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sábado, 11 de maio de 2019

As palafitas, poema RCF






O bisturi do rio rasga a carne da terra
e, assim, retorcida e cirúrgica, a floresta
deixa à mostra a veia exposta.

O rio é um mar com margens,
obsessivo e operoso,
sempre com falo ereto e fértil,
quando não defeca as impurezas industriais,
que se rabisca nos papéis da terra,
e vai cuspindo gente ribeirinha.

No campo amazônico,
as casas de varandas arregaçadas
molham as canelas na água.
Veneza selvagem, de palacetes de madeira,
renascimento de instintos insopitáveis.

O silêncio da mata
pia e borda
à beira amazônica das águas.
A água está dentro dos homens
com seus naufrágios. Um dia
a morte virá - colapso - e o
legista assinará: afogado de si mesmo.

A palafita, em meio à selva,
é um bicho de madeira:
tem vértebras das paredes,
tem respiração pelos brônquios das janelas,
excreta pelas fossas do quintal.

Morto o bicho de pernas finas,
seu oco desabitado de entranhas
torna-se hospedeiro do micróbio homem
que ali secreta seus humores
e a palafita, bicho anfíbio,
passa a ser transmissor
das pequenas misérias humanas.



(Terratreme. Brasília: Fundação Cultural do DF, 1998)
 
imagem retirada da internet: rio amazonas, denise barsted


domingo, 16 de setembro de 2018

Queimada, poema RCF



A queimada
coloca a terra de cabeça
para baixo
deixando à mostra as raízes
retorcidas em seu gozo de fogo.

O fogo vai arando
               com sua foice de línguas,
               foice de lâmina mole
               mais cortante que fio da navalha.

O campo todo é plantação
de navalhas.
Estou só, perdidamente só,
olhos incandescidos,
na visão fervente do inferno na terra.

Olha bem, são as chamas sentinelas
que, esgalgadas,
vão se esmiuçando
na tropa vermelha
da terra arada
            pelos bois
           de morte e fúria
           que são a combustão
           do homem desesperado.

Tudo se amiúda
e cobrem a terra
a coivara
e as sementinhas
negras do nada
das cinzas.
Há silêncio
             e o crepitar atrasado
             do borralho
– é a terra que se asfixia
dos restos de si mesma
com a capa de chuva negra
que desveste
               quando deveria cobrir.




(do livro Terratreme, Fundação Cultural de Brasília, 1998)

imagem retirada da internet: frans krajcberg