sábado, 27 de março de 2021

Pai nosso que estais no céu de Brasília, RCF


portinari

  

O cheiro é uma espécie de diálogo.
Sempre dialoguei bem com as plantas.
Fácil é dialogar com o céu de Brasília,
porque ele é claro, transparente,
imensa bola de gude a nos cobrir.
Pai nosso que estais no céu de Brasília,
dai-nos hoje o estado de graça e beleza
dos olhos cheios d’água,
dos ipês acenando com mãos roxas,
do sol narciso que vem no Lago se mirar.
Dai-me o solstício das discórdias,
o zênite dos meus gozos,
a estação solar e a estação das águas:
mas, há também a estação das esperas,
época de seca de desvelos
e de enchentes de perdas.
Se o céu é o mar de Brasília,
estamos todos naufragados na luz intensa
que move o motor do nosso corpo
e a terra pronta para plantio da nossa mente.
E quando chega o planetário da noite
vêm as estrelas ciciar saudades.
Sob o céu transatlântico de Brasília
navega a nau dos operários
que a cada dia reinauguram a capital
ancorada neste porto sem água.
Difícil é dialogar com os pássaros,
riscos ariscos no céu de Brasília.


(Publicadono Correio Braziliense)

quarta-feira, 17 de março de 2021

Pescoços torcidos, poema RCF






Os pássaros se jogam de cabeça
na piscina vertical do reflexo
e, na sua ânsia de voo,
não percebem que a janela
é uma fotografia de vidro.

Os pássaros já vêm com pescoços torcidos
para a forca horizontal
da janela narcísica
em busca do infinito.
O lago de vidro não tem fundo
e o que espelha
é apenas uma imagem virtual
que mata com sua força de ilusão.
Nada é tão cortante, falso,
nulo e sem perspectiva
que a ilusão de vidro fumê.

Há de se ter por coisa não pouco
miúda isso do medo dos vidros,
da ilusão que pode se converter
em forca e fazer do voo diário
um espelho de pescoço torcido.




segunda-feira, 15 de março de 2021

Estado alterado da razão-poema RCF














Quando ando em Paris no meu bairro
quando corro e não saio do lugar
quando chego em casa no trabalho
quando choro meus mortos
que ainda estão vivos
quando tiro o pino da granada
da fruta de conde
é
que meu verso está na minha frente.



(do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)