terça-feira, 5 de novembro de 2019

Dom Sebastião, poema RCF



Marrocos: atrás de Alcácer-Quibir
entre Salé e Tanger, estava no deserto
o estigma da minha raça e lá perdido
e mouro e berbere, a lembrança funesta
e mágica de que aqui pertenço
como o seixo a sua montanha, o gado a seu pasto,
mas não a tâmara, que não é fruto da tamareira,
mas das bocas doces e árabes das moças.
Fui atrás de uma batalha perdida e da ilha
encantada que alberga o rei morto como
as árvores abrem seus ventres para servir de cova
e seus braços longos para suportar ninhos,
e lá estive, no deserto mais dissoluto e solar,
na solidão do vento quente que sopra o corpo
e a lembrança perdida dos tempos e nada
encontrei, pois nada havia de encontrar
para unir uma ilha encantada a uma
batalha que já havia sido perdida antes
de começar. E percebi – tudo o que herdei
da visita – que a ilha encantada
me acompanha, a serpente em volta de mim,
e que carrego a infância pelas ruas
como um mendigo arrasta sua medina de erros.


(Memória dos Porcos, 2012)


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Um homem é muito pouco, carta do leitor

Somos poucos para tanta vida



Comecei a ler Um homem é muito pouco em março deste 2011. Confesso que, a princípio, fiquei meio assustado com as 490 páginas. É uma temeridade lançar um livro tão volumoso em tempos de Internet. Segurá-lo nas mãos não foi muito fácil, principalmente no metrô lotado (rs), onde costumo aproveitar o tempo. Até mesmo em casa, costumo segurar os livros nas mãos – não gosto de apoiá-los em mesas porque não oferecem um ângulo bom para leitura. Terminei de ler em fins de abril, mas valeu a pena, porque o seu romance “vale quanto pesa”.
Cara, você é o rei das analogias. Você cria metáforas muito interessantes, poéticas, singulares, aparentemente absurdas, mas que levam o pensamento a campos inimagináveis, inexplorados, estimulando sinapses em nossos cérebros. Cria inteligência natural.
Curioso, também, que você foge dos travessões nos diálogos, assim como das irritantes aspas. E usa poucos pronomes (quase nenhum), preferindo repetir os nomes dos personagens quantas vezes forem necessárias, sem nenhum constrangimento. E faz isso de propósito, notei.
A sua obra é bastante existencialista e reflete sobre a aventura humana de um jeito despojado, como quem não quer nada – filosofia silenciosa. Faço questão de assinalar algumas das analogias/metáforas que mais me chamaram a atenção. Para mim, elas são o ponto forte da sua obra. Eis algumas delas (vou fazer como você, não vou usar aspas):
• O pior clandestino é o sujeito que anda pela vida como se não pertencesse a embarcação nenhuma.
• A maior perseguição é a perseguição do homem com sua fuga.
• Um homem não pode viver despido de sentimento.
• Tem gente que já nasce morto e vive morto pela vida afora.
• A maioria das pessoas vive morta e só acabará com o sofrimento quando chegar o que se julga morte.
• Não, a vida de um homem não é peso que se pesa ao subir na balança. O peso do homem inclui sua consciência.
• O sujeito pode trabalhar todo o dia como pedreiro ou carpinteiro, mas a alma continua vadia.
• Não há passado, nem há presente – apenas o futuro que chega a cada minuto.
• O sujeito que se perde pode estar perto do ponto aonde quer chegar, mas caminha em direção oposta.
• A morte é uma condenação para culpados ou inocentes, e parece que, diante da morte, todos somos culpados.
• Sentaram num restaurante e nenhum dos dois comeu nada. Os pratos ouvindo a conversa.
• Há pessoas que, mesmo na aparente rotina, são tão múltiplas dentro de si, tão outras, tão variadas, que não há jeito de criar rotina.
• Gostava da rotina. Achava a rotina criativa. As melhores ideias que tinha apareciam durante a rotina.
• Os dois médicos de Cristina disseram que ela gestava um medo menina.
• E ela foi viver com Jaime sabendo que casava com um vulto.
• Há pessoas que nascem, vivem e morrem na mesma casa e passaram a vida em fuga.
• Os obsessivos dão voltas em torno de si mesmo.
• Vi o cadáver e o cadáver estava pronto para ir para o trabalho e não para o cemitério.
• Só sei mentir para mim. Sei me enganar como nenhum outro.
• O cara que mais vigio sou eu mesmo.
• O passado pode me abocanhar o calcanhar e não deixar que eu ande livremente.
• A gente não mora em lugar nenhum. O único lugar em que a gente mora é dentro da gente, dentro do corpo.
• Até mesmo a lei da gravidade nos oprime.
• Todo homem traz um pouco do resto da humanidade.
• As grades feitas de pensamento são muito mais difíceis de serrar.
• Eu também devia ter alguns roubos dentro de mim que eu não dava queixa a ninguém.
• A gente nunca sabe quando é a última vez que se vê uma pessoa. Olho-me no espelho e penso que talvez seja a última vez que me vejo.
• O modo de eu desaparecer de mim é perder a memória.
• A doença de Humberto era falta de vida como quem tem falta de vitamina ou de sangue.
• Havia na Rua Buenos Aires uma farmácia que vendia veneno para suicidas e que todos conheciam.
• Caçava-me, caçava uma mulher, caçava um sentido. Cansa muito caçar um sentido para a vida.
• Vestia-me de prisioneiro todo dia para ir trabalhar.
• Amanhã terei que comprar comida para alimentar o corpo que insiste em viver.
Etc., etc.
Meu caro Ronaldo, um homem é, realmente, muito pouco para absorver toda a sua riqueza como escritor. Aguardo o próximo romance. Me avise.



Jaime Pereira da Silva
Jornalista e compositor, 59 anos cravados na beleza da vida.

imagem retirada da internet: loliness

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O homem olha o Mondego, poemaRCF

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Alguns rios me banham: Bacanga e Anil.
Meu corpo está cheio de rios:
minhas veias são rios vermelhos
que desembocam no mar do meu coração.
Os rios se instalam em mim
e em mim me danam, lanhando
por dentro meu corpo, linfáticos e
cheio de incertezas, onde habitam
passado e história, dor e escuridão.
Há rios em mim que desconheço
sua foz, sua embocadura,
de onde nascem, para onde vão.
O pior rio é o da mente
que flui sem margens,
desordenado e com várias águas,
águas desiguais e turvas.
Há rios em mim que nunca supus ter.
Meu pensamento é um rio seco
mas pleno de correnteza e afogamento.

  

Coimbra, 18.10.2009

(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)