sexta-feira, 29 de março de 2019

Os patos selvagens, poema RCF




as cidades intumescem
caçadas inúteis
                       pelos arrabaldes do vago
                       no mais recôndito
                       das algibeiras
                       está o coração do homem
                       o coração do homem
                       batendo nas fotos antigas
                       ou nos recortes de jornal
                                                procurando emprego

já não tenho dezoito anos
nem o relógio de corda
que não me deixava dormir
                                               tomando meu pulso
                                               eu
                                               refém
                                              do tempo
                                                         no terrorismo da distância

podes até trocar
            de pensamento
            recalcar amores fugidios
            negar
                               o toque do tempo
                               e de sua matéria
                                          feita de areia

o que não podes trocar
                               é de corpo
negar

este está ferido
e deitou-se em cama que não quis

os patos selvagens
salvam a aurora
que se partiu
em vários
                e difíceis pedaços


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)


imagem retirada da internet: van gogh









quinta-feira, 28 de março de 2019

Poema sobre pás, poema RCF




As pás do ventilador nunca se alcançam:
eternamente perseguindo a pá que segue
e fugindo da pá que lhe persegue.
Estou no mundo entre duas pás:
a pá de espírito que não alcanço
e fugindo da pá de cal
que me quer dar descanso.




(do livro Eterno passageiro. Brasília: Varanda, 2004)


imagem retirada da internet: miró

quarta-feira, 20 de março de 2019

Outro deserto, poema RCF







Assim a praia deserta,
imóvel, paquiderme de areia,
inventando-se a si própria,
onda que de si se alimenta,
estava o coração do mundo.

As palmeiras perfiladas não discordavam
com suas palmas indecisas
e toda nervura da manhã deserta
era a desfiguração da realidade
postal do tempo estagnado:
praia, homem, olhos e areia.

O que escalda não é a areia fina
nem o sol que se dependura, coco
exaustivo, passado do tempo,
o que escalda é o remorso arenoso.

Este mar que me banha
não é líquido.

Já não tenho a memória dos peixes.



(do livro Eterno Passageiro, Brasília, Ed. Varanda, 2004)


(foto rodney smith)