sexta-feira, 10 de abril de 2026

Rupestre, poema









 

 

  

Minha imprudência
é feita de cavernas
onde caço animais
nas paredes do desejo.
 
Ando rude e encovado
nos desenhos primitivos
da minha memória
quase extinta
pelos anos de escuridão.
No meu corpo
tão áspero e rupestre
há uma pré-história de mim.
 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

A garça II, poema RCF

                                         

 


 

Eis que a garça

                        para

            e, assim,

            fixa,

            é flor do cerrado.

Tomada de susto,

                        abre asas,

            é a flor que voa

            assim como a flor

            é a garça

            fixa

            no chão.

 



Vem, me diz,

                        não és

            garça e flor?

Assim,

                        fixa,

            no cerrado dos meus olhos,

            não expandes

            a fixidez do teu olhar

            – infinito e horizonte –

            e

                                    quando

            teus cabelos voam,

            qual as de garça

                                    – graciosa –

            não és

            flor que voa? 



(poema de Estrangeiro, Sette Letras, 1997)

 


segunda-feira, 30 de março de 2026

Plástica, poema RCF








A única plástica que me serve
não é na face, mas nas lágrimas.
Quero um rosto sem lágrimas, doutor.
Retirar a glândula que produz
a lágrima dos mortos.
Meus mortos surgem no trânsito,
no banho, no banco, no trabalho.
Os mortos não deviam vir ao trabalho.
Choraria em seco.
Um rosto seco, um rosto plástico,
um rosto cirúrgico.
E sem saber por que não podem
sair do cárcere seco em que os pus,
renasceriam na caixa imaginária,
que é a memória,
em outra forma que não fosse líquida.




(Memória dos porcos, Rio: 7Letras, 2012)