terça-feira, 27 de agosto de 2024

O elefante e a tristeza, poema

 


 

 


 

 

 

O verão chega

com suas patas pesadas.

Um corpo

que é um grande estômago

– um buda de quatro

que locomove o corpo

como se carrega

um grande cofre de couro.

Uma tromba

aspira ao mundo:

uma investigação olfativa.

O elefante ocupa mais mundo

que lhes cabe aos outros animais.

Um cachalote das selvas.

Assim é a tristeza

e suas pernas pesadas,

seu corpo de ventre do mundo,

o budismo sem sossego

da melancolia.

O cofre vazio das certezas,

logo a derrota

que ocupa mais mundo,

a tristeza

como o cachalote das trevas.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Mapa da sensatez, poema

 


 


 

 

 

 

As estradas

me conduzem aonde parti.

Os rios do pensamento,

turbulentos como um solo de jazz,

vão morrer num mar

de recuos e avanços.

A fronteira da minha sensatez

tem a ver com os limites

dos meus estados de sítio.

 

 

 

 

 

 

domingo, 18 de agosto de 2024

Chuvarada e raízes, poema

 


 

 


 

 

 

Chove tanto

que encharco minhas securas.

As ideias inundadas  

de rios sinuosos.

Uma das formas de tortura

é o pingo d’água.

Uma chuva

são vários instrumentos de tortura.

Mas a chuva também é bonançosa

e, casada com o sol,

faz a vida renascer.

Que ironia! Tudo em excesso arruína.

Por isso rego minhas fantasias

e uso a luz da razão

para não estragar

as raízes das minhas imaginações.