quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Mesa redonda, poema

 


 


 

 

As cadeiras

em volta da mesa

brincam de roda.

Às vezes

rodo em volta da mesa,

meus quatro pés de madeira,

minha boca de álcool,

meus dedos de colherinha,

meus ouvidos

de dar dó,

um dó maior.

 

Meu coração entra na roda

e samba

– meu coração é uma mesa-redonda

de opiniões contraditórias.

Algumas vezes

as mesas se despenteiam,

as mãos nas cadeiras.

 

Deixo de herança

apenas a roda da fortuna

que me põe de cabeça pra baixo.

Meus livros

são cartas na mesa

com destinatário desconhecido.

Toda mesa é de jogo

quando a gente se senta para escrever

– cada palavra é parte de uma roleta.

Meus versos são minha roleta-russa.

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Meu mundo caiu, poema

 


 


 

 

Mundo é uma palavra vasta.

Tem gente que diz

que existem vários mundos.

Ao dormir, meu mundo

fala comigo sem pé nem cabeça

como uma bola

que não se sabe onde começa,

nem onde termina.

Acho que tenho dois mundos

como tenho dois pulmões:

quem sabe o mundo

não inspira a vida da gente

e nos expira na morte?

 

 

 

 

 

 

sábado, 14 de outubro de 2023

O quarto tempo, poema

 


 


 

 

 

Cresce em mim o tempo

que não é passado,

fruto maduro que se perdeu,

muito menos futuro,

que é sonho e semente,

ou o que vivemos,

o dito presente,

que está prenhe

dos três tempos do homem.

 

Vivo em um quarto tempo,

carregado de esperança

que, concedo,

é uma mania de futuro;

retalhos sucessivos

de cenas que me arremessam

à parede móvel dos anos

e à matéria corrupta

que é um torniquete

para as delícias do mundo, meu amor.