido, com a admiração incontida que nos é característica, como o "Shakespeare brasileiro". VESTIDO DE NOIVA, BEIJO NO ASFALTO e BONITINHA MAS ORDINÁRIA são alguns dos célebres títulos de suas peças imortais, muitas levadas para o cinema, sempre interpretadas pelos mais importantes atores e atrizes de nosso país. Nelson é autor, ainda, de um romance de tintas fortes, O CASAMENTO, em que faz picadinho da outrora sólida instituição matrimonial.

Nelson Rodrigues também cultivou, por toda a existência, a paixão futebolística, traduzida em amor incondicional ao Fluminense Futebol Clube e à Seleção Brasileira. Dedicou-lhes crônicas impagáveis, reunidas, pela Companhia das Letras, em três livros literariamente saborosos, O PROFETA TRICOLOR (Cem Anos de Fluminenese), À SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS e A PÁTRIA EM CHUTEIRAS. Do time de seu coração, Nelson chegou a dizer que se tratava do único verdadeiro tricolor, os outros eram apenas equipes de três cores...

O centenário de Nelson Rodrigues, que faleceu na véspera do Natal de 1980, aos 68 anos de idade, é um dos pontos mais altos de 2012 no panorama da cultura brasileira, merecedor de todas as comemorações programadas e mais alguma coisa.



FABIO DE SOUSA COUTINHO, advogado e bibliófilo, é membro titular do PEN Clube do Brasil e do Instituto Histórico e Geográfico do DF.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Jorge Amado por Fábio Coutinho


Três vezes cem

O ano de 2012 assinala três grandes centenários na Literatura Brasileira: os de Jorge Amado, Lúcio Cardoso e Nelson Rodrigues, todos amplamente merecedores das intensas comemorações que se podem antever. Neste artigo, cuidarei do escritor que nasceu primeiro, naquele longínquo agosto de 1912.

O baiano (de Itabuna) Jorge Amado iniciou muito cedo sua trajetória de consagração literária, publicando três livros em torno dos 20 anos de idade: O País do Carnaval, em 1931, Cacau, em 1933, e, no ano seguinte, Suor. Depois de Macambira, o herói de Rei Negro, de Coelho Neto, que é de 1914, a primeira grande figura de negro a sair viva de carne e alma das páginas de um romance só o faria em 1935, com Antônio Balduíno, a personagem principal de Jubiabá, o quarto romance de Jorge, livro que foi recebido com entusiasmo pela crítica e pelo público. O autor tinha, então, apenas 23 anos!

A partir daí, além da constante colaboração em jornais e em revistas literárias, Jorge Amado passou a atuar politicamente, como militante do Partido Comunista Brasileiro, circunstância que o levou várias vezes à prisão, antes e durante o Estado Novo. No plano da escrita, sua atividade era incansável, sem perda de qualidade: depois de Jubiabá, vieram Mar Morto (1936), Capitães da Areia (1937), ABC de Castro Alves (1941) e O Cavaleiro da Esperança (1942). Nos dois últimos, biografou e homenageou, respectivamente, seu mais ilustre conterrâneo, o poeta dos escravos, e o ídolo político de sua juventude, Luiz Carlos Prestes.

Jorge Amado produziu ficção da boa enquanto os olhos lhe permitiram, e, no fim da vida, ainda pode publicar um esboço (a que chamou de apontamentos) de suas memórias, intitulado Navegação de Cabotagem. Na mirada certeira de Alberto da Costa e Silva, "só aos inteiramente perversos e canalhas Jorge Amado nega a simpatia - por que não dizer o carinho ? - com que desenha os que figuram em seus romances. Cada um deles tem, ao menos uma vez, um gesto doce ou uma palavra de bondade, ainda que, às vezes, envoltos pela atmosfera de farsa". Em 1961, foi eleito, por unanimidade, para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira que tem José de Alencar por patrono e Machado de Assis por fundador. Nada mais justo e apropriado.

Jorge Amado faleceu em Salvador, em 6 de agosto de 2001, a poucos dias de seu aniversário de 89 anos. Deixou uma imensa legião de leitores órfãos e de admiradores incondicionais da grandiosa aventura vital do artista brasileiro que sempre honrou e dignificou a condição humana, contrapondo-se, invariavelmente, à banalidade do mal.





FABIO DE SOUSA COUTINHO, advogado e bibliófilo, é o titular das cadeiras nº 21 da Academia de Letras do Brasil e 74 do Instituto Histórico e Geográfico do DF.



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Mitologia, poema de Alberto Bresciani




O muro não me libertará
(sei porque sou tempo)

Conhecendo também
suas entranhas, armadilhas
saliências e entraves

eu o escalo
até o alto
onde ameias são faces tantas
e arranham ou assaltam
a vida

Lá, debruço-me
pendo, estico-me
jogo as mãos
a pele

e mesmo que não encontre
matéria de igual trama
ainda tenho

céu, vento, ar
ou desejo e dúvida e ilusão

Este (é um murmúrio)
o meu plano de voo
ramo de salvação

Sim, no relume das horas
arranco uma ou outra
de suas plumas e
do cimo
sinto

o doce estrépito
de um corpo
que arde e responde
                sob o meu.


(do livro Incompleto movimento, Rio de Janeiro: José Olympio, 2011)

Alberto Bresciani nasceu em 4 de julho de 1961, no Rio de Janeiro. Está radicado em Brasília há vinte e três anos. É magistrado e poeta. Com Incompleto movimento, Bresciani estreia de forma madura e promissora.

imagem retirada da internet: twoblocks.blog