quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Morte de um sonho, Pedro Salinas




Começam sempre os sonhos a morrer
pelos pés que não querem já levá-los.
E como o céu de um sonho está em seus olhos
o último que se apaga é seu olhar.
E foi por ti que eu vi o que nunca vira:
o cadáver de um sonho.
Dia a dia eu o vejo, aqui em meu rosto, ao levantar-me.
(Voltaste o teu olhar para outro rosto).
Eu sinto-o em minhas mãos,
enormes fossas cheias de sua falta.
Ali ele jaz: meu peito é sua tumba.
Ressoa-me nos passos
que vão, como vivendo, até a minha morte.
Eu sei o segredo último:
o cadáver de um sonho é carne viva,
É um homem de pé, que teve um sonho,
e alguém matou-o. E que finge viver.
Porém, antes de ser seu próprio morto,
já é, agora, o cadáver de um sonho.
Por ti possa eu saber como vivendo
se ressuscita, ainda, entre os mortos.
 
 
PEDRO SALINAS, últimas estrofes de “Morte do Sonho”.
Tradução de José Jerônimo Rivera.

 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

ÅKE LANGE1909-1975Ingrid Bergman, 1935Gelatin silver print, 27 x 21, 5 cm. Vintage.
Stockholms Auktionsverk
AKE LANGEL-1975-INGRID BERGMAN, 1935. STOCKHOLMES AUKTIONSVERK

Onde está teu rosto,
exposto à máquina do tempo,
ao espelho da fotografia
que rompe e nega a carne
e tudo transforma em sonho
de película – a película fina
da vida que se desfaz
quando se desvia o olhar?


(inédito, 13.12.2011)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Soneto XXVI, Cláudio Manuel da Costa




Não vês, Nise, este vento desabrido,
Que arranca os duros troncos? Não vês esta,
Que vem cobrindo o céu, sombra funesta,
Entre o horror de um relâmpago incendido?

Não vês a cada instante o ar partido
Dessas linhas de fogo? Tudo cresta,
Tudo consome, tudo arrasa, e infesta,
O raio a cada instante despedido.

Ah! não temas o estrago, que ameaça
A tormenta fatal; que o Céu destina
Vejas mais feia, mais cruel desgraça:

Rasga o meu peito, já que és tão ferina;
Verás a tempestade, que em mim passa;
Conhecerás então, o que é ruína.

imagem retirada da internet: fotolog, casa de claudio manuel da costa, ouro preto