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segunda-feira, 9 de março de 2026

O amor traduzido, poema RCF


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Visitei a casa do ciúme,
onde se supõe que cada sombra
esconde encontros lúbricos
atrás de portas que se multiplicam
como espelhos postos um diante do outro.
Pensei em gestos ensandecidos:
enforcamento por pasmo,
o arsênico da fome,
o gás do flagrante.

Vesti-me de todas as maneiras,
deixei o cabelo crescer;
cortei o cabelo,
usei bigode e fiz curso noturno.
Li poemas de Shakespeare,
no original,
porque o amor
é de difícil tradução.



(poema reescrito do livro de estreia Estrangeiro, Rio, Sette Letras, 1997)

domingo, 23 de janeiro de 2022

Ressureição, poema RCF

hélices



Quantas cruzes serão necessárias
                                   para um Cristo?
Há dois mil anos mata-se o
                                   mesmíssimo homem
                                   – é preciso morrer tantas
                                   vezes ao longo dos séculos?

Por que rezo pelos joelhos?
Por que meus narizes
                                   incensam uma vida eterna?
Ainda por cima
                                   tenho a ligeira impressão
                                   que a hóstia é uma moeda?

Gosto das caves londrinas ou de Nova York
                                   onde me sinto nas catacumbas.
Os padres do Nordeste eram velhas sicilianas,
                                   arrastando as roupas negras,
                                   o velho hábito das viúvas e mulheres
                                   de pescadores portugueses e gregos.

O padre tinha um ouvido
                                   de palhinha
                                   e eu sussurrava os mais doces pecados.
Oh, Deus, pequei –
                                   quantas Ave-Marias
                                   e quantos Padre-Nossos
                devo para expiar
                a culpa de duvidar?

As igrejas me dão sensações febris,
                                    e do púlpito todo orador me revela
                                    a incapacidade de eu ser melhor do que sou.
Viverei mil anos e não aprenderei
                                    a jejuar, a deixar de exigir de Deus,
                                    a dar a nota maior da carteira,
                                    a não cobiçar a falsa plenitude do próximo.

Se todo homem carrega
                                    seu deserto,
                                    sua Via-Crúcis,
                                    sua Terra Prometida,
                                    quando o dedo de Deus
                                                                        me ressuscitará?



(do livro Estrangeiro. Rio: Sette letras, 1997)









segunda-feira, 4 de outubro de 2021

A guerra, poema de RCF




Cheguei a ter uma rosa dos ventos
que apenas floriu
nas cartas que jamais recebi.
Não posso negar que tenho a consistência
de um trem:
meu início pode ser meu fim
(basta que mude de lugar
a fornalha que arde meus loucos motivos).

Cheguei a crer-me medieval e encouraçado:
era apenas a Idade Média da adolescência.
Meu norte é fácil porque depende apenas
de um fonema: a morte.
Tenho nostalgias das pontes
e gosto da idéia de estar
suspenso entre duas margens.

Acordo sempre com a sensação
de não haver dormido.
E o sono, ao contrário da letargia,
tem sido apenas uma pitada errada
do sal da lucidez
que, exagerado,
maltrata antes que dá gosto.

Nenhuma arma
fere mais, mortal e decisiva,
como o fogo-fátuo das sensações.
Passo então o dia no mundo da lua:
Sou Jorge e o Dragão.



(do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)



imagem retirada da internet: medieval

segunda-feira, 15 de março de 2021

Estado alterado da razão-poema RCF














Quando ando em Paris no meu bairro
quando corro e não saio do lugar
quando chego em casa no trabalho
quando choro meus mortos
que ainda estão vivos
quando tiro o pino da granada
da fruta de conde
é
que meu verso está na minha frente.



(do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)



quarta-feira, 2 de setembro de 2020

O náufrago aéreo, poema RCF





Logo virá a noite
com seu casco
cobrir o corpo das marés.

Os aviões farejam na pista
o capim cinza do asfalto.
O aeroporto são luzes
gritando e soluçando
no espaço de um pouso
e de uma decolagem
– a vida entre aspas.
O display não dá
a hora do pouso final.

Embarco
e vou tão estrangeiro e íntimo
como a poltrona dos aviões.
Para nós que sobrevivemos
ao amigo suicida, ao louco
e ao que morreu na política,
a vida é o pasmo
de saber-se náufrago do ar.

(do livro Estrangeiro, Rio: Ed. Sette Letras, 1997)

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Capela Sistina, poema RCF



Queria te escrever poemas de amor,
mas de que valem eles?
O amor não move as fábricas,
nem faz aparecer a seca ou a chuva.
O amor não enche o campo de milho,
nem faz pastar o boi.
É apenas um gesto humano,
ordinário, pequeno, às vezes enlouquecido.
Um gesto apenas:
talvez o único
onde o homem toca o dedo de Deus.


(do livro Estrangeiro, 7letras, 1997)

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A Catedral, poema RCF



Muda, espalmada,
                  reiterativa como um terço
                  em cada hora, a Catedral é outra:
                  furtiva,
                  confessionária,
                  passante e pia.

A luz da Catedral de Brasília
                 não é luz mística.
                São caldeiras:
                as fornalhas das máquinas,
                o pequeno inferno
                dos pecadores
                que ilumina cada igreja.

Assim, crua,
               na linha dissidente
              do horizonte,
              a Catedral não é obra de arquitetura
              nem templo
              nem casa de oração.

A Catedral, na Esplanada dos Ministérios,
             é apenas repartição pública,
             prédio burocrático,
             Sé das almas expedientes.


(do livro Estrangeiro, 1997)

imagem retirada da internet: catedral de brasília

terça-feira, 23 de julho de 2019

A hora ausente, poema RCF




A moenda dos dias tritura o que já é bagaço.
É muito tarde para inventar a hora e a vida.
Sem rosto,
não me encontro em nada que faço.
Não sei se chego ou se estou de partida.

Não tenho ilusão
a respeito da hora ausente
nem lamento
o fardo afiado da lucidez.
Aqui fico, espectador,
a vida passa,
recolho minhas dores civis,
conclusão: fui o fazedor que nada fez.




(do livro Estrangeiro. Rio: Sette Letras, 1997)



imagem: otto dix

quinta-feira, 14 de março de 2019

Marítimo, poema RCF

 Elina Brotherus's Baigneuse, Orage Montant'

                                  


Que velocidade marítima está em nós,
que Deus sabe de meus pecados
e tombadilhos
à espera de um
dedo de proa
que nos livre do
cais, do caos
e da desordem?

Que jardim marítimo planta
a rosa dos ventos
nesta naufragata
que avança alucinada e pura
e não me popa
destes diários desatinos
                                   de bordo?

Este mar não me salva-vida
me leva o Leme
faz do Rio um mar
e me naufraga na onda
das marés da moda.
Este o dilema, o fato mercante
que me assalta:
a bússola ou a vida?

                                   (do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

A guerra, poema RCF


Resultado de imagem para radu belcin

Cheguei a ter uma rosa dos ventos
que apenas floriu
nas cartas que jamais recebi.
Não posso negar que tenho a consistência
de um trem:
meu início pode ser meu fim
(basta que mude de lugar
a fornalha que arde meus loucos motivos).

Cheguei a crer-me medieval e encouraçado:
era apenas a Idade Média da adolescência.
Meu norte é fácil porque depende apenas
de um fonema: a morte.
Tenho nostalgias das pontes
e gosto da idéia de estar
suspenso entre duas margens.

Acordo sempre com a sensação
de não haver dormido.
E o sono, ao contrário da letargia,
tem sido apenas uma pitada errada
do sal da lucidez
que, exagerado,
maltrata antes que dá gosto.

Nenhuma arma
fere mais, mortal e decisiva,
como o fogo-fátuo das sensações.
Passo então o dia no mundo da lua:
Sou Jorge e o Dragão.




(Estrangeiro. Rio: 7Letras, 1997)




sábado, 12 de janeiro de 2019

The Cathedral

Resultado de imagem para catedral de brasilia

Sepulchral, splayed,
                 reiterativeas a rosary,
                 the cathedral is permanently fickle:
                 furtive,
                 confessional,
                                     peerless and pious.

The light flooding Brasilia' Cathedral
                 is no mystic effulgence.
                 Here are boilers:
                 fiery furnaces,
                 the private purgatories
                 of pretty sinners
                                      that light up each church.

Callow and crisp
                 on the dissident rim
                 of the horizon
                 the Cathedral is no monument,
                 not a temple
                                        nor a house of prayer.

The Cathedral is the Ministerial Thoroughfare
                 is simply a section,
                 a bureaucratic building
                                         See os 9-to5 souls.


(tradução Mark Ridd)



A catedral.


Muda, espalmada,
                  reiterava como um terço,
                  em cada hora, a Catedral é outra:
                  furtiva,
                  confessionária,
                                     passante e pia.


A luz da Catedral de Brasília
                   não é luz mística.
                   São caldeiras:
                   as fornalhas das máquinas,
                   o pequeno inferno
                  dos pecadores
                                      que ilumina cada igreja.


Assim, crua,
                na linha dissidente
               do horizonte,
               a Catedral não é obra de arquitetura
               nem templo
                                      nem casa de oração.


A Catedral, na Esplanada dos Ministérios,
                é apenas repartição pública,
               prédio burocrático,
                                   Sé das almas expedientes.

(do livro Estrangeiro, 1997)


domingo, 11 de novembro de 2018

A garça, poema de RCF


Resultado de imagem para garça pintura

Eis que a garça
                         para
e, assim,
fixa,
é flor do cerrado.
Tomada de susto,
abre asas,
é flor que voa
assim como a flor
é a garça
fixa
no chão.

Vem, me diz,
não és
garça e flor?
Assim,
fixa,
no cerrado de meus olhos,
não expandes
a fixidez do teu olhar
– infinito e horizonte –
e
quando
teus cabelos voam,
qual a asa de garça
– graciosa –
não és
flor que voa?




(do livro Estrangeiro, 1997)





quarta-feira, 7 de novembro de 2018

O matadouro, poema RCF





O respirar lento
das cafeteiras
no silêncio imóvel
do apartamento
(vapores e tardes,
no feriado dos anos).
Sobreviver
como um pássaro
pousado na boca de um cão.
A alma seca e austera.
Vou à rua
trago o peso das compras
e a sugestão das vendas
                                   nos olhos
– tenho a esperança
dos bois de matadouro.


(Estrangeiro, 1997)


sábado, 22 de setembro de 2018

O homem e sua estatura, poema RCF


Que fita medirá meu tamaninho
admirado nas salas de cinema?
O medo se flexiona apenas na primeira
e minha pessoa.

Que métrica medirá meus versos
ou que metro me dirá
a forma, volume e dimensão
do pensamento inexato, da existência imprecisa,
dos sentimentos dúbios e do gosto duvidoso pelas baladas antigas?

O homem tem várias estaturas por dia.
E, na morte, dois pesos e duas medidas.
Medirá o caixão
e os anos da vida.
O peso da vida que se livrou
e o peso da morte que o encarcerou.
Mas a verdadeira medida do homem está em seu bolso:
na medalha de São Jorge, na chave do escritório,
no telefone anotado no guardanapo, no cartão de negócios:
o bolso mede o homem
estatura de miudezas
a culpa, o remorso, a heroicidade anônima
escondida, escura e de pano.

Que diâmetro tenho eu das minhas dúvidas?


(do livro Estrangeiro, Ed. 7Letras, Rio, 1997)

imagem retirada da internet: igorkmarques

domingo, 9 de setembro de 2018

Os doidos da Psicopata, poema RCF



Tenho a disciplina rebelde das águas,
o aquartelamento dos sentidos,
as hipóteses das cadernetas de telefone.
É a melancolia das coisas imóveis
– abandonadas à inércia –
que me faz duvidar
de um Deus superior.
A canga do sereno
trepa nos meus ombros
e ando à noite
olhando o jardim noturno dos giraluas.
(Que planta exótica pode ser a giralua?
– A giralua –
me respondeu o doido da Psicopata –
é parente noturna do girassol.
Aparece no mesmo pasto
onde ovelhas feitas de nuvem
balem em silêncio)
Aqui, no escuro,
inflado por meu camisolão,
tenho desejos escusos
de não ser nada nem gira nem lua.

(Estrangeiro, 1997)

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Os diabos, poema RCF








As cordas do redemoinho
sobem ao céu
tranças loucas
feito peão.

O lobo é o diabo do cordeiro
o capitão do seu sargento
o cachorro do gato
o inspetor do transgressor
na ciranda dos diabos e dos pobres
todos somos pobres diabos.

Os caboclos mascam fumo
sentam-se nas calçadas
das cidades do interior.
Os caboclos são pobres diabos.

No morse dos olhares
a cidade se move
e os bondes rangendo
os dentes
em São Francisco
ou Santa Tereza
são pobres diabos de ferro.

O diabo é que o rico
é diabo mas não é pobre.
E se tem um diabo
para o diabo rico
– que o pode fazer pobre diabo –
é a sua consciência,
seu espírito atormentado,
que empobrece o diabo rico
e o torna um pobre diabo.





(Estrangeiro, 1997)

imagem: sverrir thorolfsson

domingo, 19 de agosto de 2018

Goya, poema RCF









Há um instante
entre o desejo do homem
e a fúria de Deus
que a luz falsa dos quadros
passa a ser a única capaz
de iluminar o destino verdadeiro.






(Estrangeiro, 1997)

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O rosto-poema RCF





Na sombra, os rostos têm todas as feições
porque nela cabe a imaginação cuja cara é uma deusa sem rosto.

Por isso te vejo em todas as sombras –
                                    sombras do quarto ou da noite.

Por isso estás também
                                   em minha mente
                                   que vive em permanente sombra.



(do livro Estrangeiro, 7Letras, 1997)
imagem retirada da internet

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O cavalo, poema RCF

Resultado de imagem para vivian maier



O cavalo,
            com seus músculos
                                      de corda,
                                      relincha
                                      ao pardo couro
                                      do pasto queimado.

A melhor cocheira
                                       é o prado
                                       onde a imensidão
                                       limita
                                                com o horizonte.
                                       O cavalo
                                       se apoia nas patas
                                       e
                                       na hipótese
                                       – o olhar gordo do cavalo
                                       averigua o relógio do tempo:
                                                       lento é o riacho
                                                       rápido o vento.

Eis que volto à fazenda
e em vez de cavalo
encontro um guindaste:
as patas de lagarta e o corpo de ferro.
O animal guindaste suspende
de uma vala o animal cavalo
que nela – vala – caiu.
Suspenso assim
é um bicho fora do seu habitat
não pertence ao gênero da terra
não é marinho,
mínimo,
mas aéreo, cavalo Mobil Oil
como nos letreiros da Texaco Company.

De cabo a raso,
o cavalo é um soldado
na infantaria do seu dono.
Nada comanda,
nem mesmo seu corpo.
Aprendeu na caserna da fazenda
a disciplina, o mando e a marcha.
O freio repuxa o instinto.
O relincho é um guincho
e essa diferença de sentinela
é apenas tristeza do bicho na tropa humana.

O cavalo – matutino – escova suas crinas no pente do vento.
Quem inventou o cavalo – besta de carga –
não foi a natureza e seu lombo
nem mesmo o furor utilitário
a essência nervosa da alma que prova
mas o gosto humano de servir-se do outro.



(do livro Estrangeiro. Rio: SetteLetras, 1997)