segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Palavras cruzadas, poema RCF


 


 

 

 

Meu vício

são as palavras cruzadas.

O pau de sebo

onde discos da coluna vertical

misturam as letras da História

à mitologia dos faunos.

 

O leito quadricular horizontal

onde os adjetivos dormem

e os nomes,

na batalha naval,

destróier e submarina

a enciclopédia dos tempos.

 

Meu vício

são as palavras cruzadas

da poesia.

 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Mirante, poema

 


 

 


 

 

 

O que mira o mirante?

O horizonte de si mesmo?

As montanhas de sua casa?

O vale dos corredores?

O mirante também pode se abismar

diante de sua pia.

Cada batismo

é um Jordão encarcerado.

O mirante vê em cada escada

uma ascensão ou queda,

embora haja subidas que nos derrotam

e descidas que nos sublimam.

Há um cânion

que erode as paredes de casa,

um deserto

que desidrata as cadeiras da sala.

O mirante é um visitador das horas.

Até onde a vista alcança

busca a dimensão do homem.

O mirante tem a dimensão do homem

e tudo o que o apequena

ele mede seu medo e seu tempo irrisório.

O mirante é sempre um trapézio

e nos lança à hipótese de um salto sem rede.

O mirante flana indiferente

às marés altas da cidade.

A torneira é um córrego

que corre para um rio vertical.

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 20 de novembro de 2022

O perdão, poema

 






A lixa vai limando o tempo.

Tem gente que se lixa para o tempo.

Mas ninguém escapa da folha áspera. 

Da folha que retira camadas de anos 

e dá a primeira mão do passamento. 

Quando a lixa fica velha, 

porque a lixa também tem sua lixa,

perde os dentes e saliva apenas esfregão.

A lixa arremata móveis, 

gente, ferrovia, bola de gude, pensamento, 

amores, dissidias, mas não fere o ódio, 

nem outras moléstias de desaforo do sentimento. 

Só a morte, que é a lixa final, 

que logo dá superfície sem tinta,

consegue lixar o desacordo.

Há gente que diz que o perdão 

é uma lixa cor de rosa 

que alivia, lima, 

corrompe o que já é corrompido, 

logo por oposição, dá brilho no fosco.