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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O mar de Goiânia, Jádson Barros Neves





 

Vai que uma amiga de infância – ou quase isso –,  sempre eu que retornava de minhas férias escolares, perguntava-me, mal me via:

— Jádson, me conta sobre o mar de Goiânia. Sei que é tão lindo!

Ela era um pouco mais velha do que eu e ainda não tinha saído para estudar fora. Eu não sabia o que dizer e inventava um mar para Goiânia. Ia à Biblioteca da Católica, consultava a “Enciclopédia Mirador”, olhava cidades banhadas pelo mar e, na volta para casa, para minhas férias escolares,  já encontrava minha amiga me esperando. Sempre, sempre gentil e educada.

Dias antes, ela estivera com mamãe e lhe perguntava:

— Tia, o Jádson chega quando?

Mamãe sempre me entregava: dia, hora, minuto, segundo. Fazia limonada, torta de maçã, um monte de bolos caseiros. Eu voltava cansado da viagem, muito cansado, pensando em dormir. Viajar 980 kms, naquela época, mesmo eu sendo um garoto, um atleta, um corredor, não era nada fácil. E minha amiga, em vestido de chita, aguardava-me com a eterna pergunta:

— Me conta mais sobre o mar de Goiânia.

E eu inventava as histórias que lia em livros, descrevia paisagens com mar, dava-lhe uma impressão profunda de movimento, muitos idiomas, mulheres vestidas com roupas impossíveis, homens galantes desembarcando num porto de Goiânia e ia dormir.

Durante o resto das férias, tentava me desviar do “mar de Goiânia”. Buscava outros assuntos, fugia de minha amiga, refugiava-me em fazendas próximas, viajava para ver minha namorada que morava na cidade de meus avós maternos e retornava já perto de voltar para Goiânia, já com saudade de minha namorada, já escrevendo cartas a ela, cuja resposta eu teria em Goiânia.

Eu não fazia muito em Goiânia: estudava o dia inteiro, ia ao cinema aos domingos sozinho ou com alguma paquera eventual, muito raramente ia a uma danceteria e respondia às cartas de minha namorada. Vez ou outra, minha amiga me escrevia e, no P. S., o de sempre: “Qual a cor do mar hoje aí?”

Era um mar cambiante, que assumia as cores que eu imaginava.

Uma tarde, eu estava deitado, lendo pela primeira vez “Cem anos de solidão” e, portanto, vivendo em Macondo, quando bateram à porta de meu quarto. A voz de um amigo, irmão de minha amiga, me chamando.

Abro a porta e me deparo com meu amigo e minha amiga. Os olhos dela vermelhos de choro ou de raiva. Ela profundamente calada, como só as mulheres sabem ficar, antes da tempestade. Meu amigo me disse, desolado e tentando amenizar o que viria.

— Não pude fazer nada. Ela insistiu tanto com mamãe para vir, que não teve jeito. Quando ela perguntou sobre o mar para mim, não me contive e comecei a rir. “Que mar? Mar em Goiânia?  Girou?”

— Mas o Jádson me disse. Me deu tantos detalhes, em tantas cartas.

Ainda tentei fechar a porta do quarto, mas minha amiga arrumou uma força incrível, como a que dizem que só as mães têm e empurrou a porta, já me dando uns tapas:

— Então aqui tem mar, né? Tem mar, né?

Numa brecha, ganhei o corredor do pensionato, fui para a casa de outro amigo e só retornei uma semana depois, sabendo que ela já havia ido embora.

Nas minhas férias, ela me evitava e senti o quanto não poder inventar mais o mar para Goiânia me deixava triste. Muito triste.

Hoje, quando encontro com essa velha amiga, pergunto:

— Você acreditava mesmo que houvesse mar em Goiânia?

— Claro, você dizia, descrevia, era um grande amigo.

— Mas você não estudava geografia, não sabia que em Goiânia não tem mar?

— As professoras me diziam que não, mas eu lhes mostrava suas cartas e dizia: “Está aqui, tudo descrito, o Jádson que fez. Ele é meu amigo e não iria mentir para mim.”

Desde essa época, aprendi um conselho fundamental: mentir, só na literatura. Uma sobrinha, quando me surpreende “dando alguma desculpa” para algo que não quero fazer, logo me repreende: “Tio, o senhor está mentindo. Isso dá inferno, viu?” Tento dizer que não é mentira, mas uma forma de não magoar a pessoa do outro lado, que isso é um pouco como fazer literatura.

— Quer dizer que todos os escritores são assim mentirosos, tio?

— Nem todos, minha filha. Uns mentem, outros inventam.

E me sento e venho escrever isto aqui, que não é mentira.



Jádson Barros Neves é autor do livro de contos “Consternação”, publicado pela Editora Casarão do Verbo. Lançado em novembro de 2013, na Feira do Livro Porto Alegre, o livro conseguiria, em 2014, a quarta colocação na Bienal do Livro de Brasília e, ainda em 2014, “Consternação” sairia entre os 10 finalistas do prêmio Jabuti, na categoria contos/crônicas. Dentre os vários prêmios já conquistados pelo autor, cabe ressaltar o 2º lugar do Concurso Internacional de Contos Guimarães Rosa, promovido pela Radio France Internationale, de Paris, em 2000 (Prêmio Maison de l’Amérique Latine); vencedor do prêmio Cidade de Fortaleza/2003; vencedor do prêmio Felippe D’Oliveira, em 2001; em 2008, foi vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, na categoria livro de contos e, em 2011, do Concurso de Contos Ignacio de Loyola Brandão, já em 2012, foi um dos 30 autores nacionais a receber uma Bolsa de Criação Literária FUNARTE/Fundação Biblioteca Nacional, com um livro ainda inédito. Atualmente, o autor reescreve seu outro livro de contos e trabalha num romance.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O Cachorro e os Cães, conto de Jádson Barros Neves





De tarde, sentados no tronco de uma castanheira caída, três homens conversavam na clareira brilhante e silenciosa. Deitado na rede, no canto mais sombrio da palhoça, Severino contemplava-os em silêncio.

Depois, a velhinha enquadrou-se na porta, um vulto ligeiro e escuro como um rato, que logo sumiu para outra parte da cabana. Ela revolveu o borralho e retirou a banana com casca de cima das brasas. Em seguida, soprou as cinzas, pôs gravetos e lenha e despejou álcool. A madeira crepitou, o fogo explodiu, e Severino pensou que fosse incendiar as palhas.

O leite de pinhão-bravo fechara-lhe a ferida, e, mesmo inchada, a perna esquerda já lhe permitia algum movimento. “Sorte sua não ter acertado um osso ou o joelho...” ralhava a mulher, enquanto trocava a atadura. Uma rajada de metralhadora, girada em meia-lua – o cortar sibilante das balas que desapareceriam na mata –, deixando um homem morto e cinco em fuga.

Quando a velha saiu, Severino voltou a olhar para fora, mas não viu mais os três homens. Atrás do acampamento deserto, a floresta escurecia. Severino fechou os olhos e tentou adormecer. Depois de algum tempo, a velhinha reapareceu. Ela fazia tudo com desvelo, causando nele a impressão de sempre deixar desaparecidos seus passos órfãos e miúdos. Entregou a Severino o mastruço na garrafa e as ataduras.

Quando a sombra oblíqua das árvores já avançava pela clareira, apareceu um homem trazendo comida e água, que deixou perto da rede. Era alto, barbudo, de pele trigueira. Severino vira-o algumas vezes, comprando nos armazéns de secos e molhados.

– Os últimos partiram hoje. Vamos voltar para a cidade e ficar quietos por uns tempos. Amanhã cedo, alguns companheiros vêm buscar você, e você vai para outro acampamento. Levo sua cartucheira e estou deixando minha carabina e uma caixa de munição.

– Tudo bem – disse Severino, acomodando-se na rede.

– Camuflamos trabucos em toda a área de acesso à clareira. Protegemos as espoletas com cera de abelha, para não molharem ao sereno. Quem tocar as linhas de cobre vai levar tiro. Se algum crefo disparar, saia daqui e desça até o rio. Lá, você encontra uma canoa com motor, se precisar fugir.

– E Nuta?

– Contam que está preso, mas não sabemos se é verdade... Agora estão procurando por nós. Acham que você lhes preparou uma cilada. Somente ontem à tarde enviaram um pelotão para buscar o cadáver do policial. Hoje, mandamos as mulheres e as crianças para a cidade.– Estendeu a mão para Severino. – Até amanhã, companheiro. Procure se cuidar.

Quando o homem saiu, Severino ficou ouvindo o ruído cuidadoso das botinas que se afastavam, como o pisado macio de um animal nas folhas. Longe, alguém assobiou, e um longo assobio respondeu das imediações da palhoça. Em seguida, mais dois ou três assobios repetiram-se, como numa ressonância de espelhos, e então silenciaram.

A noite subiu pelo retângulo da porta, até escurecê-la, suavizando as árvores e as barracas ainda cobertas de lona plástica. Nos dias anteriores, Severino observara uma mulher muito jovem amamentar uma criança. A cabana dele era coberta com palmas de açaí, e estava enfiada na floresta, sob árvores enormes, perto da clareira.

Aproveitou a última claridade para atar a rede num local seguro. O homem tinha-lhe deixado uma lanterna, fumo, palha de cigarro e óleo de cozinha contra os mosquitos. Severino esticou-se na rede, ouvindo os últimos piados dos jaós. Depois, encostou a espingarda e a lanterna ao lado da perna doente, e ficou ouvindo o ruído da própria respiração, tentando adormecer.

A culpa de tudo era de Nuta, de sua mania de falar às gargalhadas, abrindo o bigode feito asas e encolhendo as perninhas sobre a cadeira. Contava qualquer fato como se fosse para todo mundo ouvir. Na tarde de terça-feira, ele andara bebendo na zona e tinha revelado que sabia onde os posseiros estavam. Sabia, disse, porque Severino tinha dito.

Na quarta-feira, depois do jantar, Nuta apareceu na casa de Severino, acompanhado por um sargento e por dois policiais à paisana. Foi logo anunciando quem levaria os policiais ao acampamento: não ele, Nuta, com a mulher acamada pela malária. Severino explicou que os acampamentos sempre mudavam de lugar. Era difícil achá-los. Existia muito boato, isso sim. Mas o sargento foi falando com calma, dizendo que Severino era o melhor batedor dali, conhecia cada palmo da selva próxima, era o único que poderia ajudá-los. E ainda lhe contou sobre uma recompensa oferecida pelos fazendeiros.

“Então até amanhã”, disse-lhe o homem. “Mas sua resposta é sim”, acrescentou em tom peremptório. “Tem de ser sim...”

Na manhã seguinte, apareceram dois policiais. Com eles, um velho conhecido de Severino, um rapaz de traços indiáticos, que da noite para o dia surgiu fardado na cidade, pondo ordem nos bordéis. Houve uma época em que ele e Severino caçavam juntos: faziam varridas para os bichos andarem na floresta ou armavam cartucheiras nos carreiros por onde passavam caças. Depois, o rapaz tornou-se policial, e então os dois se afastaram. Severino possuía um bar, onde também comprava ouro. Nessa manhã, ele o rapaz se falaram novamente.

“Um dinheirinho a mais não faz mal. Você não acha?” o rapaz comentou.

“Talvez ajude na época das chuvas, quando fecham os garimpos”. E Severino sorriu amargo, olhando a serra azulada pela distância.

“Então amanhã cedo, senhor Severino?”

“Sim, podem passar amanhã”.

Nuta apareceu de tarde com outra conversa. Dessa vez conservou o bigode sossegado e as pernas gambitas quietas, e contou sobre a bifurcação do caminho.

Severino derretia ouro em pó, inclinado sobre o prato de aço, e balançou o maçarico aceso perto do rosto de Nuta:

– Você, você, sempre me deixando em apuros... Não se pode falar nada, que logo espalha para o mundo inteiro.

Esperou que o ouro esfriasse até solidificar. Em seguida, guardou a pepita junto com outras, num bauzinho de madeira.

– Eu vim contar sobre a bifurcação dos caminhos – defendeu-se Nuta.– Na selva, o caminho se abre em dois. Pegue a trilha da direita e se atrase, deixe os polícias seguirem na frente. Quando passarem pela primeira castanheira, à direita, conte até cem passos, aí corra e se enfie no mato.

– Por que tudo isso agora, Nuta?

– Porque se você usar a trilha da esquerda vai levar até as crianças e as mulheres. São dois acampamentos. Num, estão os homens; no outro, as mulheres com as crianças. Imagine cinco ou seis policiais com metralhadoras e fuzis invadindo um acampamento onde só há crianças e mulheres...

– E o que vai acontecer depois?

– Nem me pergunte. Apenas corra e não olhe para trás. Agora está entendendo por que contei que somente você poderia levar eles até o acampamento? Eu não daria conta de correr...

Quando Nuta saiu, Severino varreu o bar e escondeu o bauzinho dentro de uma caixa de sapatos debaixo da cama. Parecia um animal, andando nas sombras do anoitecer. Era um homem baixo, de pele curtida pelo sol, cabelo cor de madrugada, e tinha uns olhos de gato que pareciam enxergar no escuro.

Dormiu um sono breve e agitado.

De manhã, bem cedo, já o esperavam. Eram seis homens. Traziam fuzis, e um deles carregava uma metralhadora. Severino subiu na carroceria da camioneta, onde já estavam quatro policiais. Os outros dois iam dentro da cabine, com o motorista.

Até perto do meio-dia, o veículo rodou velozmente pela estrada de piçarra. Para trás, ficavam as volutas de poeira vermelha. Os homens da carroceria viajavam cabisbaixos, procurando proteger-se do vento e do pó.

À medida que se aproximavam da fazenda, as árvores ficavam maiores. A certa altura, o veículo saiu da estrada principal e ganhou uma estradinha semelhante a dois caminhos paralelos. Não demoraram a chegar à fazenda. O capataz veio recebê-los, e Severino ouviu-o comentar com um dos policiais algo sobre o desaparecimento de reses. Almoçaram e, em seguida, continuaram a pé.

“Agora a coisa é com a gente, senhor Severino. A gente e o seu faro de vira-lata”.

Seguiram ao largo do pasto, que de tão extenso não mostrava a outra margem. Havia bois brancos pastando. Às vezes, erguiam a cabeça de dentro do capim e ruminavam os passantes nos olhos úmidos. Severino caminhava na frente, mantendo a cartucheira com o cano voltado para baixo. Os policiais contavam lorotas, divertiam-se com prisões de bêbados e putas. “Temos de deixar o xadrez com algumas cabeças, senão ficamos sem o que fazer.”

Após uma hora de caminhada, estavam diante da selva. Descansaram um pouco. Os policiais se detiveram, antes de retomar a marcha, olhando as árvores seculares, gigantescas, sufocadas por cipós. Ouviram gritos de animais desconhecidos.

“São apenas macacos guaribas”, disse Severino.

A picada fora aberta recentemente. Agora não se via mais o sol, e a luz descia filtrada pelas folhas. Mais tarde, chegaram ao local indicado por Nuta. Severino fingiu indecisão, mas entrou no caminho da direita. Iniciou, então, seu andar caranguejo: caminhava de lado, com o rosto voltado para cima, como se procurasse algo nas árvores, fazendo dois passos avançados terminarem num recuo. Mantinha, assim, o olhar vigilante e, ao passar pela castanheira, havia feito com que os policiais se dividissem em duas filas de três homens. Ele andava entre os dois últimos.

Colocando-se como o último da fila, pulou para dentro da mata. Correu, sem se voltar, descendo o morro, levando no peito ramagens e flores silvestres, junto com o ar das quatro da tarde de sexta-feira. Sentiu o impacto na perna esquerda, ao mesmo tempo em que ouvia as rajadas da metralhadora, e só depois notou o sangue e começou a sentir dor. Caiu, mas continuou rolando morro abaixo, até ser detido por um tronco meio podre. Pulou para trás dele e ficou deitado, olhando.

Viu os policiais se abaixando, atirando em todas as direções. Manteve o olhar cravado neles e conseguiu perceber quando, após rodar a esmo outra rajada, o rapaz da metralhadora foi erguido do solo por um instante alucinatório, suspenso pela explosão de uma espingarda, que o jogou com força e morte ao chão.

Os tiros vinham de trás das árvores – de mãos invisíveis, para os policiais espantados, que só não morreram porque recuaram. Depois de um demorado silêncio, Severino levantou-se, sacudindo o barro do corpo. Demorou a ver os vultos silenciosos que saíam da tocaia. Aos poucos, um homem surgia de uma moita, outro deixava o tronco de uma árvore ou a proteção de uma pedra.

– Você deve vir com a gente até o acampamento.

– Não sei se consigo andar direito. Acertaram minha perna.

Improvisaram uma maca, com taquaras e cipós. Dois homens o carregaram por quase meia hora, através de caminhos secretos na mata cerrada. Depois, saíram da floresta e entraram no acampamento sob as longas sombras das árvores e pontilhado de barracas. Foi quando deixaram Severino na palhoça, aos cuidados da velhinha.

Colocou a lanterna entre as pernas, o facho de luz dirigido somente para a rede, embora fosse um cuidado desnecessário, pois ali ninguém perceberia claridade alguma. Iluminou a carabina e achou bonita a coronha cor de acaju. Em seguida, abriu uma folhinha de papel, espalhou nela o fumo e enrolou o cigarro. Apagou a lanterna e ficou fumando no escuro. Um mucura entrou na palhoça e comeu o resto de comida. Severino acompanhou com os ouvidos os movimentos invisíveis do animal. Depois, fechou os olhos.

À noite, qualquer ruído torna-se imenso na selva. Ali, a floresta era de vegetação rasteira sob árvores copadas, muito altas, por onde a luz do dia mal entrava. O solo estava coberto de folhas, e escutava-se nelas o barulho dos bichos vagando. Às vezes, os ratos-saruês lançavam seu grito estridente, que repercutia como agulha que penetrasse a carne. Boa parte do tempo transcorreu assim: Severino tirava um cochilo, mas logo era despertado pelo ruído de algum animal nas proximidades.

De madrugada, porém, sentia-se descansado. Trocou a atadura, bebeu um gole do mastruço e fez outro cigarro. Se entrava um bicho buscando alimento, ele o iluminava, apenas para ver os olhos brilhantes sob a luz. Um gato maracajá esteve miando perto da cabana, em alguma árvore, e depois Severino ouviu também o rugido de uma onça. Então o silêncio saiu de seu canto e cobriu como uma névoa toda a redondeza. A onça rugiu ainda várias vezes, ela estava distante, e Severino não sentia medo.

Desejou estar na cidade, deitado com alguma puta ou simplesmente fumando tranquilo, como fazia agora, olhando a cada tragada a ponta vermelha do cigarro de palha. Também sentia saudade de bebida. Sabia que tudo que deixara estaria destruído ou fora roubado. A essa altura, nada mais restaria do bar. Tinha uma boa soma em ouro, guardada fazia vários anos, para montar um negócio melhor. Apenas a Nuta, seu compadre, mostrara as pepitas. Teria de recomeçar em algum acampamento, ou buscar um garimpo clandestino numa fazenda qualquer.

Conhecia o preâmbulo do amanhecer na mata. E aconteceu que o último saruê se calou em alguma toca, e Severino ouviu depois o canto dos mutuns. Duas ou três aves escondiam-se em alguma árvore fechada. Era assim que se protegiam. Às vezes, durante as caçadas, ouvia-as ao anoitecer ou somente na aurora. Pelo gemido dessas aves e o canto dos primeiros pássaros, sabia que já estava amanhecendo.

Fumou outro cigarro, movendo-se cuidadosamente na rede. Depois, ficou vigiando a entrada da cabana. Não o veriam, deitado na rede armada no outro canto, quase ao lado da parede, pois dentro da barraca ainda estava bastante escuro. Atiraria em qualquer sombra que aparecesse ao redor. Longe, na clareira agora acinzentada, havia um veado mateiro, imóvel. Daquela distância, conseguiria acertá-lo tranquilamente, pensava.

Os policiais deviam ter dormido por perto. Mas depois do que acontecera, só iriam procurá-lo à luz do dia. Não tinham instinto, a não ser se fossem orientados por um bom guia, como ele ou o compadre. Nuta nascera numa cidade ribeirinha, cercada pela selva. Conhecia o lugar como poucos. Antes de vir para o garimpo, vivera como seringueiro. Todo mundo conhecia-lhe a fama de bom guia, mas também a de bebedor, de forma que poucos se arriscavam a contratá-lo.

Severino pensava nisso, quando ouviu o disparo seco de um trabuco. Sentou-se na rede, a carabina na mão esquerda, os olhos mastigando a porta. Calçou as botinas e preparou-se para descer. Escutou mais um estampido e, logo em seguida, outro. Ouviu os pisados inconfundíveis das botas militares quebrando galhos, torcendo as folhas, afundando-se na terra macia. Saltou da rede, apoiando o peso do corpo na perna direita. Permaneceu agachado, atento aos mínimos ruídos, e buscando descobrir de onde vinham os homens.

Enfiou-se entre as palhas, sem barulho, e foi-se arrastando para trás. Parou apenas quando se achava numa distância segura. Então descobriu cinco homens cercando a palhoça. Afastou-se um pouco mais, e os viu atearem fogo às palhas. De onde se abrigava, atrás de um tronco, podia vê-los bem.

Observava os cinco homens de uniforme verde-oliva que olhavam o fogo consumir a cabana, quando apareceu entre eles uma figura pequena, vestida apenas de camisa e calção, que, pelo modo de se mover, agitar os braços e olhar para o solo, não deixava dúvidas. “Maldito cavalinho-do-diabo!” teve vontade de gritar. Apoiou o cotovelo no tronco, segurando a parte inferior da carabina com a mão esquerda espalmada para cima, a coronha apoiada no ombro, e o olho fazendo mira, medindo a distância, com o indicador direito no gatilho. Se ameaçassem descer a ladeira, ele acertaria primeiro em Nuta, seu compadre. Daquela distância e com arma tão boa, não erraria: disso tinha certeza.



(imagem retirada da internet: Tomas Kaspar)

Jádson Barros Neves, entre outros concursos de que participou, foi o vencedor do 2º lugar do Concurso Internacional de Contos Guimarães Rosa, promovido pela Radio France Internationale/Paris em 2000 (Prêmio Maison de l’Amérique Latine); vencedor do prêmio Cidade de Fortaleza/2003; vencedor do prêmio Felippe D’Oliveira, em 2001, vencedor do prêmio Cidade de Fortaleza/2003, vencedor do prêmio Domingos Olímpio/2004; em 2008, vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, na categoria livro de contos e, em 2011, vencedor do Concurso de Contos Ignacio de Loyola Brandão, tendo outros dois contos classificados como menção honrosa.



sexta-feira, 1 de abril de 2016

Sapatos Brancos, conto de Jádson Barros Neves






"Não cruzarás o mesmo rio duas vezes, porque outras são as águas que correm nele."
(Heráclito de Éfeso)



Depois do temporal – antes havia os cotovelos no parapeito da janela aberta para a chuva na roseira vermelha –, após o silêncio na cozinha e somente com a cantoria da mãe no quarto, o menino desceu com os barquinhos de papel. A enxurrada sangrava do morro, no começo da rua, tornava-se rio no cordão da calçada, enquanto o menino, correndo aos pulos, acompanhava os barquinhos que desciam e se desmanchavam. Da chuva, ou talvez da tarde, as tanajuras e os bem-te-vis haviam nascido. O menino passou a correr atrás das tanajuras e, quando se cansou, esteve contemplando os bem-te-vis até as luzes se acenderem nas casas. Pensou no bodoque de pau-d’arco. Pensou nos índios de seus gibis: Touro Sentado, Cabelos Velozes, Vai Com o Vento, Condor Condor.

O grito da mãe chamando ecoou no silêncio da rua.

— Pedriiinho!

Correu para a casa e, antes que a mãe o visse, ele já estava no quintal, banhando-se com a água do balde. Ali também havia tanajuras. Era a época delas e das chuvas. Haviam terminado as aulas. Começavam a aparecer as primeiras mangas no quintal, os primeiros periquitos. Então já podia usar o estilingue, e logo veriam muitos pássaros verdinhos, de asa quebrada e bicadas tortas, e doídas.

Tiritando de frio, Pedrinho ergueu os braços para que a mãe o enxugasse. Fechou os olhos, enquanto ela lhe secava a cabeça e penteava os cabelos.

— Hoje você vai dormir no quartinho — ela disse.

Logo anoiteceu. A mulher saiu para o quintal, entrou no quartinho, armou a rede, pôs lençóis; em seguida, voltou à casa, pegou os tomates e um pouco de sal e deu para o menino, tudo dentro de uma bacia.

— Agora vá — disse, abaixando-se para beijá-lo.

O menino parou entre a casa e o cômodo escuro. A mulher o empurrou suavemente pelas costas, até ele entrar. Depois, trancou a porta por fora. Pelo buraco da fechadura, o menino viu a luz na casa.

A mãe iria demorar a dormir. E o menino outra vez escutaria até altas horas da noite conversas na casinha; as risadas da mãe e o vozeirão do homem. Quando acordasse, no dia seguinte, Pedrinho encontraria a mãe cantando, enquanto arrumava a casa.

O menino tentava resistir aos tomates, mas, de noite, cortava um e ia triscando no sal e terminava comendo todos. De madrugada, acordava sedento. Em certo instante, depois que tudo silenciava, ele não conseguia mais dormir e então seria de manhã.

E foi assim que aconteceu. Mal a mãe o fechou no quarto, Pedrinho deitou-se na rede, mas logo se levantou atraído pelo desejo dos tomates. Comeu um, e, logo depois, outro.

Sentia vontade de ver o homem. Muitas vezes, ouvia-o caminhando no quintal. Mas passavam-se dias, semanas, sem que ele aparecesse. Então, a mãe ficava triste, e sua cantoria de sabiá nostálgica perdia-se nas tardes da casa, enquanto Pedrinho corria com o cavalinho-de-pau, atrás de bisontes imaginários, inventando nomes para guerreiros invisíveis, seus preferidos os sioux e os apaches.

Um dia qualquer, contudo, o carteiro aparecia com um telegrama e então a mãe voltava a ser alegre. Até brincava com o menino na casa de quintal imenso que se abria para os quintais vizinhos, um mundo inteiro por onde correr e brincar, numa rua de casas emparelhadas. Havia densas mangueiras e um laranjal e, nos meses de chuva, o terreiro ficava escorregadio e adquiria uma coloração verde por causa do lodo. Ali, todas as ruas acabavam no rio. De noite, da calçada da rua, podiam-se ver as luzes das embarcações que passavam.

As vozes felizes dos dois felizes. Então, os discos de vinil seriam buscados no baú e, ao som de antigos boleros, o homem e a mulher dançariam na sala. Mas o menino não sabia disso. Deitado na rede, ele tentava controlar a sede, tentava dormir.

A mãe retirara a lâmpada do quarto, para que o menino não a acendesse. O homem não demorava mais do que uma noite. No dia seguinte, Pedrinho voltava ao quintal, às brincadeiras de índios, aos gibis de faroeste, ao mundo enorme de adultos que transitavam pela casa, comprando os bordados que sua mãe tecia no bastidor. O quarto dos fundos então ficava trancado, durante muitos dias, às vezes meses. Pedrinho se esquecia dele. Esquecido de tudo, ele era feliz na sua infância. Era assim. Foi assim durante muito tempo.

A última visita do homem aconteceu numa segunda quinzena de dezembro e, como todas as outras, antecedida pela vinda do carteiro. Era uma tarde nublada em que o céu, de tão baixo, parecia encostar-se às casas. O carteiro ficou algum tempo parado, bebendo um copo d’água, e Pedrinho o acompanhou com o olhar, sem deixar as figurinhas no chão. A mãe sentou-se na cadeira de fibras vermelhas e abriu o telegrama tarde demais para ela ter tempo de arrumar a casa e espalhar sua felicidade com a vassoura no piso de cimento. Depois, guardar os brinquedos. A casa então ficaria em silêncio.

— Hoje você vai dormir no quartinho — disse-lhe a mãe.

Jantaram calados e, logo depois do jantar, carregando a bacia com os tomates, a faquinha e a xícara com sal, o menino saiu. A mulher armou a rede e trancou-o no quarto. Antes, da porta, a recomendação: — Não faça barulho. De manhãzinha, eu venho.

Um beijo na testa, e o menino a seguiu com o olhar pela fechadura da porta.

Pelo buraco, o menino via a porta da cozinha iluminada, o caminho de pedras que ladeava a pequena horta do quintal. A noite veio junto com uma grande tempestade. Muitos relâmpagos e trovões e depois a chuva fustigando o telhado e o vento zumbindo. Pedrinho dormiu e acordou tarde da noite, no escuro, bem depois que a chuva passou. Escutou vozes no quintal e então correu para a fechadura. Viu a porta da cozinha aberta e o retângulo da luz invadindo o canteiro de alfaces. A mulher deu uma gargalhada. Um pouco depois, o menino distinguiu um par de pernas abertas, que terminava em dois sapatos brancos. Ele viu o jato de urina; ouviu a voz rouca do homem falando para a alegria dentro da cozinha e viu novamente as pernas e os sapatos se movendo. Então a porta foi fechada. Durante algum tempo, ele ainda ouviu vozes na casa e depois tudo silenciou.

A manhã custou a chegar, e com ela veio o silêncio dos galos, o reinado dos pássaros, e o menino ouviu o homem se despedindo e, logo depois, os passos da mãe no caminho empedrado. Ela emoldurou-se na porta. Tinha o cabelo penteado e exibia um vasto sorriso. Agachou-se e beijou Pedrinho, pronunciando palavras de mel, mas o menino só queria água. Sua raiva afogou-se na caneca, e ele logo voltou a ser criança novamente.

Passaram-se muitos dias. Numa tarde quente, ele brincava no alpendre quando viu, empurrando a cancela, um homem alto, moreno, de cabelos pretos, bigodes e um sorriso de Mandrake. A mãe não estava em casa. O homem fez algumas perguntas sobre ela, entrou e voltou ao alpendre segurando um copo d’água.

Quando, da esquina, a mulher viu o homem, atrasou seus passos. O homem elaborou um sorriso contrafeito e chamou a mulher para dentro da casa.

Nessa noite, o menino não ficou trancado. Jantou e adormeceu ouvindo de sua rede até tarde a conversa dos dois na sala. De manhã cedo, o homem partiu, mas antes brincou com o menino, beijou a mulher e sumiu na rua. Dias depois, chegou um novo telegrama. Nessa tarde, a mulher esteve arrumando, dobrando roupas e lençóis. Para o menino que a observava ela declarou:

— Nós vamos embora daqui.

Nos dias seguintes, ela esteve empacotando objetos e pediu que o menino guardasse seus brinquedos numa caixa de sapatos. Jantaram mais cedo que de costume. A chuva também chegou cedo. Cansada de ouvir a água no telhado, a mulher chamou o menino para dormir com ela. Em certo momento da noite, ela virou-se para o menino e, passando-lhe a mão nos cabelos, disse-lhe:

— Nós vamos embora daqui porque aquele homem que sempre vem nos visitar é seu pai.

Agora, muito tempo depois, após voltar do trabalho, Pedrinho sai à porta da casa e permanece observando o horizonte esmeralda, que se abre do outro lado do cais. Fica contemplando o rio, enquanto ouve a alegria das crianças que brincam na rua. Mais tarde, lentamente, chegam as primeiras sombras, estendendo-se até os cantos mais afastados, e a cidade termina por banhar-se de azul e de um violeta intenso. As luzes acendem-se, e as pessoas que permanecem na rua começam a entrar em suas casas. Tudo então se torna mais tranquilo. Nas ruas, as crianças continuam brincando indiferentes. A sua mulher sorri mais uma vez, ao vê-lo assim, e avisa que já vai tarde o jantar, mas Pedrinho permanece ali, enquanto suavemente a noite vem. Continua muito tempo no mesmo lugar, angustiado por uma vaga melancolia, adivinhando ao longe as luzes dos barcos. Mais tarde, responde à mulher que o espere um momento mais, porém continua sem se mover na escuridão, sentindo assim como se sua alma pudesse de repente se desgarrar dele e esconder-se em algum lugar.





Jádson Barros Neves, entre outros concursos de que participou, foi o vencedor do 2º lugar do Concurso Internacional de Contos Guimarães Rosa, promovido pela Radio France Internationale, Paris, em 2000 (Prêmio Maison de l’Amérique Latine); vencedor do prêmio Cidade de Fortaleza/2003; vencedor do prêmio Felippe D’Oliveira, em 2001; vencedor do Prêmio Cidade de Boa Esperança/2001, vencedor do prêmio Domingos Olímpio/2004 e do Concurso de Contos da Região Norte/2004; em 2008, vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, na categoria livro de contos e, em 2011, vencedor do Concurso de Contos Ignacio de Loyola Brandão, tendo outros dois contos classificados como menção honrosa. Espera publicar seu livro de contos ainda nos primeiros meses do segundo semestre de 2012.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Exilados, conto de Jádson Barros Neves

*Menção honrosa no concurso Guimarães Rosa da RFI em 1994


O navio era branco e deslizava na linha do horizonte, em mar ensolarado, sereníssimo, e desvaneceu-se com a lufada de ar que atingiu o rosto de Mábio. Então, Mábio descobriu-se na mesma cama onde dormira na noite anterior, com a mesma dor de cabeça e a mesma náusea de suas manhãs. Depois, embora plenamente acordado, não se sentia com ânimo para deixar o leito junto à janela aberta: o pequeno retângulo onde naufragava um pedaço de céu cinza e baixo, a plenitude da oitava manhã de chuva, a de domingo.
Do dia anterior, recordava muito pouco. A manhã, com uma espécie de sereno esfarinhado castigando o mundo, galopara velozmente. Depois do meio-dia, ainda sem comer nada, ele havia entrado no salão de sinuca e tomado a primeira dose de uísque. Lembrava-se de ter bebido mais cinco doses, antes de pegar o taco e aproximar-se dos homens que jogavam vida e dizer-lhes: “Também embarco nesta”. Vencera algumas partidas; depois começara a perder seguidamente, suando muito, ofuscado pela luz crua da lâmpada que iluminava o relvado da mesa de sinuca.
Numa hora incerta do final da tarde, aconteceu a algaravia dos homens e mulheres que assistiam às partidas, o mergulho inexorável da última bola na caçapa de alumínio, o olhar triste e vasto de Débora e a rajada de vestido azul, quando deixou o salão às pressas. Entre o instante de risos, quando tinha visto Horácio contar o dinheiro, e o instante em que aparecera no quarto, no útero da noite avançada (apoiando-se à porta, louco por cama e contra todo resmungo de Débora, que piscava por causa da luz acesa), havia uma enorme zona de silêncio.
Débora estava sentada diante do nublado espelho do guarda-roupa. Nua, de costas para Mábio e penteava o cabelo em silêncio. Quando viu o par de olhos chamejantes fixando-a do fundo do espelho, algo a trouxe da lembrança dos prados verdes e das tardes de mar para a manhã nublada. Então, voltou para a cama. Depois, invertida no espelho, Mábio via-lhe parte do cabelo negro esparramando-se sobre o ombro e o delicado leito da medula fundindo-se sutilmente às pequenas nádegas.
A barriga crescia vagarosamente. Provavelmente Mábio nem perceberia a mudança, de tão distraído. Barriga mínima: talvez herança da mãe. Ou talvez o fruto de Mábio fosse de parco caroço. Talvez isso. Apenas isso.
– É no que dá, passar a noite na chuva, como um cachorro sem dono, ela disse, limpando com a ponta dos dedos a maré dos olhos.
Jogada a um canto do quarto, havia uma valise de couro, que, surrada de tantas viagens inesperadas e arremessos súbitos em quartos de hotéis baratos, acabara por perder o brilho e exalava um cheiro de coisas antigas, quando aberta. Débora permaneceu agachada sobre ela o tempo indispensável para retirar o mercúrio, o esparadrapo e a gaze. Limpou a ferida da perna de Mábio e fez o curativo. Depois, foi ao banheiro. Arrumou sobre a pia o pedaço de sabonete, a lâmina de barbear e o espelho. "Pronto”, ela disse.
Auxiliado por ela, Mábio vestiu-se. Foi para o banheiro com uma toalha jogada sobre o ombro. "Vista-se também; é tarde para andar assim pelo quarto”. Encolhendo-se sobre o estômago, livrou-se do vômito que lhe causava ânsias desde cedo. Em seguida, por duas vezes tentou afinar o bigode, mas estragou uma das pontas e preferiu livrar-se dele. Vendo o olhar sério que o encarava do fundo do espelho, pensou na crosta de estragos invisíveis que o tempo vai deixando silenciosamente sobre os objetos e as pessoas. Lembrou-se da mãe, a essa hora da manhã costurando na sala, perto da janela que se abria para o quintal, onde nessa época do ano acontecia o incêndio das roseiras vermelhas. Falou sobre isso para Débora.
Ela não o ouviu, absorta na contemplação da paisagem. A maioria das casas próximas ao rio eram construídas sobre palafitas, portas e janelas cerradas. Na vasta desolação cinzenta, cinco araras vermelhas passaram gritando, quase roçando com as asas o céu que parecia feito de espuma. Depois ficou apenas o silêncio sobre o mundo. Mábio voltou do banheiro alisando o cabelo com os dedos.
– Pode demorar um pouco, Mábio, mas a enchente atingirá o hotel.
– Vamos, ele disse.
Caminharam ao longo do corredor escuro e úmido. Ele ia à frente, meio fatigado, claudicando a perna direita; ela tinha os olhos fixos na tênue poça de luz do final do corredor.
A coisa de que eu mais gostava lá em casa, nesta hora do dia, era ficar à mesa da cozinha, olhando a luz que se coava por uma telha de vidro e caía direto sobre a mesa. E eu me lembro bem das tardes em que chegava mais cedo da escola, andando pelos campos próximos, até nossa casa. Tirava os sapatos, corria por um estreito caminho entre palmeiras e ia me sentar na areia, ficando lá às vezes até o escurecer, quando então o céu inchava de estrelas e as últimas jangadas dos pescadores cortavam o horizonte. Poderei um dia mostrar isso à criança? Algum dia poderei?
– Passa da época de sairmos daqui, Mábio...
– Tão logo a chuva acabe, iremos embora.
– Tenho medo de você sumir novamente nos garimpos e eu ter que continuar cozinhado aqui também.
– Não desta vez.
– Antes você também prometeu. Já se passaram mais de dois anos. O que temos hoje, além do que possuíamos quando saímos de casa?
– Agora será diferente...
Chegaram à sala dos pássaros, que estava vazia. As gaiolas ficavam penduradas nas paredes, cobertas por panos escuros. Uma única lâmpada amarela brilhava no teto. Débora saiu por uma porta lateral e sumiu na cozinha.
Para enfrentar o dono do hotel, que fazia contas num caderno imaginário, Mábio tossiu e bateu com os nós dos dedos na mesa de recepção.
– Queria saber o que aconteceu com os pássaros, disse.
– A chuva faz com que murchem, o outro respondeu sorrindo e sem levantar os olhos.
Talvez por um simples costume do corpo, os homens e as mulheres já haviam se reunido no salão. A claridade das lâmpadas suspensas liquefazia-se no ambiente. Mesas de madeira dispunham-se em forma de semicírculo, de dois lados do salão onde se bebia e comia. A mesa de sinuca ficava no centro. Mábio ficou encostado à porta, reconhecendo os mesmos rostos do dia anterior. Horácio, branco e alto e com o cabelo vermelho assanhado, estava ao lado da porta da rua, atrás de algumas garrafas de cerveja. Perto dele, o capanga. Calados, os homens olharam Mábio, até que uma mulher pegou a bola branca e ficou jogando-a contra as tabelas. Em coro, os homens desviaram o olhar de Mábio para a mulher, e, em seguida, para a porta de entrada: na rua, a chuva recomeçava.
– Parece que vai chover o ano inteiro, suspirou a mulher que brincava com a bola.
– É o inverno, apenas começando, disse um dos homens.
– E nós, senhor Mábio, quando começamos?, perguntou o Horácio.
– Quando o inverno passar, eu creio, respondeu Mábio.
Uma gargalhada eclodiu pelo salão, quebrando o encanto da chuva. Mábio pediu uma dose de vermute. Às costas dele, a gaveta foi aberta. Podia imaginar a mão emborcada puxando violentamente a gaveta, abrindo-a, o choque ríspido das bolas sendo puxadas duas a duas, ou três a três, conforme a mão, e devia ser três a três e a mão devia ser de Horácio. E outra vez o choque das bolas sobre a mesa.
Os que contemplavam o vazio da rua descobriram o homem primeiro. Mábio o encontrou na curiosidade dos outros e na de Horácio, ele na porta, a mochila de couro presa às costas, gotejando chuva pela capa, derramando os olhinhos oblíquos e miúdos pelo salão. Houve um momento em que abandonou a atitude de pedra e sacudiu-se como um galo. Passou pelos homens, deixando atrás de si um pequeno desastre de chuva e lama. Disse guturalmente "Senhores”, com um leve cumprimento de cabeça, indo em seguida para a recepção.
Ficaram sabendo que o homem não viera para ficar, que pagara três diárias adiantadas, andara perguntando sobre farmácias, remédios e sobre parceiro para umas partidas de sinuca. Cerca de meia hora depois, reapareceu. Vestia uma camisa xadrez e usava o cabelo negro penteado para trás. Os olhos de índio espalharam-se novamente pelo recinto. Pediu uma dose de aguardente, que bebeu de um gole. Depois, ficou junto de Mábio, observando, até que, parecendo retornar de um país distante, anunciou:
– Dois dias a pé pela mata. Os homens estão morrendo de malária no acampamento. Nenhum avião tem descido. Tive que atravessar uma longa trilha caiapó, até chegar ao porto de um pequeno vilarejo e conseguir a embarcação.
– Você veio de barco?, perguntou Mábio.
– Não propriamente um barco, respondeu o homem, mas algo como uma canoa para quatro pessoas, com motor de popa. Acompanhava-me um sujeito que nunca dizia nada. Subimos o rio durante a noite inteira e um pedaço da manhã, debaixo de um chuvisco irritante, e ameaçados pelos troncos que flutuavam no rio.
– Então há barcos passando?, perguntou Mábio.
– Não, não há, eu consegui convencer o sujeito a me trazer gastando o dinheiro de mais de um mês de trabalho. Ele deve ficar aqui três dias, até conseguir remédios. Depois retornaremos.
Durante umas duas horas, contou sobre as noites e os dias no acampamento da selva; como a malária começara um mês antes e havia dizimado oito homens. Pediu uma garrafa de aguardente que esvaziou até a metade, porém conservava os mesmos olhinhos imperturbáveis, serenos, dois lagos escuros, num rosto de pouco mais de vinte e cinco anos, moreno e liso. Revelou também como tinha acordado em certa manhã remota de sua vida para encontrar morta a mãe, no quarto ao lado. Foi quando decidira sair pelo mundo. Falou quase ininterruptamente, acompanhado pela platéia atenta, silenciosa, até que sua voz se tornou cansada e pedregosa. Então se calou.
Débora aparecera duas vezes trazendo carne frita. Na terceira vez, servia uma mesa próxima à de Horácio, quando este a abraçou pela cintura, suspendendo-a __ um breve, agitado instante. Depois a soltou, dando-lhe uma palmada nas nádegas. Desfazendo-se do avental e cuspindo palavrões, ela correu para o quarto. Os homens acompanharam a cena calados, enquanto Horácio e o capanga riam. Mábio desceu do banco, pegou uma cadeira de ferro e caminhou para a mesa de Horácio, o rosto ultrajado, cego. Talvez fosse realmente bater com ela, mas o pararam a tempo.
– Acalme-se, disse o dono do hotel, colocando-se à frente de Mábio. __ Você não tem nenhuma chance, eles estão armados.
Mábio afastou a mão do homem e pousou a cadeira no piso. Foi para o quarto, fazendo o percurso de volta pela penumbra do corredor. Demorou alguns segundos, em pé, segurando o trinco da porta. Encontrou Débora deitada de bruços na cama. Aos soluços, ela mastigava um rosário de impropérios. Trancou a porta e deitou-se ao lado dela. Esteve falando sobre a dificuldade da vida de ambos e, como das outras vezes, prometeu irem embora logo que passassem as chuvas. Ela o ouviu sem contestar, porque algo na voz dele vinha murmurante como a água. Dizia que seria diferente, que em breve estariam outra vez ouvindo o mar. Ela terminou por se aquietar, dormindo com um braço atravessado sobre ele.
Ele também adormeceu, e acordou no meio da tarde, com a gritaria dos homens no salão, abafada pelo barulho da chuva que recrudescera no telhado de amianto. Levantou-se __ o braço de Débora caiu suavemente na cama. Saiu na ponta dos pés, encostando a porta. Horácio e o estranho jogavam. Havia apostas para os dois lados. As mulheres torciam pelo estranho. No final da partida, aproximando-se do companheiro de Horácio, Mábio disse:
– Aposto todo o meu dinheiro como seu patrão perde as partidas seguintes.
– Como tem tanta certeza?, o homem perguntou.
– Palpite.
– Aceito.
Agora que observava os dois jogando, uma espécie de ansiedade de águas incertas havia ancorado nele. Apostara o único dinheiro que lhe restava. Se perdesse, já imaginava que teria de mandar Débora embora primeiro, seguindo-a depois. Sentia ferver dentro de si um enorme desejo de vingança. "Só poderia mesmo apostar em outro, já que não sou bom o suficiente para derrotá-lo”, pensou.
O capanga de Horácio assistia às partidas fumando calado.
Com grande facilidade, o estranho ganhara a primeira partida. Horácio reclamava do calor que fazia no salão fechado. A pedido do rapaz, as portas foram abertas: a cidade jazia diluída na chuva, uma única torrente vertical, sem princípio nem fim. O rapaz jogava concentrado, em silêncio, como se ele próprio fosse uma extensão do taco, tornando o olho esquerdo mais e mais apertado a cada tacada, medindo cada passo e cada inclinar sobre a mesa com uma cautela cirúrgica. Então venceu a terceira partida e disse que se sentia cansado após tantas partidas.
Afastava-se em direção à sala dos pássaros, quando ouviu a suas costas e para que todos ouvissem:
– Maricas! Só pode ser maricas.
– Como, senhor?, perguntou o rapaz, virando-se e vendo Horácio, enorme, vacilante, os olhos vermelhos, segurando uma faca.
– Maricas, estou dizendo que só pode ser maricas, repetiu.
– Sinto muito, senhor, mas não sou.
Em seguida, Mábio viu quando o rapaz entrou rapidamente na sala dos pássaros e desapareceu no corredor, seguido de Horácio; este, acompanhado do capanga. Mais tarde, quando lembrasse o episódio, tentaria imaginar como havia sido o movimento de volta: o primeiro disparo, o capanga correndo na frente, saindo para a chuva; o segundo disparo, Horácio estrebuchando na madeira do assoalho, e o gemido de morte que se ouviu e que não se poderia dizer se ocorrera antes ou após o grasnido de um pássaro assustado na gaiola.
No silêncio que nasceu, viu quando o homem guardou a pistola e parou diante do corpo inerte de Horácio. Atrás, estava Débora, esmaecida na pouca luz.
– Gostaria que o senhor entregasse minhas coisas ao homem do barco, na terça-feira. Ele saberá o que fazer com elas, disse o rapaz, da porta, para Mábio.
Puxou a gola da camisa sobre a nuca. Saiu para a chuva, e foi a última vez que o viram.
Sobre o balcão, estava o dinheiro da aposta. Ao ver Débora guardando-o entre os seios, Mábio disse:
– Pegue só a metade, que é nossa. Não foi uma aposta muito honesta.
Ela, porém, guardou-o todo.
Era quase o final da tarde. Mábio pediu uma garrafa de uísque. Bebia a quarta dose, quando o pistoleiro de Horácio apareceu acompanhado de três policiais. Um deles parou de frente para Mábio. Encarando-o, perguntou:
– Quem matou o homem?
O dono do hotel, que sumira no momento da confusão, agora lavava copos, agachado atrás do balcão. Foi quem respondeu:
– Um sujeito que veio e sumiu na chuva.
– E por quê?
– Problemas com jogo.
Mábio se lembraria perfeitamente do corpo suspenso, carregado para fora, pelos quatro homens. Bebeu um grande gole da garrafa. No começo da noite, três cobras-do-ar, quase transparentes sob as lâmpadas, debateram-se entre garrafas vazias, estiveram voando e fazendo festa pelo salão. Atravessaram em seguida a porta por onde entrara e saíra tanta gente naquele dia. Exausto e embriagado, Mábio adormeceu debruçado sobre a mesa. Foi acordado no começo da madrugada, pelo canto de um socó. O salão estava completamente imerso nas trevas. Tateando no escuro, conseguiu achar o interruptor. Ficou cego momentaneamente, com as mãos sobre os olhos, por causa da súbita claridade. Abriu as portas e viu a rua adormecida. A chuva cessara e soprava uma brisa fria. Ainda havia nuvens no céu, prateadas pela luz da lua, e também algumas estrelas. De retorno ao quarto e acendendo a lâmpada, pensou acordar a Débora mas, de repente, sentindo-a tão feliz no sono, preferiu desligar a luz. Deitou-se, sorrindo, e puxou o lençol sobre os dois, sem dar muita importância à perna machucada.



imagem retirada da internet: Ernest Descals