sábado, 27 de agosto de 2022

Vulcão, poema

 


 


 

 

 

Tudo o que incinera por dentro me é humano.

Durante anos,

diagnostiquei meu magma.

Estudei

as formações rochosas do espírito.

Ginasiei a geologia das fúrias.

Mas, descobri Vasari

e entendi como funcionam os vulcões.

Primeiro,

o vulcão é uma fábrica.

Nela, ofende o ferro quente

um gigante musculoso.

Um forno

assa o pão

com o fermento das perguntas.

Depois, há um fole

para inflamar os nervos vermelhos.

A lenha nunca é verde

porque aqui o verde

é uma forma de coisa madura.

 

Na forja, o fogo operário

é torneado pelo vento

das irrupções nervosas.

Minhas lições de vulcão

me tornaram um homem deliquescente,

fugitivo de lavas,

que não limpam

o lençol alvo

das erupções adormecidas.

 

 

 

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Forma e reforma, poema

 


 

 


 

 

 

Ando cansado de ser ereto.

Minha quinta coluna

está infiltrada por entroncamentos.

 

Tampouco gosto

do método do rastejo.

Muito menos penso na morte

e sua voracidade horizontal.

 

Queria ser pluma,

mas tenho medo

de não saber flutuar.

 

As vezes que flutuei

fui levado à tonelada

da falta de ar.

 

Penso em reformar,

mas azulejo meu desatino

– tino que se desata –,

ergo a parede do início

e temo a argamassa do informe.

 

 

 

 

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Números, poema

 


 


 

 

 

 

Os números não me esquecem.

O zero,

diferente de um que não tem gordura,

quer se passar por invisível.

Por isso, sua forma oca.

A boca aberta para o tempo.

A natureza de furo

e vazio,

um oh de espanto

ou um bocejo do tempo

que não passa.

 

O pior dos números

não é me puxar pela memória.

O pior dos números 

é inverter a aritmética,

tornar o que é um dois

e o que é dois um,

logo dois braços pouco somam,

duas pernas diminuem

o ritmo dos metros.

O trapézio dos olhos

lança o corpo móbile da gravidade.