sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A Catedral, poema RCF



Muda, espalmada,
                  reiterativa como um terço
                  em cada hora, a Catedral é outra:
                  furtiva,
                  confessionária,
                  passante e pia.

A luz da Catedral de Brasília
                 não é luz mística.
                São caldeiras:
                as fornalhas das máquinas,
                o pequeno inferno
                dos pecadores
                que ilumina cada igreja.

Assim, crua,
               na linha dissidente
              do horizonte,
              a Catedral não é obra de arquitetura
              nem templo
              nem casa de oração.

A Catedral, na Esplanada dos Ministérios,
             é apenas repartição pública,
             prédio burocrático,
             Sé das almas expedientes.


(do livro Estrangeiro, 1997)

imagem retirada da internet: catedral de brasília

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

A bússola do relógio, poema RCF



 



Para que construir novo relógio?
Em vez do ponteiro
que é uma bússola
que mostra o corte em vez do norte
que aponta o só em vez do sul
que revela a peste em vez do leste
que acusa o fim em vez do oeste,
que se faça uma hora sem ponteiro
como se a bússola do tempo
não tremesse parada na solidão,
não desabrochasse o botão
da rosa de vento da morte
e, por fim, criasse o equívoco
de uma ampulheta de cintura cerrada,
em primeiro lugar venha o fim do minuto
e depois o que se segue é inútil segundo.








(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



sexta-feira, 18 de outubro de 2019

De como quase matei Carlos Drummond de Andrade



Certa vez entrei no elevador
e encontrei o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Era no Palácio da Cultura,
na rua México, onde o poeta trabalhou
a vida inteira.
Só nós dois no elevador.
Silêncio.
Houve um espasmo poético,
um frio na barriga em verso livre,
a máquina do mundo da poesia
ali na caixa de ferro do elevador.
Fiquei pensando
que poderia matar o poeta CDA.
Ficaria famoso como ficou famoso
Lee Oswald por matar Kennedy.
Falariam de mim toda vez que
falassem de Drummond.
Mas não aconteceu nada. A porta
do elevador abriu, o poeta
publicou mais livros de poesia
e eu não matei CDA.Ah, ficaria famoso como
quem matou John Lennon.
Como era mesmo o nome dele?


(do livro O difícil exercício das cinzas)