sábado, 14 de novembro de 2020

A fuga do risco


 

Por um caminho eu vinha
carregando nos olhos a dúvida
que faz aparecer e desaparecer
a realidade.
Por um obséquio do círculo,
que não deixa nada escapar,
a dúvida em seu trapézio
colocava óculos de grau
em fatos que não eram míopes
nem ao menos de perto se turvam.
Quero fugir do risco
que separa, como nas estradas,
os que vão e os que vêm,
um risco de mão dupla
que pode se tornar
um acidente dos sentidos.


( do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Os hibiscos, poema RCF

o enxame de hibiscos
          povoou a manhã salina

abro a pasta
          a água transformou
          os papéis
                      indissolutos
                      em raízes mortas

chove

meu pai de tropical inglês,
           subindo as escadas,
           vira-se
                    e me pergunta:

                   Por que ainda não me enterraste
                   se já morri faz trinta tortuosos anos?

esta falsa paisagem
                  londrina
                           da janela
                  embora com lagartos
                  que se deslocam
                  e plantas ao vento
                  é fixa
                  quadro cujas cores
                                          se corrompem

no hotel
em Búzios
onde hospedava
humores descarnados
           a fratura dos riscos
           me lembrava
           a cada instante
que a permanência
           é fluida
           e os ares marinhos
trazem
           salsugem e os mortos
como as ondas
           vomitam
           na praia
                     o que não digeriram




(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)

imagem retirada da internet: hopstel andarilho

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

A bexiga do martírio, poema RCF


Resultado de imagem para vivian maier

Não se respiram linhas,
não se veste de linhas,
não se alimenta de linhas.
Há dias que desperto para o sonho.
O corpo é terra fértil.
As palavras, que poderiam
ser abrigo, destelham.
O cipoal das palavras na floresta das folhas em branco.
Ninguém ensina o martírio.
Ele está em nós como uma bexiga.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)