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sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Ficções, Jorge Luis Borges



                Em todo livro há uma longa peregrinação, que pode ser física, mental, metafísica, social, mundana ou psicológica. Os romances de formação geralmente levam os personagens (lembro Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe) para uma via-crúcis de lugares e experiências a fim de formar a personalidade adulta do protagonista que fornece nome ao livro. Em O ateneu, de Raul Pompéia, a experiência se dá intramuros e, embora o espaço romancesco esteja sitiado, a amplitude de ações e experiências empurra o personagem para uma transformação, de euforia à desilusão, da vida como infante ao desencanto da juventude madura. 

                Em Borges, essa peregrinação corresponde à busca do conhecimento. Uma das fascinações do escritor argentino, em Ficções, mostra o autor rendido às tramas do policial. Rudemente apresentado, o romance policial – de Simenon e Agatha Christie – busca revelar as motivações e modus operandi de um crime investigado. Diferentemente do romance noir americano, mais violento, o romance de Simenon, entre outros, é de cunho mental e fruto mais da elaboração que lembra a resolução de um quebra-cabeça. Borges utiliza muitas vezes o crime, físico. Há homicídios e mortes, espionagem e traição, espiões, heróis e pusilânimes, mas rigorosamente Borges coloca toda a trama e o personagem para perseguir um enigma e uma combinação de fatores intelectuais e livrescos, em que menos importa um cadáver que uma longa descrição do método erudito de desvendar um mistério por intermédio da hermenêutica de um livro (entre outros, “El jardín de senderos que se bifurcan”).

                O labirinto de Borges também é um labirinto linguístico. Não há jogo de palavras, mas um jogo em que faltam letras em livros a serem decifrados. O leitor está diante de uma construção hiperbólica em que o texto é construído e desconstruído diante dos seus olhos, levando-o a acompanhar o raciocínio do narrador em sua viagem cognoscitiva. “El libro circular es Dios”, escreve Borges em “La loteria en Babilonia”. Nessa busca pelo conhecimento, o leitor acaba envolvido num emaranhado de citações eruditas e de recorrências a textos duvidosos, outros de autoria reconhecida, mas ambos desembocam no mais volumoso torvelinho que nos confunde e nos carrega até um nível de uma compreensão da fragilidade humana ou “as complexidades del mal y del infortunio”, no dizer do narrador de “Tres versiones de Judas”.

                Livros, labirintos, jogo de espelhos, erudição, certo orientalismo (o orientalismo de Borges não é exotismo e/ou não está a serviço de uma mística espiritual como os livros de Herman Hesse, por exemplo; em Borges de Ficções, o que existe é mais um instrumento que o autor se vale para buscar o conhecimento que certamente será bem diferente da premissa inicial), reescritura da Bíblia e de certos livros, judaísmo, mundos paralelos, personagens saxões e nórdicos. Estes últimos nos remetem a certo distanciamento de Borges em relação ao narrado. O presente é a condenação: em “El fin”, o narrador acusa: “... a viver en el presente como los animales”. Da mesma maneira em que data a ação transcorrida em grande parte de seus contos em épocas remotas, distantes do presente, seja o século XIX, seja a Babilonia, seja o início do século em que viveu, Borges busca uma suspensão temporal, quase insinuando uma atemporalidade (ainda que situe em situações concretas como, por exemplo, 1939, para um conto escrito em 1943, a morte por fuzilamento em que o condenado reescreve de memória uma tradução que duraria um ano, cujo título é “El milagro secreto”).

                Outra forma de enxergar a busca do conhecimento em Ficções é observar como Borges maneja a erudição, o mistério, a proposição do enigma livresco e cultural, a criação – também literária – de novos mundos escondidos em enciclopédias, que são em última análise, a coleta de todo o possível conhecimento. No conto “La secta del Fénix”, o narrador apresenta a seita que cultua o Segredo (“el secreto”). Ao final, depois de apontar que os seguidores mais novos desconfiam de que não haja nenhum segredo a ser revelado, Borges afirma que “alguien no ha vacilado en afirmar que ya es instintivo”. Borges então iguala o processo humano, desnudo do uso discriminatório da razão, o conhecimento feito apenas pela via erudita e mental, com a hipótese de que se pode chegar ao Enigma e ao Segredo por intermédio da sensibilidade e do instinto humanos.  (RCF)

domingo, 14 de maio de 2017

A carne de René, Virgilio Piñera

O prazer da dor





O corpo é uma fonte de prazer ou uma caixa de tortura? Não podemos fugir ao nosso destino de carne odiosa? Há duas vidas paralelas, uma que se supõe seja a realidade e outra em que seres estranhos e sádicos vivenciam uma paródia da nossa vida? Talvez o leitor não encontre a resposta em A carne de René, de Virgilio Piñera (Ed. Arx), mas certamente estas e outras questões inquietarão os mais lúcidos.
Publicado em 1952, A carne de René conta a história de um jovem educado no seio de sua família e que, ao completar vinte anos, é escolhido para suceder seu pai, líder de uma grande conspiração. Daí em diante, René ingressa num mundo de perversidade e adoração à carne. O mundo com que passa a interagir é cruel, onde personagens sádicos, numa atmosfera de pesadelo, torturam e são torturados. O clima de delírio e violência é completo. O único contraponto é René, personagem que luta contra a grande desordem universal.
Virgilio Piñera, nascido em Cuba, migrou para a Argentina, antes da revolução cubana. São seus contemporâneos Lezama Lima e Alejo Carpentier (em Cuba); Ernesto Sábato e Jorge Luís Borges (na Argentina). Poeta, dramaturgo, contista, Piñera alcança com A carne de René uma fatura exemplar. Não me recordo nada que se assemelhe a ele na literatura de língua espanhola de sua época.
O romance é uma história linear e exaltada do personagem René em sua iniciação ao corpo sacrificado. Virgilio Piñera não envereda por considerações históricas ou digressões eruditas. Mas não se pode negar que a aventura de René para fugir aos adoradores da carne se insere na categoria da exaltação do Corpo martirizado. E, neste sentido, podemos interpretar de várias formas, entre elas a leitura do martírio como uma política do corpo. A história da humanidade pode ser resumida na história do corpo sacrificado. É só pensar em Cristo, na Inquisição, na Revolução Francesa (a guilhotina seria o ato simbólico de separar cabeça e corpo?) e por fim o corpo da tortura política do século XX.
As referências não são gratuitas. Cristo mesmo é citado não como aquele que morreu na cruz para nos salvar, mas pelo prazer do sacrifício do corpo, a morte pela carne. A “escola” para onde René é levado para que seja iniciado na aprendizagem da dor mais se assemelha a um educandário de ensino religioso. A seita que o pai de René é um dos líderes se aproxima da formação dos partidos com vocação totalitária e dedicação extremada à causa. Mas a leitura de A carne de René coloca outros problemas além (o que já é muito) da narrativa alegórica.
A questão do duplo que se apresenta no texto também é singular. O duplo, desde que modernamente conhecemos na expressão do conto "William Wilson", de Edgar Alan Poe, geralmente se apresenta como uma duplicação da personalidade invertida (polo negativo, polo positivo) embora com o mesmo surpreendente corpo. Não é nomeado de duplo. Há apenas a sugestão, óbvia mas sugestão, para o leitor. O mesmo acontece com os duplos contemporâneos de Piñera. O duplo em Borges, por exemplo, é uma inquietação metafísica. Uma metáfora do desconforto intelectual num mundo restritivo que faz com que o narrador se refugie no universo de virtualidades que é o universo dos livros inexistentes, das bibliotecas extraordinárias e de jardins existenciais que se bifurcam. O duplo em Piñera é descarado ( o mesmo duplo que José Saramago utilizou como tema em O homem duplicado ). Todos têm um duplo, assim nomeados. Desta maneira, Piñera gera uma ironia narrativa que não está no texto, mas no contexto de sua contemporaneidade. Está no uso e abuso do tema.
O realismo mágico para mim pertence à categoria do “re-encantamento do mundo” ( Michael Löwy ). Não que este mundo seja elevado ou sublimado a um estado lírico ou poético. O “re-encantamento do mundo”, como acontece com o surrealismo de Breton, é o signo transgressor do sonho, de uma acusação do mundo realista e burguês, medíocre, opressivo, temeroso do inconsciente. A carne de René, entre tantas outras leituras, acaba nos levando a encará-lo como um livro de denúncia, onde o estado e a sociedade aceitam o pacto da violência.

imagem retirada da internet: crucifiction

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Tema para uma tapeçaria, Cortázar


 
Guerra Santa
 

                                                 

 

         O general só tem oitenta homens, e o inimigo cinco mil. Na sua tenda, o general blasfema e chora. Então escreve uma proclamação inspirada, que pombos-correio derramam sobre o acampamento inimigo. Duzentos soldados  aderem ao general. Ocorre então uma escaramuça que o general vence facilmente e dois regimentos aderem ao seu comando. Três dias depois o inimigo só tem oitenta homens e o general  cinco mil. Então o general escreve outra proclamação e setenta e nove homens aderem ao seu comando. Resta apenas um inimigo, cercado pelo exército do general que aguarda em silêncio. A noite passa e o inimigo não adere ao seu comando. O general blasfema e chora na sua tenda. De madrugada, o inimigo desembainha lentamente a espada e avança até a tenda do general. Entra e olha. O exército do general debanda. Sai o sol.

 


(in Histórias de Cronópios e de Famas)