segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Auto-retrato, poema Amneres Santiago Pereira Maurício





Eu sempre andei assim
quase absorta
quase abstrata
quase perdida

Eu sempre entristeci
quase obscura
quase culpada
quase escondida

Eu sempre amei assim
quase obscena
quase extremada
quase exaurida

Eu sempre percebi
ser esquisita
quase obtusa
quase maldita

Eu sempre fui assim
quase uma atriz
sonhando ser o amor
e ser a amada

Eu sempre fui assim
quase exaltada
quase encantada
quase feliz.





segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Viva a bobagem. O fim da literatura


Rubem Fonseca, hoje, não seria publicado’, diz diretor do selo Fantasy
Autor da série de fantasia ‘Dragões de Éter’, Raphael Draccon afirma que a era dos autores reclusos acabou
‘É preciso que sua história de vida seja tão impactante quanto a que você criou’, afirma escritor carioca
Editor do selo de literatura fantástica da Casa da Palavra, Draccon participará da 16ª Bienal do Livro do Rio





O escritor carioca Raphael Draccon: mais de 200 mil livros vendidos  Leandro Bergamo / Divulgação 

RIO - A partir deste sábado, a 16ª Bienal do Livro do Rio será invadida por autores de literatura fantástica e seus fãs fervorosos. Este é o dia em que Raphael Draccon, autor da série “Dragões de Éter”, conversará com o público do Acampamento (espaço dedicado aos jovens) sobre o tema “Escritos e escritores de literatura fantástica no Brasil”, às 17h. Além de abordar o processo de criação de universos literários - como Nova Ether, habitado por bruxas e outros seres mágicos -, Draccon, que também é diretor do selo Fantasy, da Casa da Palavra, responderá à pergunta que mais ouve: como se tornar um escritor de sucesso?
- Todo mundo acha que tem uma história boa e que ela daria um livro. Então, a pergunta que o escritor deve se fazer é: “O que eu ofereço para a editora além da minha obra?”. É preciso que sua história de vida e sua personalidade sejam tão impactantes quanto a fantasia que você criou - afirma o escritor carioca.

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Com mais de 200 mil exemplares vendidos da saga “Dragões de Éter”, Draccon decreta que a era dos autores introspectivos acabou. Segundo ele, hoje, é preciso participar de muitos eventos e saber se comunicar com o leitor.
- Os adolescentes são ávidos, estão sempre passando por descobertas e questionamentos. Para eles, a literatura fantástica é uma metáfora do que está acontecendo em suas vidas. Por isso, o escritor precisa ter um conteúdo para transmitir e precisa saber se apresentar em público também - observa Draccon. - Esse autor introspectivo, que passa o dia dentro de casa escrevendo, não existe mais. Rubem Fonseca, hoje, não seria publicado. Ele é de outra escola, outra época.
Consciente da polêmica que a afirmação sobre o premiado - e, sabidamente, recluso - escritor brasileiro pode gerar, Draccon reforça a importância da comunicação na vida de um aspirante a escritor. Sua dica é que o candidato crie um público através da internet, através de blogs ou podcasts, por exemplo, antes de procurar uma editora. O próprio coordenador do selo Fantasy encerrou o recebimento de exemplares originais em seu escritório.
- Dois dias depois de anunciar a abertura do selo, já tinham chegado mais de 80 livros - conta Draccon.
O jeito é chegar aos ouvidos e os olhos do editor de outras formas.
- Participo de eventos de literatura de fantasia no Brasil todo e estou sempre acessível na internet. Se o cara ainda não chegou até mim, é porque ele não está pronto para o mercado - diz.
Mas esse é só o primeiro passo. O segundo estágio é ter todos os seus perfis na internet minuciosamente analisados por Draccon e a equipe de redes sociais da Casa da Palavra.
- Fazemos uma varredura da vida online da pessoa. Se houver um post sequer dela falando mal de outro autor ou comprando briga na internet, ela é cortada na hora - avisa.
Essa é a postura de um expoente do seguimento literário que cresceu graças à união entre seus autores. Não é à toa que Draccon e os colegas Eduardo Spohr (“A batalha do apocalipse”) e André Vianco (“Os sete”) se tornaram conhecidos como “a santa trindade da literatura fantástica brasileira”. E os três continuam chamando novos autores para integrarem sua rede.
- Preferimos nos unir do que competir. Assim, um divulga o livro do outro - justifica o criador de Nova Ether, que conheceu sua mulher, a também autora de livros de fantasia Carolina Munhóz, através do amigo Spohr. - Ele descobriu o talento da Carolina para a literatura e nos apresentou. De padrinho dela, me tornei marido.
Carolina também conversará com o público da Bienal neste sábado, às 15h, no pavilhão Verde do Riocentro. No dia 7, a vez será de Eduardo Spohr e André Vianco assumirem os microfones, às 16h30 e 18h30, respectivamente. A entrada custa R$ 14 (tem meia).

 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Paixão encadernada, Humberto Werneck




Já não me lembro que livro ia pegar no alto da estante quando minha atenção foi sequestrada por aquelas encadernações em que há muito não tocava. Só sei que ali fiquei por um bom tempo, no último degrau da escadinha, a folhear quatro romances de F. Scott Fitzgerald, paixão literária que me acompanha desde o final da adolescência. A ela sou fiel, e continuo achando que este é dos raros escritores a cuja magia verbal nenhum filme fez ou fará justiça inteira.

Mas não era nisso que eu pensava enquanto lambiscava os livros - os mesmos exemplares que depois de devorar, aos 18, 19 anos, julguei indispensável fazer encadernar em percalina verde, o máximo que alcançavam meus bolsos rasos de estudante, sem esquecer de pedir iniciais minhas nas lombadas, na certeza de que aquelas caprichadas edições da Civilização Brasileira me acompanhariam vida afora. Posso não ter tirado o melhor proveito, mas me consola o uso que delas fez, de carona, meu comparsa Jaime Prado Gouvêa, o refinado fitzgeraldiano contista de Fichas de Vitrola e romancista de O Altar das Montanhas de Minas.
Quando dei por mim, estava acomodado no sofá, onde varei a tarde entre as páginas de Este Lado do Paraíso, Belos e Malditos, O Grande Gatsby e Suave É a Noite. Comecei revisitando enredos e personagens, mas não tardei a me ver encalhado em algo que é de Fitzgerald, mas também meu: as marcas da caneta com que, no pique da juventude, fora grifando achados, encantado - e, ao mesmo tempo, humilhado, ao constatar que alguém, antes de mim, pusera em palavras sutilezas que (eu não deixava por menos) tinham tudo para ser da minha lavra. Valeria a pena, aqui ao rés do chão, escrever o que quer que fosse, depois de ter o Fitzgerald espetado no papel tantas frágeis, fortíssimas borboletas?
Essa foi minha viagem naquela tarde: reencontrar as pedrinhas com que eu, Joãozinho e Maria no bosque da literatura, assinalei meus passos inaugurais no universo de um artista de primeiríssima grandeza, num tempo em que, como o Amory Blaine de Este Lado do Paraíso, ainda "caminhava sobre as almofadas de ar que se estendem sobre o asfalto, aos 14 anos". A caneta do garoto sublinhou a pérola, claro, e muitas outras, entre elas esta sábia advertência: "Não há dádiva mais perigosa à posteridade do que algumas trivialidades ditas com inteligência". Tanto quanto Amory, e talvez mais pretensioso, eu me considerava nada menos que "o produto de um espírito versátil em meio de uma geração inquieta". Pois sim...
Em Suave É a Noite, me identifiquei, quem duvidaria?, com o charmoso psiquiatra Dick Diver nos momentos em que "se via naquele dilema dos moços, quando se deve decidir se vale ou não a pena morrer pelas coisas em que não mais acreditamos", ou na passagem em que se julgou "feliz por ter uma existência, nem que essa existência fosse apenas um reflexo nos olhos úmidos de Nicole", a linda paciente com quem se casara.
Senti dilacerante inveja de Fitzgerald, capaz de sacar que "às vezes é mais difícil a uma pessoa privar-se de uma dor do que de uma alegria", ou que, também às vezes, "a vastidão de um assunto só pode ser condensada numa mentira". Como Nicole, o jovem leitor de Suave É a Noite gostaria de sentir-se "apenas um conjunto de diferentes pessoas simples".
De O Grande Gatsby, nem precisaria ter rabiscado o livro para me lembrar agora, já na primeira página, que "um certo senso de decência fundamental é concedido ao homem, desigualmente, ao nascer", e, na última, que ao fim e ao cabo "prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado".
Tendo relido seus grifos de rapaz, resta ao encanecido senhor percorrer de ponta a ponta os livros que tanto o fascinaram na juventude, e não só os de Fitzgerald, à procura, desta vez, das pepitas pelas quais passou, em idades nem tão verdes, sem se dar conta do que lhe era oferecido. Não há releitura de Drummond que não dê a espetada: quem era eu, nas viagens anteriores, que não vi tamanhas maravilhas? O fecho de Versos À Boca da Noite, por exemplo, em que o poeta fala de "uma inteligência do universo comprada em sal, em rugas e cabelo". É o que quero para mim. O preço, pelo menos, já paguei.




(fonte: Estadão)