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terça-feira, 12 de setembro de 2017

Caminhante, António Machado


Resultado de imagem para ANTONIO MACHADO POETA




XXIX



Caminhante, são tuas marcas
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar.
Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho,
senão estrelas no mar.





quarta-feira, 18 de maio de 2016

O menino e o papagaio, Dámaso Alonso














O menino deu um sorriso
– mão inábil, olho atento
e o papagaio no vento
– seu coração – aí pairava.
Ave, papagaio, de um dia
seu coração sonolento.
Pois o coração queria
fugir – porém não podia,
porém não sabia – ao vento.




Tradução: RCF



 Meninos soltando pipas, Portinari, 1943.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Morte de um sonho, Pedro Salinas




Começam sempre os sonhos a morrer
pelos pés que não querem já levá-los.
E como o céu de um sonho está em seus olhos
o último que se apaga é seu olhar.
E foi por ti que eu vi o que nunca vira:
o cadáver de um sonho.
Dia a dia eu o vejo, aqui em meu rosto, ao levantar-me.
(Voltaste o teu olhar para outro rosto).
Eu sinto-o em minhas mãos,
enormes fossas cheias de sua falta.
Ali ele jaz: meu peito é sua tumba.
Ressoa-me nos passos
que vão, como vivendo, até a minha morte.
Eu sei o segredo último:
o cadáver de um sonho é carne viva,
É um homem de pé, que teve um sonho,
e alguém matou-o. E que finge viver.
Porém, antes de ser seu próprio morto,
já é, agora, o cadáver de um sonho.
Por ti possa eu saber como vivendo
se ressuscita, ainda, entre os mortos.
 
 
PEDRO SALINAS, últimas estrofes de “Morte do Sonho”.
Tradução de José Jerônimo Rivera.