terça-feira, 9 de setembro de 2014

Um homem é muito pouco 3





Os cartazes do Roxy, do Art-Palácio e do Metro Copacabana traziam o estardalhaço de filmes de James Bondona As ruas se estreitavam, as calçadas tinham menos pedras portuguesas, um desconhecido lhe perguntou se tinha fogo. Clemente acreditou que, conforme a vez que o sujeito lhe perguntou a hora, este também fazia parte da perseguição. Não tinha mais Mateus para enfiar-lhe murro. Clemente apenas empurrou o sujeito que arregalou os olhos, girou o indicador à altura do ouvido e gritou: Tá maluco, homem, tá maluco? Mais alguns passos e Clemente entrou num edifício comercial, subiu as escadas correndo, esperou o elevador no andar médio e saiu no oitavo andar, no corredor cheio de lojas de roupas clandestinas, de manicures, de dentista, e até consultório que tinha placa de latão com os dizeres Medicina Prática e Esotérica, alfaiate e curso de datilografia.
As salas do curso de datilografia eram amplas. O curso comprara várias salas, derrubara as paredes e agora enfileirava as mesas com as máquinas de escrever. Havia sete moças praticando, dois rapazes supervisionando e um menino de sardas e óculos, cujos pés não alcançavam o chão, catando milho.
Vim me inscrever – disse Clemente para a recepcionista.
Preencha esta ficha, moço.
Ele queria ganhar tempo, saber se realmente alguém o esperava de tocaia e se conseguira alcançá-lo e, por fim, queria gente em volta, estava seguro de que com gente em volta o seu algoz ou seus algozes não iam querer testemunha para o que estavam planejando.
É iniciante?, perguntou a moça.
Não, sei alguma coisa.
Quer fazer um teste?
Clemente balançou a cabeça, uma senhora apareceu. Era d. Ruth, proprietária do curso de datilografia. Ela o levou até a mesa com máquina de escrever e deu-lhe texto para datilografar. No texto estava escrito: Não olhe para os lados, você cometeu um erro grave e agora vai ter que pagar por ele. Ainda havia outras frases misteriosas e mais outras que não faziam sentido. Clemente ergueu a cabeça e ia perguntar para d. Ruth que brincadeira era aquela. Mas a dona do curso não estava mais lá. Ele se levantou e foi até a recepcionista. Estava com o papel na mão. Eu queria falar com dona Ruth. Ela teve que sair, respondeu a moça. Mas um dos nossos professores vai atendê-lo. O senhor já bateu o texto? Eu queria saber que brincadeira é essa aqui. E Clemente mostrou o texto. A moça leu e devolveu o papel.
É um dos nossos textos. Não vejo nada de errado aqui, a que o senhor se refere?
Não olhe para os lados, a mocinha por acaso leu direito o que está escrito aqui?
A recepcionista pegou outra vez o papel e leu em voz alta: A direção do automóvel deve ser cuidadosa a fim de evitar acidentes. O senhor veja, disse a recepcionista, o problema aqui é ver como se sai o datilógrafo com a palavra direção.
Ele olhava desconfiado a moça. Não sabia se acreditava nos seus olhos ou na leitura dela. Olhou novamente o papel e não conseguia ler nem uma coisa nem outra. A leitura de Clemente era como, se comparada à respiração, uma leitura engasgada. Não conseguia respirar, ou seja, não conseguia distinguir as palavras. Não via a palavra direção ali como também não via a frase inicial não olhe para os lados.
Dois homens entraram na sala e Clemente ficou com medo de que os dois homens fossem os que o estariam perseguindo. A pior perseguição é a perseguição do homem com sua fuga. O medo é o principal algoz. O medo persegue o sujeito até onde ele está seguro. O sujeito não pode fugir da perseguição se o que o persegue está dentro dele, porque aí então ele leva o que o persegue para onde vá. Por isso é que as pessoas querem fugir da angústia. Mas a angústia tem capas, óculos escuros e outros meios de se disfarçar e aparece sempre de súbito diante do perseguido. Clemente sabia que não havia presa mais fácil do que o homem angustiado.


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

1599-1899: um paralelo de gigantes, Fabio de Sousa Coutinho



 

Para Bebel e Rodrigo

 

Com intervalo de exatos 300 anos, duas das maiores construções literárias da humanidade foram trazidas a lume: em 1599, a grande tragédia Hamlet, do inglês William Shakespeare; em 1899, o romance realista Dom Casmurro, do brasileiro Machado de Assis.

A separá-las, além da distância temporal de três séculos, os idiomas em que foram escritas, os gêneros característicos de sua elaboração. A uní-las, a indisputada genialidade de seus autores, a certa e justa consagração para a eternidade, o enfrentamento, no mais alto grau de indagação filosófica, do problema existencial traduzido na dúvida.

No Hamlet, Shakespeare manifestou, pelas palavras de seu fascinante e fascinado Príncipe da Dinamarca, o enigma que perpassa a própria essência de nossas vidas: ser ou não ser, eis a questão (“To be or not to be, that is the question”). No Dom Casmurro, o bruxo do Cosme Velho, a cuja obra, se faltam pujança e paixão, sobram estilo e viva observação psicológica, pôs sua personagem Capitu no centro de dilema que consiste em haver ocorrido, ou não, traição conjugal ao marido Bento Santiago, o Bentinho.

Inventor do humano, “deus mortal”, na expressão-síntese de Harold Bloom, William Shakespeare conquistou, na história da civilização ocidental, o lugar mais marcante a que pode almejar um homem de letras. Trabalhador incansável, a produção do bardo, em 1599, não se limitou à construção do visceral Hamlet. São, também, daquele ano outras três de suas mais famosas peças: o drama histórico Henrique V, a tragédia de aprendizado Júlio César e a alta comédia Como gostais (“As you like it”). Tinha Shakespeare, então, precoces e impressionantes 35 anos de idade. Nascido em 1564, viria a falecer em 1616, aos 52, numa faixa etária que não discrepava dos padrões estatísticos de mortalidade, na era elisabetana.

O carioca Joaquim Maria Machado de Assis era um provecto cidadão de 60 anos, Presidente da mais importante instituição cultural do País (que fundara em 1897), quando concluiu seu célebre romance, hoje rigidamente incorporado ao imaginário brasileiro e respeitado, à unanimidade, pela crítica internacional. Num livro precioso, A Biblioteca de Machado de Assis (ABL/Topbooks, Rio de Janeiro, 2001), organizado por José Luís Jobim, é possível comprovar, sem esforço, a sólida presença de William Shakespeare na inspiração e na fatura machadianas. Leitor ávido, nosso maior escritor recorria aos textos poéticos e teatrais do incomparável dramaturgo em sucessivas traduções francesas, editadas em dez volumes pela Librairie Hachette, entre 1867 e 1873.

Dono de fino humor e agudo senso de investigação anímica, Machado, a partir da influência shakespeariana, antecipou muitas conquistas modernistas, além de plantar sementes conceituais  que Sigmund Freud mais tarde formalizaria em tratados magistrais. 

Os emblemáticos Hamlet e Capitu, criações raras vezes igualadas na literatura universal, são frutos, com 300 anos de diferença, da mesma árvore esplendorosa que enseja a continuidade da arte literária, per omnia saecula saeculorum. As dúvidas que encerram obras como Hamlet e Dom Casmurro são o que de mais denso se imaginou sobre as circunstâncias que movem e atormentam as criaturas humanas. Shakespeare e Machado de Assis, ao plantá-las com estética indelével, nos ensejam a capacidade de lidar, de modo consciente e maduro, com a falta de sentido do mundo, a inexorabilidade de nosso destino, a ideia de quem somos e de que, na vida, não há coincidências.

 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

As flores do bem, Fabio Coutinho


 
                                                                            
 
Em 3 de novembro de 1934, veio ao mundo um dos maiores poetas brasileiros de nossos tempos, Ivan Junqueira. Neste 3 de julho de 2014, a exatos quatro meses de completar 80 anos, o formidável vate, ensaísta e tradutor nos deixou, depois de amargar penosa internação hospitalar, em sua cidade natal.
 
O carioca Ivan sempre viveu na Cidade Maravilhosa, onde foi estudante de Medicina e de Filosofia, além de haver-se iniciado no jornalismo em periódico, a célebre Tribuna da Imprensa, que gozou de seu maior prestígio na década de 1950. Mas foi na de 1960 que Ivan Junqueira se lançou como poeta, iniciando uma carreira literária que, ao lado da tradução de poesia, da organização de edições e do ensaísmo, viria trazer-lhe a consagração em 2000, ano de sua eleição para a Cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão do grande João Cabral de Melo Neto. OS MORTOS, de 1964, foi o primeiro livro de poemas de Ivan, a ele seguindo-se, entre outros, TRÊS MEDITAÇÕES NA CORDA LÍRICA, de 1977, A RAINHA ARCAICA, de 1980, O GRIFO, de 1987, e o espetacular A SAGRAÇÃO DOS OSSOS, de 1994, que, no ano seguinte, lhe valeu seu primeiro prêmio Jabuti. O segundo foi conquistado em 2008, com O OUTRO LADO, que viera a lume no ano anterior.
 
A pena do Ivan Junqueira ensaísta costura um culto e elegante artesanato textual, refletido em livros como O SIGNO E A SIBILA (1993) e O FIO DE DÉDALO (1998), esplêndidas coletâneas de ensaios ingleses, alemães, franceses, gregos e portugueses. Além da poesia e do ensaísmo de escol, Ivan é reconhecidamente um dos maiores tradutores de autores fundamentais nas literaturas produzidas em idiomas de ponta, no cenário mundial. Para exemplificar, são de Ivan Junqueira traduções definitivas de obras de T.S. Eliot (Quatro quartetos), Charles Baudelaire (As flores do mal), Jorge Luis Borges (Prólogos), Marcel Proust (Albertina desaparecida) e tantas outras, quase sempre acompanhadas de notas explicativas de alto teor de erudição.
 
Nas obras de Ivan Junqueira, desenha-se o espaço luminoso da ação (po)ética, com rigor e força artística incomuns. Como ele próprio escreveu acerca da obra impecável de Alberto da Costa e Silva, cabe, de sobejo, afirmar que os versos e estrofes soberbos de Ivan Junqueira não se escrevem todo dia ou a qualquer hora. Trata-se, a rigor, de construções em que a poesia atinge seus mais altos níveis de excelência estética.
 
Na síntese irretocável de Theodor Adorno, o clarividente mestre da Escola de Frankfurt, "a inteligência é uma categoria moral". Escritor dotado de intelecto privilegiado, Ivan dedicou mais de cinco décadas de sua bela existência à produção do que de melhor, mais sério e mais lúcido se fez na poesia brasileira contemporânea, o máximo que se consegue de beleza com a utilização do principal recurso humano.
 
Em suma, homenagear a memória de Ivan Junqueira, na hora tristíssima de sua partida sem volta, é circunstância que, ultrapassando a reafirmação da força indelével da Literatura, exalta a própria arte poética, manifestação superior da criatividade, do esforço e da paixão dos homens.