sábado, 24 de abril de 2021

O animal barbado, poema de Ronaldo Costa Fernandes



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Este animal que se rasura
como quem raspa a orelha do porco
para a feijoada de fim de semana,
este animal feroz e matutino,
como um auto-retrato,
com seus olhos 3 x 4 ,
observa a paisagem da janela
e do outro lado do vidro
está ele mesmo,
é ele a paisagem que envelhece
cada vez que a freqüenta.
Este homem ao espelho,
gilete de martírios e angústias violáceas,
barbeia seu minuto e sua morte,
exasperada e afiada servidão,
a consciência espumosa da pequena guilhotina.



(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)

imagem:magritte

sábado, 17 de abril de 2021

Indústria do amargo-poema RCF


Otto Dix and the New Objectivity – Kunstsammlungen Chemnitz

A indústria do amargo desassossego,
a patente do medo, a geringonça

movendo as vísceras dentadas,
a fábrica de desacertos mostra o intestino,
manufatura de mercadoria e dejeto,
o lodo e o pêndulo como destino.

Eis o lodo, barro inútil para fazer gente,
massa fecunda para fabricar o desengano.

Agora a outra prensa do nada:
o pêndulo: que é o mesmo e seu avesso,
ora num lugar, ora em outro,
sem nunca sair de onde está;

preso de si, são dois em um,
um que se faz dois,
para iludir a salmoura da matéria.






(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)



quarta-feira, 14 de abril de 2021

O caminho problemático, poema RCF





o Guesa teme a estação dos mausoléus
– sem dia, sem noite –
que sai da caixa adubada
do ar condicionado
e anda no chão
de seca contínua
a enorme relva
aparada de granito

estranha a areia movediça
das escadas rolantes
o tapete
           mágico
feito de ferro, o mundo
          fantástico
das coisas que se movem
sem sair do lugar

vê as casas de vidro
das lojas e pensa
                          na cidade liliputiana
de Amsterdam
as prostitutas na vitrine das casas
manequins humanos
museu de cera vivo
                       ó mundo plástico da matéria

o Guesa percorre
os labirintos de vidro

vê desmaiarem-se
                 as falésias
das prateleiras
feitas
                da tabatinga das caixas

o bazar persa abole a lei da física

dois corpos
podem ocupar o mesmo espaço:
o da realidade
e o corpo do desejo

as máquinas
                cospem
latas de refrigerantes
                bichos
descomendo alumínio

as praças não são circulares
e os círculos contêm arestas

o Guesa
que conheceu as alturas dos Andes
o inferno de Wall Street, engenheiro
de minas, comedor de pedras da Quinta
da Vitória, nunca tinha visto
                                   o ambulatório
das almas fosforescentes

o Guesa errante
lê o grande livro
de vidro
os delírios das vírgulas
no globo de vidrilhos

o inferno
não é mau, diz o Guesa,
mas apenas
                  um caminho problemático